quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Sétima Torre - Fantasmas do Horário Nobre

Antes de tudo, certifique-se de ler os anteriores
PARTE 1 - A Sétima Torre - No Princípio
PARTE 2 - A Sétima Torre - Boa Vizinhança

Meu olfato nunca foi muito sensível e o fumo sempre foi um hábito que me impediu de aproveitar totalmente aromas e sabores, mas o cheiro de todo apartamento naquela noite de Julho era algo que eu notava facilmente mesmo imerso ao intenso pavor de meu mais sinistro devaneio. Um aroma doce enjoativo de perfume barato misturado a mofo e terra molhada. Meu pai havia morrido há quatro anos, mas eu acabava de vê-lo no corredor arrastando um cilindro de oxigênio com um semblante evidentemente abatido. Sua pele pálida tão clara quanto seus poucos cabelos grisalhos bem como as últimas lembranças que eu tinha antes dele partir.

Eu ainda ouvia sua tosse quando interfonei na portaria em busca de ajuda pelo sei-lá-o-quê e descobri que eu morava sozinho no décimo sexto andar e que era impossível eu estar ouvindo qualquer outra coisa que não fosse o barulho de meu próprio lar. Ou havia algo de errado com todo o andar ou eu havia perdido totalmente minha sanidade: não só ouvia a tosse, mas também uma televisão alta demais, conversas e passos nos apartamentos vizinhos. Quando pedi que alguém subisse para verificar o fato, o homem do outro lado da linha hesitou bastante, gaguejou e não escondeu que não tinha vontade alguma de entrar na sétima torre. A princípio eu não entendia direito o motivo daquilo, mas nos dias seguintes a coisa foi ficando clara como a luz do dia. Tive que ser bastante grosseiro para convencer o senhor da portaria a mandar alguém até meu andar.

Foram quase quinze minutos e quase dois cigarros de espera sozinho sentado de costas para a porta trancada e totalmente apavorado. Eu nunca havia me sentido tão sozinho em toda minha vida e nunca quis tanto ter alguém comigo ali naquele momento mesmo que fosse apenas para dividir o meu medo e minha incapacidade de lidar com aquilo que estava acontecendo. Conforme eu fui me acalmando, percebi que o barulho tinha desaparecido e eu estava imerso no mais completo silêncio dentro daquele apartamento. Pus a cabeça no lugar e percebi que era melhor que não houvesse ninguém ali e que eu estivesse sozinho. Que exemplo eu daria para minha mulher e meu filho? Um homem feito, pai de família totalmente apavorado por algo que pensa ter visto ou que acredita que ouviu. Não é esse o papel que esperavam de mim. Logo eu, um cético declarado, alguém que nunca temeu ou mesmo acreditou em tal tipo de coisa. E me lembro que essa foi uma das primeiras conversas que tive com minha esposa logo no dia em que nos conhecemos.

Eu era calouro, ela uma veterana. Eu cursava jornalismo, ela, contabilidade. Não tínhamos nada em comum quando fomos apresentados por um amigo. Na república de sei-lá-quem que havia convidado um amigo que namorava a irmã desse amigo meu que por acaso convidou tanto eu quanto minha futura esposa e claramente nós dois não sabíamos o que estávamos a fazer naquele lugar. Na verdade, a esse ponto eu já sabia: já estava envolvido nos encantos da "catarinense" que acabara de conhecer e estava convencido a fazer o máximo que pudesse para impressionar a mocinha. Como ela não tinha muita escolha e estava numa roubada sem fim, acabou entrando na conversa e passamos o resto da noite juntos conversando já que, aparentemente ela havia visto algo em mim que até hoje eu não consigo entender.

Cerveja após cerveja, eu percebia o quanto aquela garota era interessante: inteligente, bem humorada e extremamente bonita. E já estava a meio caminho de estar bêbado quando ela ainda estava começando a se aquecer e eu já estava bem pra lá do ponto quando ela me disse que não tinha nada de catarinense: era tão paulistana quanto eu e inclusive vivemos e crescemos na mesma vizinhança, mas o destino quis que só nos encontrássemos ali numa universidade de Santa Catarina.

Conversamos sobre coisas bobas e sobre coisas sérias. Rimos e ficamos sem graça quando alguém nos tomou por um casal ao se apresentar. Em pouco tempo, a própria festa ficou sem graça pelo menos para nós e decidimos ir embora. Mas a companhia era tão boa e a coisa andava tão bem que acabamos os dois indo para minha casa. Ela dirigindo meu carro pois embora tivéssemos bebido no mesmo ritmo a mesma quantidade de latas de cerveja, eu estava já bem embriagado e ela ainda estava "tranquila" como gostava de dizer.

