Eu nunca precisaria de um calendário para saber que é Outubro. Eu sinto nas minhas entranhas, é algo extremamente visceral. Deve ser o calor e a péssima mudança para o horário de verão. Os últimos sete Outubros foram iguais: faz um calor desgraçado, eu tenho essa sensação de vazio como se tivesse perdido alguma coisa. E no final do mês, sempre vem um temporal. E eu sempre acabo tomando chuva.
E sempre acabo escrevendo numa madrugada quente.
Se estivesse aqui hoje, você seria a única pessoa com quem eu poderia falar sobre todas as coisas. Tudo aquilo que já há algum tempo eu não tenho me permitido dizer a ninguém. E ás vezes eu fantasio que eu ainda posso falar contigo. Eu converso sozinho de madrugada andando pelo apartamento, tentando me convencer que você está sentado na sala, vendo os gols do Santos e ouvindo tudo aquilo que eu tenho pra dizer. É o que me impede de entrar em colapso, é o único jeito de não me sentir tão solitário.
Eu daria qualquer coisa pra voltar àquele verão onde éramos nós três sentados na frente da capela, escondidos da chuva conversando sobre todas as garotas que nunca conseguiríamos. Rindo da própria tragédia, mas de maneira doce e descontraída, nunca as coisas foram nebulosas quando você estava lá. Também ríamos do meu corte de cabelo - no começo eu não ria, é verdade. E eu posso imaginar de maneira perfeita você bêbado ouvindo uma música idiota que tocava na rádio dizendo o quanto ela era bonita. Foi a única que eu consegui te ensinar a tocar. E eu lembro dela até hoje.
Eu queria, no mínimo, saber dirigir. Então poderia atravessar a estrada no meio da madrugada, ouvindo todas essas músicas que fazem sentido pra mim, tentando ficar acordado até chegar de manhã na casa da minha mãe. Lá eu poderia sentar na mesa da cozinha dela de onde poderia ver a imagem de São Jorge montado no seu cavalo no altar depois do corredor escuro e imaginar como seria se eu acreditasse que sua espada pode me defender quando eu precisar. E poderia dizer pra minha mãe todas as coisas que eu tenho guardadas aqui dentro.
Eu nunca me senti tão solitário apesar de nunca mais ter estado sozinho. Mas pareço estar isolado do resto do mundo. Me sinto um intruso o tempo todo, em todos os lugares. É como se eu não pertencesse a lugar algum, de fato. Eu ainda sinto que você está mais próximo de mim do que qualquer pessoa que ainda respira, do que qualquer voz que eu ouça ou qualquer coração que ainda bate enjaulado no peito de cada um que parece cantar sublime no mais perfeito tom no coro dos contentes.
É quando eu sinto aquele nó se instaurar no fundo do garganta trazendo a boca do estômago até a minha língua.
Você teria se saído bem, muito melhor do que o resto de nós. E me machuca saber que eu nunca fui o amigo que você mereceu em vida. Nunca tive metade da tua sabedoria, um terço da tua paciência ou a mínima fração da sua cumplicidade.
E ninguém quer ouvir eu dizer que preferia ter sido eu.
Fantasmas tem me atormentado desde então por eu não conseguir viver por dois. Nem ao menos por mim eu tenho conseguido. Eu não consigo dormir, tenho fumado mais que deveria e comido menos do que poderia. Também não consigo perseguir meus objetivos por não saber quais são. Me sinto tão perdido quanto me sentia quando tínhamos quinze anos de idade e ríamos de você mijando na concha acústica. Eu estive lá no último ano. Ela não existe mais, foi soterrada para ampliarem a praça.
Sinto falta do quão estúpidos nós fomos. Não porque eu amadureci, mas é que, naquele tempo, eu tinha o direito de ser imbecil, mas o tempo cobra seu preço e todos tem me pressionado pra crescer de uma vez por todas. Mas aqui estou, desmoronando em lamentos para um morto que não pode mais me ouvir.
Também é difícil ouvir as outras pessoas contando histórias da juventude e sentir inveja por não ter vivido nada daquilo porque eu fiquei preso num ano que não acabou e me nego a aceitar que já se passou tanto tempo que todo mundo envelheceu, as coisas mudaram e as prioridades agora são outras. Mas eu passei a maior parte dos últimos sete anos trancado dentro de casa cumprindo minha promessa de odiar o mundo que arrancou de mim toda a minha ambição.