Tudo naquela mulher me intimidava: era veterana, bebia bastante, tinha todo um papo cabeça sobre magia e espiritismo e era totalmente decidida com a própria vida e com o próprio dinheiro - ou pelo menos parecia ser. E mesmo sendo uma pessoa incrível, em momento algum ela me soava soberba ou arrogante. Era do tipo de conversa de igual pra igual com qualquer um sabe? Mas nada me deixou mais intimidado do que o momento em que ela me beijou na porta de casa e se convidou para entrar. Era o papo sobre Deus e o diabo, espíritos e vida após a morte que havia sido interrompido. Assombrações e contatos com além túmulo - área em que ela se dizia extremamente sensitiva - levaram-nos a ficar parados no carro na porta do apartamento que eu alugava quando veio o silêncio súbito de alguns segundos e inesperado beijo. Nosso primeiro.

O resto é história: eu não conseguia firmar meus passos ou achar o buraco da chave na porta do apartamento que girava sem parar quando eu entrei e vomitei no chão da sala. Acordei de ressaca com ela do meu lado sorrindo e fazendo piada da minha situação. Não passou-se muito tempo até que começássemos a namorar. Não durou mais que seis meses, as coisas simplesmente não deram certo. Eu não lembro direito o porquê, mas tinha a ver com o fato dela ter deixado a faculdade e resolvido perseguir um sonho antigo de transformar o hobby em profissão e vice-versa. Também por mero acaso, nos encontramos anos depois em São Paulo onde nos re-conhecemos, nos re-descobrimos, nos re-paginamos - e uso da tal licença poética pra usar quaisquer palavras inexistentes para descrever o que aconteceu entre nós. Nos casamos, tivemos um filho...

E então a campainha tocou.

Me assustei, levantei-me sem jeito e olhei pelo olho mágico para encontrar dois funcionários da portaria, um mais novo do que eu com cara de poucos amigos e um velho calvo baixinho e rechonchudo. Abri a porta e eles entraram.

O mais novo foi direto ao assunto e queria saber o que estava acontecendo. Obviamente, não falei do meu pai, não citei que vi um fantasma no corredor, mas falei do barulho constante vindo dos outros apartamentos. O rapaz mais jovem voltou a me dizer que não havia ninguém naquele andar e se dispôs a verificar todos os apartamentos enquanto o mais velho e gordo olhava em volta e parecia incomodado, desconfiado e hesitante.

Com um molho de chaves cintilantes, o mais alto abriu apartamento por apartamento enquanto eu tentava acalmar meus nervos. Todos estavam completamente vazios e empoeirados. Não havia uma alma viva em todo andar além de nós três, eu com meus trinta e tantos anos assustado feito um garoto, o porteiro rechonchudo meio desconfiado e o vigia incrédulo com um ar de apatia. Foi quando percebi que o cheiro já se dissipara.

Eles foram embora e eu fiquei com cara de bobo sozinho no apartamento, inquieto, assutado, meio bobo. Não consegui dormir direito naquela noite e quando minha esposa chegou pela manhã, eu estava sentado na área de lazer fumando e enrolado num cobertor com olheiras enormes e olhos vermelhos.

Não eram nem onze da manhã quando ela chegou e quis entender o que eu estava fazendo lá fora. Eu disse que contaria quando subíssemos. Eu não havia percebido o quanto eu estava assustando ela e meu filho, eu passei a noite inteira lembrando a distante visita à tia Ofélia e sendo aterrorizado pela remota memória da já distante experiência naquele edifício quando eu ainda era apenas uma criança.

Minha esposa era adepta do espiritismo, eu sempre fui cético em relação a tudo o que remetia à espiritualidade, à religião e ao sobrenatural. Nunca pensei que ela pudesse ser tão incrédula com o que estava acontecendo. Quando eu contei o que havia acontecido, ela simplesmente tentou racionalizar, me deu várias possíveis explicações sobre o que estava acontecendo: alucinações, excesso de trabalho, a própria acústica do edifício,

Embora extremamente frustrado com a falta de credibilidade da minha própria fala, logo tive de engolir aquele sapo e me conformar com o fato de que, talvez, eu estivesse mesmo perdendo a cabeça. Mas isso não durou uma semana.

Minha esposa e meu filho estavam em casa quando voltamos a ouvir barulhos por todo andar. Batidas, passos, sons de TV e rádio ligados. A princípio, até eu mesmo permaneci incrédulo acreditando que fosse realmente uma questão de acústica. Talvez algum duto de ventilação deixasse o som escapar de outros andares para o nosso ou os poços dos elevadores fossem os responsáveis por isso. Mas o episódio foi rápido, durou menos do que dez minutos até cessar completamente. Dessa vez eu estive mais calmo, mais tranquilo em relação à primeira. Eu não estava sozinho e sabia que não estava perdendo a sanidade. Estava há tanto tempo afundado escrevendo um livro que nunca ficava pronto e tinha um prazo muito curto para entregar o primeiro quarto da obra ao editor e não estava nem perto de terminar aquilo. Talvez eu realmente estivesse estressado o bastante para imaginar coisas, cheguei a considerar de fato essa possibilidade, mas era outra coisa.

No princípio, ficamos assustados, mas como os episódios tornaram-se recorrentes, jamais nenhum de nós sentiu-se em perigo com o que estava acontecendo. Em determinado momento, passamos a achar aquilo normal, algo corriqueiro. "Oh, sim senhor, eu moro num apartamento mal-assombrado. Nada demais". Quase sempre eram os barulhos, ás vezes, era um frio repentino que tomava conta do apartamento e desaparecia tão rápido quanto chegava. Portas se abriam e se fechavam tal como o registro da torneira da pia do banheiro. Ás vezes a campainha tocava, mas ninguém estava na porta quando atendíamos. Pequenos objetos apareciam em lugares diferentes daqueles em que os deixávamos. Chaves, brinquedos, controles remotos, telefones e até dinheiro desapareciam misteriosamente para serem encontrados em lugares inóspitos como quando um maço de cigarros apareceu dentro do freezer. Ou como quando chegamos e todos os mantimentos da despesa estavam cuidadosamente empilhados sobre o chão da cozinha.

Completaram-se quarenta e poucos dias desde que nos mudamos quando eu comecei a enxergar padrões em todas aqueles acontecimentos: os barulhos, os objetos aparecendo em lugares estranhos, as repentinas ondas de frio, a sensação de estar sendo observado e o cheiro de perfume velho sempre surgiam entre as seis da tarde e as onze da noite. Comecei a anotar todo e qualquer evento anormal em uma planilha no meu computador e percebi que nenhuma atividade do tipo acontecia em qualquer outra hora do dia. Eram fantasmas do horário nobre como eu costumava fazer piada com minha esposa. Nesse ponto, não estávamos assustados com o que acontecia, mas sim intrigados, curiosos e extremamente fascinados com todos aqueles fenômenos. A única coisa que preocupava era meu filho, mas ele nunca aparentou ter medo de nada daquilo. Pelo contrário, ele dizia-se bem indiferente. Alguns dias antes da noite em que as coisas pioraram, ele me disse que estava protegido pelo seu anjo da guarda que sempre o vigiava enquanto dormia e que nada poderia acontecer com a gente. Aquilo me assustou de uma forma diferente, mas jamais levei a sério de certa forma.

A nossa vida continuou da mesma maneira e aquilo durante um bom tempo não chegou a nos incomodar de verdade. Mas foi no final de Agosto que as coisas começaram a mudar.

Eu estava no escritório tentando escrever. Falavam apenas algumas semanas e eu precisava entregar cento e cinquenta páginas e ainda não tinha nem noventa. Já passava da uma da manhã e todos estavam dormindo quando veio o frio e o estranho cheiro de perfume. Pairou no ar uma estranha sensação como se todo e qualquer som fosse abafado. Eu podia jurar que poderia tocar o silêncio de tão absoluto que ele se tornara. E apenas continuei sentado sem me mexer vendo a fumaça do cigarro serpentar acima do cinzeiro e alcançar o teto ouvindo nada além da minha própria respiração. Uma sensação de pânico e euforia tomou conta de mim quando senti algo pesar sobre meus ombros. Era como se uma tonelada de tijolos se apoiassem sobre as minhas costas e eu simplesmente não podia me levantar. Aquilo não durou mais do que trinta ou quarenta segundos. O silêncio foi abruptamente quebrado por um estrondo ensurdecedor de objetos caindo e vidro se quebrando. Assustei-me e levantei-me por instinto sem perceber que o peso sobre meus ombros havia desaparecido. Corri em direção à sala que era de onde acreditei que vinha aquele som.

Choquei-me ao me deparar que a mobília inteira não só estava destruída no chão, mas amontoada perfeitamente no centro da sala. A estante com nossa coleção de DVD's, a TV, o rádio, a mesa de jantar, o sofá e até prateleiras parafusadas na parede. Tudo estava destruído e empilhado no meio da sala de estar. A porta da sala estava aberta escancarada, mas não vi ninguém do lado de fora do apartamento, mas as luzes do corredor que só se acionavam através de sensores de movimento estavam acesas.