Estou cansado de sentir raiva de tudo. Estou cansado do constante sentimento de inadequação. E, principalmente, estou cansado das pessoas que acham que eu tenho controle sobre isso e posso parar assim que eu desejar. Ser uma pessoa "normal". Quando você morreu, isso era uma coisa boa. Hoje, ser diferente é moda, é hype, todo mundo gosta, exceto quando conhecem alguém que realmente não consegue se encaixar. Pois na vida real, não há romance algum em ser esquisito. Ninguém se importa e com certeza todo mundo vai te deixar pra trás se não conseguir acompanhar o fluxo das coisas. Ninguém quer ouvir um discurso triste de um derrotado, a não ser que ele seja um personagem de ficção.
Mas não, eu não desisti, ainda estou aqui, caminhando sobre essa linha amarela sem saber qual faixa eu devo seguir, sem saber qual direção tomar. Eu deixei o vento me levar pois não consigo tomar qualquer decisão sozinho pois aquele ano fodeu minha cabeça de todas as maneiras possíveis. Eu não consigo me olhar no espelho sem me envergonhar da comparação que insisto em fazer entre quem eu sou e quem eu imaginava que seria. Estou constantemente desapontado por não ser bom o bastante em absolutamente nada e não ter uma boa história pra contar.
Pelo menos em parte, aquele Outubro me matou junto com você. E eu não sei se me despeço de ti ou de todos os outros.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Dois Dedos D'água
Várias pessoas me disseram, nos últimos três meses, que eu deveria visitar um psicólogo.
Basicamente, pagar um profissional para ouvir todas aquelas coisas que eu tenho pra dizer e tentar me orientar sobre o que fazer. De fato, essas pessoas disseram pra eu pagar um especialista para fazer isso porque elas estão de saco cheio de fazer de graça.
Eu estou bem, obrigado. Não vou precisar de ajuda alguma por um bom tempo. Nem de piedade ou pena. Muito menos de julgamentos e ironias. Eu sei dos meus problemas (acho que todo mundo sabe).
Várias pessoas me disseram que o fato de eu não querer essa ajuda significa que eu não tenho problema algum e/ou não estou lutando contra ele. Da mesma maneira que uma pessoa que - seja lá qual for o motivo - não quer participar das sessões de quimioterapia não tem câncer de verdade. E aquela que se nega a usar uma prótese nunca sofreu uma amputação de verdade. Ou pior: essas duas pessoas se colocaram nessa situação simplesmente porque quiseram e podem sair dela assim que desejarem. Só não estão "se esforçando o bastante".
Estou vivendo submerso, mas descobri que o mar é raso, se eu lutar, nunca vou me afogar. Basta levantar o queixo e ficar nas pontas dos pés. Apenas dois dedos d'água me separam da superfície. Então corto meus pés em corais e estico meu corpo até seus limites anatômicos para projetar meu rosto pra fora d'água e, assim, conseguir respirar.
Cada um luta como pode, ninguém pode dizer que eu não estou tentando. Uns encontram conforto dentro de uma igreja, outros num consultório ou numa embalagem de remédios controlados. Tem aqueles que se agarram a coisas, a outras pessoas, às suas atividades.Mas alguns só aprendem a aumentar sua capacidade pulmonar.
Eu posso me afogar, eu sei. Mas não vou sem brigar até a exaustão para ficar aqui.
Basicamente, pagar um profissional para ouvir todas aquelas coisas que eu tenho pra dizer e tentar me orientar sobre o que fazer. De fato, essas pessoas disseram pra eu pagar um especialista para fazer isso porque elas estão de saco cheio de fazer de graça.
Eu estou bem, obrigado. Não vou precisar de ajuda alguma por um bom tempo. Nem de piedade ou pena. Muito menos de julgamentos e ironias. Eu sei dos meus problemas (acho que todo mundo sabe).
Várias pessoas me disseram que o fato de eu não querer essa ajuda significa que eu não tenho problema algum e/ou não estou lutando contra ele. Da mesma maneira que uma pessoa que - seja lá qual for o motivo - não quer participar das sessões de quimioterapia não tem câncer de verdade. E aquela que se nega a usar uma prótese nunca sofreu uma amputação de verdade. Ou pior: essas duas pessoas se colocaram nessa situação simplesmente porque quiseram e podem sair dela assim que desejarem. Só não estão "se esforçando o bastante".