Virei-me para o corredor e vi minha esposa sair do quarto provavelmente assustada com o barulho de tudo aquilo despencando. Ela não viu o que havia acontecido na sala, mas acredito que a expressão de pânico e perplexidade no meu rosto transpareceu que algo estava extremamente errado. Acredito que nós dois pensamos a mesma coisa ao mesmo tempo por uma espécie de telepatia ou sexto sentido que somente os pais podem ter e corremos em direção ao quarto do nosso filho. Nos encontramos na porta, abrimos, entramos e acendendo a luz.

Vazio. Ele não estava mais lá.

Eu olhei pro lado e vi ela com os olhos cheios de lágrimas e terror levar a mão a boca como que se tentasse evitar que alguma palavra profana escapasse. E foi ali que eu soube que minha vida estava prestes a desmoronar-se como a mobília da sala. E eu jamais conseguiria juntar todos os meus cacos pelo chão.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Tinta Lavável

Eu constantemente tenho esse sonho com uma enorme casa vazia onde as lâmpadas tem uma luz fraca e o piso estala e se solta sob meus pés enquanto eu ando. Paredes manchadas e mofo se espalhando por todo lugar, móveis cobertos com plástico e um teto com goteiras. Mas é a janela que me fascina sempre: no lugar de grandes vitrais, espelhos onde não é a verdade que é refletida, mas sim uma versão mais limpa, bela e aconchegante. No reflexo, estou sempre bem vestido, a casa está reformada, bem iluminada e decorada. Todos os móveis estão novos e não há mais mofo, goteiras ou piso solto.

Tudo o que você enxerga quando tenta olhar para fora é exatamente aquilo que queria que existisse do lado de dentro. E acredito que isso reflete toda uma maneira de se enxergar o mundo.

Estamos nos decompondo, apodrecendo a cada dente de leite que perdemos, a cada pedaço da nossa inocência que vendemos à pornografia e à noção de grandeza que nos fizeram comprar. Talvez muitos de nós não sejamos incapazes de enxergar a realidade do outro lado da janela, estamos atados à falsa noção de que somos exatamente aquela versão melhorada de nós que vemos ao olhar no espelho. E nós estamos apaixonados por ela pois é tudo que podemos ver.

E esse é um daqueles textos em que você vai certamente enxergar alguém que conhece, mas jamais será você o próprio objeto o que me faz correr o risco de ser um grande hipócrita ou um tremendo visionário, provavelmente mais o primeiro do que o segundo.

Nós fomos corrompidos pelo amor próprio, pelo narcisismo do consumo, pelas promessas de estabilidade e pela falsa ideia de quem somos e quem queremos ser. Nos tornamos egocêntricos de mente fechada que não são capazes de ver mais daquilo que lhe interessa. E nesses dias onde vemos nada mais do que nós mesmos, o amor tornou-se um ato de extrema subversão punido com severidade pelos dogmas de uma nova era onde ninguém é mais importante do que você.

Eles não dizem isso nos filmes ou nos livros, mas você vai perder as contas de quantas vezes vai se mutilar metaforicamente ou não na tentativa de ser algo que outra pessoa deseja evidentemente sem sucesso. Eles nunca te dizem que você  terá de vestir um sorriso que não é seu, um traje de social desconfortável para que todo mundo te aceite e ninguém vai se opor a isso mesmo que estejam tão desconfortáveis quanto você.

E você vai descobrir que existem muitas maneiras diferentes de odiar a si mesmo.

Eles nunca te disseram que você vai se enfurecer e esmurrar as paredes antes de desabar em lágrimas ao tentar se masturbar debaixo do chuveiro e não conseguir porque subitamente aquilo lhe parece errado. Ou como você vai preencher cada folha de um caderno velho com o nome de alguém que não existe mais como um mendigo que atira a última moeda numa fonte seca pedindo por abrigo. Não há abrigo nenhum quando o papel acaba e você começa a escrever nomes nas paredes da sala de jantar desejando ter de volta qualquer coisa que você de fato jamais teve.

Todos sabem, mas ninguém te diz que a sua opinião é a que menos importa mesmo quando se trata da sua própria vida.

E quando você perceber, todos à tua volta terão erguido trincheiras com arame farpado e estarão escondidos nelas mesmo jurando que não tem medo de nada. E quando menos esperar verá que todos se encantaram por sua própria imagem no espelho e pintaram as paredes com tinta lavável para que nenhum nome permaneça lá por mais tempo do que o planejado e ninguém mais amará ninguém.

Ninguém amará você.

E todos os sonhos com o porto se desmancharão como papel na chuva e você se verá a deriva num mar de mágoa, fúria e ressentimento. E mesmo que se isole temerá que sua falta não seja notada, mas também viverá a paradoxa sensação de não querer que alguém perceba como num baile onde você não quer dançar, mas deseja um par para ter a oportunidade de lhe dizer não. E quando estiver enfurecido você vai querer deixar de viver, mas vai continuar pois sabe que isso seria um favor para muita gente. E quando se sentir cansado, tentará desistir, mas fracassará pois ainda alimenta um fogo revolucionário que existe dentro de você. No final, apenas desejará o chão do convés e a água da chuva. E desejará ficar lá até o dia em que não mais o fará. Pois amamos pessoas até que simplesmente não amamos mais e isso serve para nós mesmos.

Ainda há tanta coisa para comprar e tantos programas para assistir que não torna-se surpresa a descartabilidade humana. Estamos em uma decadência tão grande que valemos menos que as coisas que nós mesmos inventamos. Nos tornamos reféns de toda nossa tecnologia e da nossa indiferença com tudo e com todos. Hoje somos pratos num menu, produtos numa prateleira, itens de um inventário, números de um catálogo onde todo o universo que é você resume-se a um preço e uma descrição de setenta caracteres.

E então aceitará que é como todos os outros e velejará para casa conformado e jamais conversará sobre isso pois, mesmo que as pessoas entendam, você tem medo do que pode acontecer. Adapte-se ou morra, compre duas latas de tinta lavável e vista seu melhor traje desconfortável pois o amor próprio também pode ser seu quando uma palavra é dita tantas vezes que acaba se tornando verdade.

Contemple o mundo que criamos diante a ponta afiada de uma lâmina polida pela casualidade. Aceite-a como amiga. Vai ser fácil depois que aprender que ninguém de fato é. E se todo mundo faz, não pode ser errado, certo?

Diga que é como todos os outros. E uma hora, você vai se convencer disso.

sábado, 18 de julho de 2015

A Valsa Dos Mortos Vivos

Sempre me intriguei pelos ritos funerários. Tem aquele mais pomposo com direito a presença de gente importante "se despedindo" do falecido com cliques e flashes de câmeras fotográficas, diplomacia e muita cara de paisagem, mais evento social do que ritual religioso ou espiritual. Quase ninguém chora de verdade e a maioria presente nem chegou a trocar mais que meia dúzia de palavras com o velado.

Também existem ritos mais modestos para gente "menos importante" que contam apenas com o pranto de familiares e amigos, Gente que trabalhou com quem habitou o corpo já sem vida selado pra sempre no caixão.

E ainda existem os que sepultamos como indigentes, sem ritos, sem passagens, sem prantos ou sensibilidade. Apenas a pá, a cova e tchau. Até o outro lado.

De qualquer maneira, enterramos todos eles, sepultamos todos os dias aqueles cujas vidas deixam de existir literalmente ou não. E todos nós seremos enterrados talvez mais de uma vez na vida.

Talvez como figuras notórias ou meros anônimos. Ou ainda indigentes cuja existência não foi relevante o bastante pra que alguém fosse prestar suas homenagens póstumas em água e sal correndo por rostos pálidos e abatidos.

O mais curioso é ver quantos sepultados e sepultadores encontramos quando andamos por nossas cidades cheias de gente moribunda. Nossa necrópoles de sacos de pele e ossos esperando a próxima procissão funerária.

Banalizamos a vida, subestimamos a morte e nos acostumamos com isso. E é assim que é, discordar não é subversão, é ignorância. Vivemos no tempo dos coveiros, dos abutres, e dos messias e Lázaros.

E nos encontramos em nosso sepulcro vitalício do cotidiano como causa e efeito do fenômeno da descartabilidade humana. Enfiando embaixo da terra todos aqueles que já não tem vida para que sirvam de adubo para raízes fortes de árvores das quais nunca colheremos frutos e que cuja sombra nunca nos abrigará numa tarde quente.

Sacos de estrume ambulantes prontos para serem enterrados. Impacientes coveiros prontos para entregá-los ao solo. O belo e triste paradoxo de todos nós.

Em tempos de guerra, a maior baixa de todas é o valor da vida.

Quantas pessoas você enterrou hoje? Quantas pessoas você enterrou no último mês? Quantas pessoas enterraram você no último ano? Por quantos sepultamentos você já não passou?

É tudo trivial. Não faz sentido contar. Não importa mais. O que está morto não pode ser ressuscitado. Muito menos ser morto outras vezes.

Coveiros de nós mesmos, cadáveres do que fomos. A marcha fúnebre é a valsa dos mortos vivos, aqueles que encontramos tempos depois quando já nem lembramos mais. Mas todos nós dançamos, todos nós vamos dançar. E quem sabe um dia não encontraremos uns aos outros em vida apesar de nossos atestados de óbitos carimbados.

Que descansem em paz os mortos vivos. Todos nós. E que alimentemos o solo para que germinem coisas maiores, com mais cor, com mais vida.