Estou vivendo submerso, mas descobri que o mar é raso, se eu lutar, nunca vou me afogar. Basta levantar o queixo e ficar nas pontas dos pés. Apenas dois dedos d'água me separam da superfície. Então corto meus pés em corais e estico meu corpo até seus limites anatômicos para projetar meu rosto pra fora d'água e, assim, conseguir respirar.
Cada um luta como pode, ninguém pode dizer que eu não estou tentando. Uns encontram conforto dentro de uma igreja, outros num consultório ou numa embalagem de remédios controlados. Tem aqueles que se agarram a coisas, a outras pessoas, às suas atividades.Mas alguns só aprendem a aumentar sua capacidade pulmonar.
Eu posso me afogar, eu sei. Mas não vou sem brigar até a exaustão para ficar aqui.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Enxoval
Ela desceu do trem com passos curtos. Parecia perdida na Estação, embora já estivesse lá outras tantas vezes. Dezesseis anos, na bolsa, um cartão com endereço onde tinha hora marcada. O resultado dos exames e um bolo de dinheiro equivalente a mais de seis meses do seu salário. Ela saiu da estação procurando o melhor caminho para chegar ao endereço.
O "consultório" ficava há poucas quadras do Largo da Concórdia. Era Setembro e ela podia ver a luz do sol por trás dos prédios do Brás numa tarde quente que deixava claro que o inverno estava acabando. A cada dia o frio de Julho e Agosto parecia mais distante.
A cada passo ela só podia sentir a sensação de culpa e medo pensando na conversa que teve com a irmã e o cunhado no dia anterior quando ela mostrou os exames. Sua mãe não sabia, nem poderia saber. Contar estava fora de questão. Era uma questão de garantir sua integridade física. A irmã mais velha era a única a quem podia recorrer. E seu cunhado - um bixeiro da Penha - eram seus confidentes então.
O pai ainda não sabia, e provavelmente nem iria saber. O cunhado chegou no dia anterior com um bolo de dinheiro, um cartão com um endereço e uma hora marcada. E disse que era uma alternativa, mas que ela fizesse o que achasse melhor com o dinheiro e com o cartão. Ele só não queria que ela fosse vítima do próprio destino, o que quer que acontecesse então, seria sua escolha.
E lá estava ela, sentada num banco do Largo da Concórdia no meio da tarde tentando tomar uma decisão. Conferiu de novo o bolo de dinheiro. Incontáveis cédulas enroladas num elástico em um formato cilíndrico. Ela não se lembrava de ter visto tanto dinheiro assim na vida. Pensou em tantas coisas poderia comprar. Todos os seus sonhos fúteis de consumo adolescente ou até mesmo como aquela grana poderia financiar um bom estudo. Agora, o dinheiro serviria para ela continuar tendo a mesma vida de sempre: a de uma adolescente da periferia paulistana, perdida meio ao caos suburbano imersa na miragem que o calor causava no concreto da metrópole.
Seria um crime assim tão grave não querer que sua vida se virasse de cabeça para baixo? As coisas nunca foram fáceis, agora seriam ainda mais complicadas. Seria possível que lhe apontassem dedos com julgamentos cruéis e insensatos? Poderia ela se condenar por tentar tomar controle da sua própria vida, ao menos uma vez?
Uma lágrima correu pelo seu rosto e evaporou ao tocar o chão quente. Percebeu que já amava uma pessoa que ela ainda nem conhecia.
Sua mãe ficou confusa ao chegar em casa e encontrar um enxoval de bebê completo sobre a cama do quarto da filha. Além de um berço bonito de madeira desses de qualidade que não mais se produzem. A filha lhe entregou o resto do dinheiro que ainda somava uma grande quantia perto do que entrava naquela casa humilde vindo do trabalho árduo das mulheres que ali residiam.
Ao invés do sermão ou surra, o abraço e a compreensão de mãe - que conhecia bem o peso de ser responsável por uma vida e a coragem necessária para tomar qualquer uma das decisões que a filha teve que tomar naquela tarde de Setembro. Coragem que só mulheres podem ter. Responsabilidade que nós homens tantas vezes nos negamos a assumir.
E é essa a coragem de quem escolhe (ou é escolhida) para gerar uma vida. Sabendo que suas vidas nunca mais serão as mesmas, travam uma guerra num campo de batalha que soldado algum jamais teve de entrar.
E se estamos aqui agora, é porque alguma delas já travou essa batalha e decidiu por nós. Mas principalmente, por elas.
O "consultório" ficava há poucas quadras do Largo da Concórdia. Era Setembro e ela podia ver a luz do sol por trás dos prédios do Brás numa tarde quente que deixava claro que o inverno estava acabando. A cada dia o frio de Julho e Agosto parecia mais distante.
A cada passo ela só podia sentir a sensação de culpa e medo pensando na conversa que teve com a irmã e o cunhado no dia anterior quando ela mostrou os exames. Sua mãe não sabia, nem poderia saber. Contar estava fora de questão. Era uma questão de garantir sua integridade física. A irmã mais velha era a única a quem podia recorrer. E seu cunhado - um bixeiro da Penha - eram seus confidentes então.
O pai ainda não sabia, e provavelmente nem iria saber. O cunhado chegou no dia anterior com um bolo de dinheiro, um cartão com um endereço e uma hora marcada. E disse que era uma alternativa, mas que ela fizesse o que achasse melhor com o dinheiro e com o cartão. Ele só não queria que ela fosse vítima do próprio destino, o que quer que acontecesse então, seria sua escolha.
E lá estava ela, sentada num banco do Largo da Concórdia no meio da tarde tentando tomar uma decisão. Conferiu de novo o bolo de dinheiro. Incontáveis cédulas enroladas num elástico em um formato cilíndrico. Ela não se lembrava de ter visto tanto dinheiro assim na vida. Pensou em tantas coisas poderia comprar. Todos os seus sonhos fúteis de consumo adolescente ou até mesmo como aquela grana poderia financiar um bom estudo. Agora, o dinheiro serviria para ela continuar tendo a mesma vida de sempre: a de uma adolescente da periferia paulistana, perdida meio ao caos suburbano imersa na miragem que o calor causava no concreto da metrópole.
Seria um crime assim tão grave não querer que sua vida se virasse de cabeça para baixo? As coisas nunca foram fáceis, agora seriam ainda mais complicadas. Seria possível que lhe apontassem dedos com julgamentos cruéis e insensatos? Poderia ela se condenar por tentar tomar controle da sua própria vida, ao menos uma vez?
Uma lágrima correu pelo seu rosto e evaporou ao tocar o chão quente. Percebeu que já amava uma pessoa que ela ainda nem conhecia.
Sua mãe ficou confusa ao chegar em casa e encontrar um enxoval de bebê completo sobre a cama do quarto da filha. Além de um berço bonito de madeira desses de qualidade que não mais se produzem. A filha lhe entregou o resto do dinheiro que ainda somava uma grande quantia perto do que entrava naquela casa humilde vindo do trabalho árduo das mulheres que ali residiam.
Ao invés do sermão ou surra, o abraço e a compreensão de mãe - que conhecia bem o peso de ser responsável por uma vida e a coragem necessária para tomar qualquer uma das decisões que a filha teve que tomar naquela tarde de Setembro. Coragem que só mulheres podem ter. Responsabilidade que nós homens tantas vezes nos negamos a assumir.
E é essa a coragem de quem escolhe (ou é escolhida) para gerar uma vida. Sabendo que suas vidas nunca mais serão as mesmas, travam uma guerra num campo de batalha que soldado algum jamais teve de entrar.
E se estamos aqui agora, é porque alguma delas já travou essa batalha e decidiu por nós. Mas principalmente, por elas.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Cul-de-Sac
Então, aqui estamos.
Mais uma vez, presos a esse caos planejado onde todas as ruas não levam a lugar algum. E rodamos por muito tempo por essas ruas, queimando todo o combustível e tempo que tínhamos, passando por centenas de casas que parecem todas iguais, presos nesse labirinto suburbano. O gueto ganhou água encanada, esgoto, asfalto, luz elétrica, mas segue como o reduto de todos os desajustados, prisioneiros de suas casas pré-fabricadas, padronizadas, simetricamente construídas em loteamentos labirínticos, onde ruas levam a lugar nenhum, como uma metáfora que diz que jamais sairemos daqui.
É isso que eu sou, e disse desde o início. Uma estrada que leva a lugar nenhum. No final, só haverá um balão de retorno. A única opção, será voltar pelo mesmo caminho que veio. Ou então parar sem chegar em lugar algum. Todos já desistiram, ou pelo menos foi o que você disse, então não vou mais me preocupar em alertar ninguém. Não preciso colocar uma placa numa rua que todos sabem que não tem saída.