E que possamos ser a sombra-refúgio do viajante, o galho do ninho do pássaro, a fruta que nutre no faminto. As vigas que erguem as igrejas, a lenha que acende as fogueiras e, claro, o tampo que fecha os caixões.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Sétima Torre - Boa vizinhança

Antes de tudo, certifique-se de ler o anterior
PARTE 1 - A Sétima Torre - No Princípio

Eu não consigo recordar qual é exatamente a primeira memória que eu tenho do meu pai, mas quando me esforço ao máximo para lembrar-me dele no mais profundo recanto das imagens de minha infância vejo ele no escritório fazendo contas com uma calculadora, fumando e ouvindo João Gilberto ou Erasmo Carlos. Mas o detalhes mais característico dessa lembrança é o cheiro da fumaça dos cigarros que se amontoavam no cinzeiro. Meu pai fumava quase dois maços de Continental por dia e quando a marca parou de circular, ele acabou trocando sob muitos protestos pelo Marlboro que ele dizia ser uma marca de mulher. Talvez por isso ele passou a fumar ainda mais.

Essa primeira memória que tenho de meu pai está diretamente associada a última que tenho: ele já muito velho, magro com seus poucos cabelos já grisalhos totalmente irreconhecível deitado numa cama quase morto. Ele lutou por quatro anos bravamente contra o câncer, mas nunca conseguiu parar de fumar.  E nem isso me fez deixar de herdar o hábito e o vício dele.

Eu também fumava quase um maço de Marlboro por dia e, embora tenha tentado parar por mais vezes que eu posso contar, eu continuava mesmo depois de duas cirurgias e não sei quantas sessões de quimioterapia quando os médicos praticamente disseram que deveríamos desistir e o mandaram de volta pra casa e montamos uma UTI na velha fazenda. Nesses dias, ele não parecia nada com o homem bem humorado e brincalhão que sempre foi. Ele agora estava cada dia mais ranzinza, rabugento e reclamava com tudo o tempo todo. Enquanto pode, andava para cima e para baixo arrastando um cilindro de oxigênio num carrinho cujas rodinhas rangiam de maneira insuportável. Você poderia saber onde meu pai estava mesmo a quilômetros de distância graças ao barulho das rodinhas e aquela tosse que parecia que só iria acabar quando ele vomitasse os próprios pulmões, mas mesmo assim ele encontrava maneiras de se esconder pela casa e roubar um cigarro meu aqui e ali. É triste dizer, mas foi um alívio quando ele já não podia mais andar.

Pouco tempo depois, ele faleceu. Há muito já não parecia mais com qualquer coisa que consideremos viva, mas o destino quis que ele morresse oficialmente na noite de 20 de Abril de 2003, meu aniversário de 30 anos. Talvez um irônico castigo do destino devido ao fato de eu não ter parado de fumar mesmo vendo meu pai naquele estado, talvez sentenciando meu próprio filho ao mesmo destino de ver seu pai definhando numa cama e até mesmo repetir os mesmos erros e ter o mesmo sentido.

Em vida, ele um grande pai, um bom marido, mas a sua relação mais íntima era com o dinheiro. Tudo o que ele tocava tornava-se ouro. Ele tinha a capacidade fantástica de multiplicar qualquer investimento, tinha uma visão fora do normal, mas talvez o seu conservadorismo o tenha impedido de chegar mais longe. Meu pai era um homem à moda antiga, nunca gostou de computadores ou telefones celulares. Até mesmo a máquina de escrever sofria com seu olhar de desprezo e desconfiança. Quando morreu, meu pai nos deixou uma empresa, vários imóveis e investimentos variados e, até então em minha vida, dinheiro nunca foi uma preocupação.

Embora o mais intenso sonho de meu pai fosse me ver um dia herdando todo o seu legado e tomando controle dos negócios da família, eu sempre tive planos diferentes com os quais ele nunca concordou. Me formei em Jornalismo e sempre quis ser um escritor, mas ele sempre achou isso pura perda de tempo. Minha irmã tomou o próprio caminho, mas ele não se importou muito. Logo cedo, ela saiu de casa, tornou-se independente e bem sucedida, já eu nunca saí da sombra de meu pai totalmente. Trabalhava com ele administrando os negócios mentindo para mim mesmo que era algo temporário enquanto traçava planos que nunca cumpri. Por essas diferenças, eu e meu pai nos odiamos bastante antes dele adoecer. E quando isso aconteceu, pela primeira vez, senti-me realmente motivado a assumir o comando do legado que meu pai construiu.

Uma pena que eu falhei miseravelmente.