A escolha entre continuar ou não é sua. Mas você nunca poderá dizer que não sabia onde essa estrada iria te levar.
Mais uma vez, presos a esse caos planejado onde todas as ruas não levam a lugar algum. E rodamos por muito tempo por essas ruas, queimando todo o combustível e tempo que tínhamos, passando por centenas de casas que parecem todas iguais, presos nesse labirinto suburbano. O gueto ganhou água encanada, esgoto, asfalto, luz elétrica, mas segue como o reduto de todos os desajustados, prisioneiros de suas casas pré-fabricadas, padronizadas, simetricamente construídas em loteamentos labirínticos, onde ruas levam a lugar nenhum, como uma metáfora que diz que jamais sairemos daqui.
É isso que eu sou, e disse desde o início. Uma estrada que leva a lugar nenhum. No final, só haverá um balão de retorno. A única opção, será voltar pelo mesmo caminho que veio. Ou então parar sem chegar em lugar algum. Todos já desistiram, ou pelo menos foi o que você disse, então não vou mais me preocupar em alertar ninguém. Não preciso colocar uma placa numa rua que todos sabem que não tem saída.
A escolha entre continuar ou não é sua. Mas você nunca poderá dizer que não sabia onde essa estrada iria te levar.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Me Desculpem
Primeiramente, deixo claro, mais uma vez, que nunca fui rei de lugar nenhum. Nem tampouco tenho um vasto currículo, um diploma de uma entidade respeitada. Não escrevi livros e nem sou um formador de opinião. Não me encaixo em qualquer um dos critérios ridículos que possam endossar a importância do que eu penso, do que eu faço e do que eu digo.
Então desculpe, eu não sou um deus. Nunca serei. Não tenho perfil e nem competência para tal e acredito que jamais terei. Eu sou um nada, apenas um descartável peão num tabuleiro de xadrez, ás vezes nem isso.
Não sou senhor da verdade e nunca acreditei ser. Desculpem-me se eu posso passar essa impressão.
Eu tenho um método muito eficiente para saber o quão boas as coisas estão. Basta ver o intervalo entre o presente e minha última postagem nesse espaço. Quanto mais longo, melhor minha vida está. Quanto mais curto, pior as coisas estão. Simples e eficiente.
Isso é porque eu escrevo aqui sempre que alguma coisa aqui dentro está errada. E se eu estou escrevendo, é porque eu estou sendo derrotado.
Dentro dessa pequena cabeça mora um monstro que quer devorar todas as minhas ambições, me isolar e me impedir de viver a vida plenamente. Vira e mexe ele aparece. Semana sim, semana não, ele faz eu me arrepender de ter nascido e travamos batalhas épicas nos confins da minha mente. E eu perco quase todas elas.
Então me desculpem por ser fraco.
Muitas vezes, por essa fraqueza, eu me torno duro, rude, inadequado. É quase inevitável. Se a boca diz aquilo do que o coração está cheio, não dá pra se esperar coisa boa de quem vive com raiva, medo e tristeza.
Me desculpem por isso também.
E por fim, eu me ponho a escrever no meio da madrugada. É como uma fuga. Como cuspir ao vento as palavras que imploram pra sair de minha boca, mas ninguém mais quer ouvir. E eu encontro, nelas, um estranho senso de beleza, de significância. Há uma melodia tocando por trás disso tudo que eu sou obrigado a ouvir. Então me sinto na obrigação de tentar reproduzi-la de maneira fiel.
Então, me desculpem por ser dramático.
E na minha tentativa fracassada de organizar o caos que é existir - tarefa que todo mundo parece conseguir executar com maestria - eu acabo me perdendo. Não consigo estabelecer metas nem ser responsável com meus compromissos. Muito menos progredir em qualquer sentido.
E me vendo o tempo todo sem razões para continuar, eu ainda me esforço em esperar que as coisas simplesmente mudem e melhorem, mesmo sem conseguir levantar um dedo para fazê-lo.
E ainda estou aqui. Há sete anos sem conseguir sair do buraco onde me enfiei. Cansado de gritar, bebendo água da chuva, comendo insetos e esperando o dia que alguém me jogue uma corda, mas sem ter certeza de que terei coragem para sair e ver o lado de fora mais uma vez.
Isso é tudo que eu sou, é tudo o que me sobrou.
Me desculpem por ser.
Então desculpe, eu não sou um deus. Nunca serei. Não tenho perfil e nem competência para tal e acredito que jamais terei. Eu sou um nada, apenas um descartável peão num tabuleiro de xadrez, ás vezes nem isso.
Não sou senhor da verdade e nunca acreditei ser. Desculpem-me se eu posso passar essa impressão.
Eu tenho um método muito eficiente para saber o quão boas as coisas estão. Basta ver o intervalo entre o presente e minha última postagem nesse espaço. Quanto mais longo, melhor minha vida está. Quanto mais curto, pior as coisas estão. Simples e eficiente.
Isso é porque eu escrevo aqui sempre que alguma coisa aqui dentro está errada. E se eu estou escrevendo, é porque eu estou sendo derrotado.
Dentro dessa pequena cabeça mora um monstro que quer devorar todas as minhas ambições, me isolar e me impedir de viver a vida plenamente. Vira e mexe ele aparece. Semana sim, semana não, ele faz eu me arrepender de ter nascido e travamos batalhas épicas nos confins da minha mente. E eu perco quase todas elas.
Então me desculpem por ser fraco.
Muitas vezes, por essa fraqueza, eu me torno duro, rude, inadequado. É quase inevitável. Se a boca diz aquilo do que o coração está cheio, não dá pra se esperar coisa boa de quem vive com raiva, medo e tristeza.
Me desculpem por isso também.
E por fim, eu me ponho a escrever no meio da madrugada. É como uma fuga. Como cuspir ao vento as palavras que imploram pra sair de minha boca, mas ninguém mais quer ouvir. E eu encontro, nelas, um estranho senso de beleza, de significância. Há uma melodia tocando por trás disso tudo que eu sou obrigado a ouvir. Então me sinto na obrigação de tentar reproduzi-la de maneira fiel.
Então, me desculpem por ser dramático.
E na minha tentativa fracassada de organizar o caos que é existir - tarefa que todo mundo parece conseguir executar com maestria - eu acabo me perdendo. Não consigo estabelecer metas nem ser responsável com meus compromissos. Muito menos progredir em qualquer sentido.
E me vendo o tempo todo sem razões para continuar, eu ainda me esforço em esperar que as coisas simplesmente mudem e melhorem, mesmo sem conseguir levantar um dedo para fazê-lo.
E ainda estou aqui. Há sete anos sem conseguir sair do buraco onde me enfiei. Cansado de gritar, bebendo água da chuva, comendo insetos e esperando o dia que alguém me jogue uma corda, mas sem ter certeza de que terei coragem para sair e ver o lado de fora mais uma vez.
Isso é tudo que eu sou, é tudo o que me sobrou.
Me desculpem por ser.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Desejos
Hoje me ofereceram uma flor, e com ela, um desejo. Qualquer um, qualquer coisa. Bastava desejar jogar fora flor depois de pedir o que eu quisesse.
A princípio, não soube o que pedir. Sou um homem sem fé, sem ambição e sem propósito. Não tem quase nada que pudesse preencher o vazio do meu eu. Não há nada que eu possa desejar que vá me tornar, de fato, pleno.
Eu estava sonolento, pensei por horas que, se realmente funcionasse, eu simplesmente não saberia qual seria a melhor escolha. Nem sabia quais escolhas eu tinha. Meu próprio conceito de felicidade inexiste diante da luz da realidade. Se o contentamento fosse um deus, eu seria o mais cético homem a pisar na terra.
Foi quando eu enxerguei o óbvio. Algo que, muitas vezes, as cortinasde fumaça da minha mente não me permitem ver.
Queria jogar a flor em água corrente. Imaginei um rio de águas claras. Me contentei com a turva lama que descia junto ao meio fio.
Desejei a morte do demônio que habita em minha corrente sanguínea. Desejei o fim dos pesadelos e o retorno das boas noites de sono. Desejei que os muros que construí em volta de meu castelo desabassem. Desejei saber descartar como já fui descartado. Desejei não mais ver o mundo através de um filtro cinza dos que usam nos filmes de drama e reduzem a saturação de toda cor. Desejei que o amarelo fosse vibrante, que o vermelho fosse vivo, que o azul fosse acolhedor.
Desejei não um caminho fácil, mas apenas saber a direção. Não desejei qualidades, mas que calassem meus defeitos. E que se calassem todos, por um instante.
Desejei que sentissem a minha dor por uma hora. Assim, imaginariam como é difícil conviver com ela por anos. E queria que sentissem a minha raiva por um minuto e me dissessem até onde ela não os poderia levar.