Assim que ele morreu, eu me vi totalmente perdido e não sabia como administrar o patrimônio, como investir, contratar, organizar ou liderar. Em dois anos, a empresa estava quase quebrada e já tínhamos esgotado quase todas as reservas de capital que ele havia deixado. Desesperado, busquei ajuda de um velho sócio dele, seu braço direito em todas as suas decisões em vida. Os detalhes são menos importantes, o que é vital nessa história é que saibam que acabei confiando demais nesse homem e ele acabou me passando para trás. Sorrateiramente, tomou pra si boa parte do patrimônio que meu pai deixou, o controle da empresa, quase todos os fundos de investimentos restantes, imóveis e automóveis e durante anos travamos uma ferrenha disputa judicial pelo controle de todos esses bens. E é meio triste dizer isso, mas felizmente ele faleceu há alguns anos e sua esposa - uma pessoa muito mais racional e serena - soube tratar do assunto de maneira mais justa e chegamos a um acordo proveitoso para ambas as partes. Mas voltemos aos tempos de vacas magras.

No ano de 2007, eu havia posto tudo a perder, não havia mais nada, estava quebrado e com o orgulho extremamente ferido. Quando sofri o golpe, não me restou quase nada e me vi obrigado a vender a própria casa onde eu morava e me mudar para o último imóvel de meu pai que não estava ocupado por inquilinos ou tomado pelo sócio: o apartamento 1602 da Torre 7 do Condomínio Residencial Bandeirante numa cidade do interior do Estado.

Em Julho daquele ano me mudei com minha esposa e filho para o apartamento onde tia Ofélia morou até morrer. O apartamento que meu pai sempre quis vender, mas nunca conseguiu. A região tinha se desvalorizado, o condomínio estava quase todo desocupado, a imobiliária responsável estava prestes a declarar falência e um novo shopping tinha interesse na região. O objetivo do projeto inicial era ser um escape para a classe média, mas alguém planejou algo errado e a região não prosperou, pelo contrário: todo o entorno do bairro foi tomado por favelas o que desvalorizou brutalmente o investimento.

Quando eu finalmente me mudei, não pensei muito na minha primeira experiência naquele lugar mais de vinte e cinco anos antes. Parecia apenas uma turva lembrança de criança distorcida pela minha imaginação fértil e perdida entre tantas outras memórias mais relevantes. Mas a partir do momento em que abri a porta pela primeira vez, tudo aquilo que eu passei quando tinha oito anos de idade voltou de maneira avassaladora. No primeiro momento em que o piso de madeira rangeu sob meus pés, eu lembrei do garoto do sexto andar, da água escura e daquela coisa que eu vi ou acredito ter visto. Mas nada disso importava, eu era um homem feito, um pai de família, um adulto que não deveria se amedrontar por traumas de criança e coisas que eu nem tenho certeza se realmente aconteceram.

Mas o fato é que eu morei naquele apartamento por apenas cinco meses por motivos dos quais eu nunca falei até então. Motivos que fizeram com que eu questionasse minha sanidade.

Naquele tempo, eu estava dedicado a escrever meu primeiro romance e vivia uma momento de muita fertilidade criativa. Ideias pipocavam o tempo todo na minha cabeça e eu passava a maior parte do tempo em casa na frente do computador escrevendo e captando informações. Eu escrevia, editava, excluía, recomeçava. Para um pouco, tomava um ar, bebia um café, assistia TV, fumava cigarro, saía para dar uma volta. Todo o processo natural pelo qual todo escritor passa. Foi numa dessas saídas que eu comecei a notar: minhas coisas nunca estavam no lugar onde eu as deixava.

Eu deixava as minhas chaves na prateleira do quarto e elas apareciam penduradas no chaveiro da sala. Eu trazia uma caneca com café e leite para o escritório e a colocava em cima da mesa, mas quando percebia ela estava numa mesa diferente daquela na qual a deixei. A princípio, achei coisa pouca. Ninguém em casa percebeu algo estranho e eu era o que menos saía. Meu filho tinha sete anos passava o dia entre escola e aulas de natação e judô. Minha esposa na época era professora de dança e quando não estava trabalhando provavelmente estava com meu filho em algum lugar. Mas foi numa manhã de sábado que algo realmente me atormentou.

Eu queria sair para tomar um ar, sentar no jardim que havia do lado do edifício, ver um pouco do sol e decantar minhas ideias, mas não conseguia encontrar minhas chaves. Eu já tinha desistido quando deitei de novo na cama e ouvi o familiar barulho do metal, típico de molhos de chaves. Elas estavam dentro da fronha do meu travesseiro e eu não fazia ideia de como foram parar ali. Eu me lembro de deixá-las por cima de qualquer lugar, mas não havia como aquelas chaves terem ido parar ali. Obviamente eu fiquei assustado e impressionado, mas em momento nenhum associei ao fato de o escritório ficar repentinamente frio durante as madrugadas em que eu estava escrevendo ou como todo o encanamento parecia contorcer-se e gerar um estupendo barulho por toda a casa principalmente à noite. Nem me lembro de contar quantas vezes eu tive que tirar os fones de ouvido por ter pensado que ouvi alguém chamar meu nome.