Desejei não mais sentir nojo do que vejo no espelho e não mais me ver nas letras de todas aquelas músicas tristes.
Fiz o único pedido que faria minha vida ter sentido de novo.
Desejei ser outra pessoa. E nunca mais ouvir minha própria voz dentro da minha cabeça.
Desejei cantar afinado no coro da vida sem nunca perceber que há uma música tocando. E não mais apreciar a melodia em cada fútil detalhe sem nunca alcançar as notas certas.
Desejei ser normal. Não no sentido ordinário do termo. Mas simplesmente conseguir fazer o que todos fazem.
Apenas quis sorrir sem forçar. Apenas quis rir nas horas certas. Apenas quis enxergar o romance além da tragédia. Só quis acordar amanhã e sentir vontade de levantar da cama.
Desejei que linhas amarelas não significassem nada pra mim.
Desejei que pudesse ver a beleza da simplicidade.
Desejei o descanso dessa batalha diária contra todos esses monstros que moram na minha cabeça.
Desejei um motivo para continuar.
Desejei ser você.
A princípio, não soube o que pedir. Sou um homem sem fé, sem ambição e sem propósito. Não tem quase nada que pudesse preencher o vazio do meu eu. Não há nada que eu possa desejar que vá me tornar, de fato, pleno.
Eu estava sonolento, pensei por horas que, se realmente funcionasse, eu simplesmente não saberia qual seria a melhor escolha. Nem sabia quais escolhas eu tinha. Meu próprio conceito de felicidade inexiste diante da luz da realidade. Se o contentamento fosse um deus, eu seria o mais cético homem a pisar na terra.
Foi quando eu enxerguei o óbvio. Algo que, muitas vezes, as cortinasde fumaça da minha mente não me permitem ver.
Queria jogar a flor em água corrente. Imaginei um rio de águas claras. Me contentei com a turva lama que descia junto ao meio fio.
Desejei a morte do demônio que habita em minha corrente sanguínea. Desejei o fim dos pesadelos e o retorno das boas noites de sono. Desejei que os muros que construí em volta de meu castelo desabassem. Desejei saber descartar como já fui descartado. Desejei não mais ver o mundo através de um filtro cinza dos que usam nos filmes de drama e reduzem a saturação de toda cor. Desejei que o amarelo fosse vibrante, que o vermelho fosse vivo, que o azul fosse acolhedor.
Desejei não um caminho fácil, mas apenas saber a direção. Não desejei qualidades, mas que calassem meus defeitos. E que se calassem todos, por um instante.
Desejei que sentissem a minha dor por uma hora. Assim, imaginariam como é difícil conviver com ela por anos. E queria que sentissem a minha raiva por um minuto e me dissessem até onde ela não os poderia levar.
Desejei não mais sentir nojo do que vejo no espelho e não mais me ver nas letras de todas aquelas músicas tristes.
Fiz o único pedido que faria minha vida ter sentido de novo.
Desejei ser outra pessoa. E nunca mais ouvir minha própria voz dentro da minha cabeça.
Desejei cantar afinado no coro da vida sem nunca perceber que há uma música tocando. E não mais apreciar a melodia em cada fútil detalhe sem nunca alcançar as notas certas.
Desejei ser normal. Não no sentido ordinário do termo. Mas simplesmente conseguir fazer o que todos fazem.
Apenas quis sorrir sem forçar. Apenas quis rir nas horas certas. Apenas quis enxergar o romance além da tragédia. Só quis acordar amanhã e sentir vontade de levantar da cama.
Desejei que linhas amarelas não significassem nada pra mim.
Desejei que pudesse ver a beleza da simplicidade.
Desejei o descanso dessa batalha diária contra todos esses monstros que moram na minha cabeça.
Desejei um motivo para continuar.
Desejei ser você.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
O Salto
Não é bem novidade o que eu venho vos contar, mas gostaria de pontuar e esclarecer.
Estranhamente, eu sinto uma gigantesca fascinação pela morte. Não sou do tipo de frequentar cemitérios, acreditar em outros mundos ou apelar pra religião. Vejo beleza na coisa em sua mais pura e singela essência: o fim da vida biológica.
Provavelmente, se fossemos imortais, a vida seria uma experiêncua torturante ou no mínimo tediosa. No mesmo passo, se soubessemos quando, seria caótica ao extremo.
A certeza da morte e a dúvida sobre quando vamos encontra-la é um dos pontos mais interessantes e filosoficamente bonitos da existência.
E ao mesmo tempo, considero vital para o entendimento do valor da vida a noção do suicídio. Sim, flerto com ele há anos, mas nunca quis marcar um encontro. Como estamos a mercê do destino, o suicídio é o maior sinal de rebeldia. Escolher o momento exato do fim de sua vida é digno dos deuses.
Mas não, não é algo que passe pela minha cabeça no sentido literal da coisa. O mundo ainda vai carregar meu peso por muitos anos, ao contrário do que pensam, não vou me jogar do parapeito do edifício e aterrissar com maestria 31 metros depois.
Eu ainda tenho muitas pessoas para incomodar. Eu não posso ir agora.
Mas, como disse, tenho apreço pelo significado da coisa. Como eu já escrevi outrora, no espaço de tempo entre nosso nascimento e nossa morte vivemos várias vidas, e às vezes, nenhuma. Mas dificilmente vivemos uma vida só.
Nós nascemos a cada ciclo que se inicia. E morremos a cada ciclo que se encerra.
Dessa forma, como sabemos, todos vamos morrer algumas vezes antes do fim de nossas vidas biológicas. Mais precisamente, todas ás vezes que olharmos para trás e percebermos que as pessoas que éramos já não existem mais.
O suicídio que me fascina é a abreviação de um ciclo. Deixar de existir como a pessoa que sou antes que isso aconteça de maneira natural. E abandonar essa vida que já se mostra improdutiva e redundante.
Esse é o salto que eu penso em realizar todos os dias. Porque, parte de mim acredita que será melhor assim. Pra mim e para todos os outros.
Então espero o momento certo para meu salto. Para desistir de tentar descobrir onde estão todos os meus amigos. Para deixar de ser um nada por não saber quem sou.
E um dia, quem sabe, encontrar um lugar pra me sentir em casa.
Talvez eu já esteja no lugar certo. O problema é ser a pessoa errada.
Estranhamente, eu sinto uma gigantesca fascinação pela morte. Não sou do tipo de frequentar cemitérios, acreditar em outros mundos ou apelar pra religião. Vejo beleza na coisa em sua mais pura e singela essência: o fim da vida biológica.
Provavelmente, se fossemos imortais, a vida seria uma experiêncua torturante ou no mínimo tediosa. No mesmo passo, se soubessemos quando, seria caótica ao extremo.
A certeza da morte e a dúvida sobre quando vamos encontra-la é um dos pontos mais interessantes e filosoficamente bonitos da existência.
E ao mesmo tempo, considero vital para o entendimento do valor da vida a noção do suicídio. Sim, flerto com ele há anos, mas nunca quis marcar um encontro. Como estamos a mercê do destino, o suicídio é o maior sinal de rebeldia. Escolher o momento exato do fim de sua vida é digno dos deuses.
Mas não, não é algo que passe pela minha cabeça no sentido literal da coisa. O mundo ainda vai carregar meu peso por muitos anos, ao contrário do que pensam, não vou me jogar do parapeito do edifício e aterrissar com maestria 31 metros depois.
Eu ainda tenho muitas pessoas para incomodar. Eu não posso ir agora.
Mas, como disse, tenho apreço pelo significado da coisa. Como eu já escrevi outrora, no espaço de tempo entre nosso nascimento e nossa morte vivemos várias vidas, e às vezes, nenhuma. Mas dificilmente vivemos uma vida só.
Nós nascemos a cada ciclo que se inicia. E morremos a cada ciclo que se encerra.
Dessa forma, como sabemos, todos vamos morrer algumas vezes antes do fim de nossas vidas biológicas. Mais precisamente, todas ás vezes que olharmos para trás e percebermos que as pessoas que éramos já não existem mais.
O suicídio que me fascina é a abreviação de um ciclo. Deixar de existir como a pessoa que sou antes que isso aconteça de maneira natural. E abandonar essa vida que já se mostra improdutiva e redundante.
Esse é o salto que eu penso em realizar todos os dias. Porque, parte de mim acredita que será melhor assim. Pra mim e para todos os outros.
Então espero o momento certo para meu salto. Para desistir de tentar descobrir onde estão todos os meus amigos. Para deixar de ser um nada por não saber quem sou.
E um dia, quem sabe, encontrar um lugar pra me sentir em casa.
Talvez eu já esteja no lugar certo. O problema é ser a pessoa errada.
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