Também nunca associei isso à insuportável crise de tosse de um dos vizinhos que poderia ser ouvida mesmo com a TV ligada.

Me lembro muito bem do dia em que eu percebi que havia algo muito errado acontecendo naquele lugar. Haviam apenas três semanas desde que nos mudamos e eu estava passando por uma crise criativa depois de ter escrito quatro capítulos quase que sem interrupções. Minha esposa havia insistido muito para que eu fosse com ela para São Paulo no final de semana e depois de muito discutirmos, ela resolveu ir sem mim. Ela levou o garoto e eu fiquei sozinho naquele apartamento onde um dia Tia Ofélia andou arrastando seus chinelos para lá e para cá. Eu não podia ir, estava tendo um grande surto criativo e precisava escrever tudo o que eu conseguisse no menor tempo possível. E quando eu falo de surtos, são eventos realmente anormais como acordar no meio da madrugada e sair da cama para escrever ou começar a fazer anotações em qualquer pedaço de papel antes de perder uma ideia. Todos os nossos boletos de contas, revistas, jornais, catálogos, agendas e livros eram rabiscados de cima a baixo, vítimas de meus ataques compulsivos de criatividade. Mas assim que eles passaram pela porta e foram embora, toda a criatividade se foi.

A noite foi caindo, o céu lá fora escurecendo e eu fiquei não sei por quanto tempo na frente do computador sem acrescentar uma nova linha ao que estava escrito. Eu estava claramente bloqueado quando o cenário tornou-se mais dramático no momento em que eu percebi que só tinha mais um cigarro no meu maço de Marlboro. Ainda não eram nove da noite quando tomei coragem de ir buscar novos maços. Havia uma loja de conveniência num posto de combustíveis bem perto do condomínio, mas mesmo assim apanhei as chaves do carro - que agora estavam no lugar certo - pelo simples e preguiçoso hábito metropolitano de ir de carro a todo lugar e tendo fé absoluta de que se um dia fizerem automóveis que caibam no banheiro, sairei da cama para dar uma cagada atrás do volante.

Vesti um casaco pois era Julho e fazia muito frio e eu não lembrava onde tinha deixado meu isqueiro. Como eu estava com pressa e sem um pingo de paciência, passei na cozinha e peguei uma caixa de fósforos longos. Saí do apartamento e no corredor enquanto girava a chave duas vezes para trancar a porta da sala, ouvia aquela tosse áspera e seca do vizinho que parecia ainda mais alta e insuportável do lado de fora. Guardei as chaves, chamei o elevador e não pensei muito nisso.

Havia uma fila bem comprida e uma atendente com quase nenhuma vontade na loja, então levei certo tempo. Aproveitei para comprar refrigerante e um monte de porcarias para comer durante a madrugada enquanto tentava recuperar meu ritmo de trabalho. Não levei mais de meia hora entre o momento em que saí de casa e o momento em que entrei de novo no elevador, dessa vez indo para cima ao invés de para baixo.

Quando a porta se abriu no décimo sexto andar, o silêncio absoluto pairava no ar e a luz branca da lâmpada florescente do corredor parecia fosca e opaca. Eu enfiei minha chave no buraco da fechadura e destranquei a porta quando ouvi de novo a tosse forte e seca, mas dessa vez ela vinha acompanhada de um rangido metálico, o tipo de som produzido pelo atrito entre duas superfícies metálicas oxidadas.

Eu olhei para a esquerda antes de abrir a porta e vi alguém vindo pelo corredor.

Era um velho magro e pálido vestindo uma camisa de botões. Cabelos grisalhos e a pele manchada. Ele tossia como se não houvesse amanhã e arrastava junto com ele num carrinho de metal um cilindro de oxigênio. A tosse afobada pela máscara de inalação, o barulho ensurdecedor da rodinha do carrinho se movendo pelo corredor. Ele chegava perto enquanto eu o fitava e ele me olhava de volta fixamente como se estivesse vendo um fantasma. Ele se aproximou, abriu a porta do 1601, entrou e desapareceu quando ela se fechou.

Entrei em casa, fechei a porta atrás de mim, encostei as costas nela e praticamente desabei no chão. Caí sentado largando as sacolas de compras no chão com a respiração ofegante como se tivesse corrido seis maratonas. Consegui abrir um dos novos maços e enfiei um cigarro na boca, mas minhas mãos tremiam tanto que quando eu abri a caixa de fósforos para acender, acabei derrubando todos pelo chão.

Meu pai havia morrido há quatro anos, mas eu tinha acabado de vê-lo entrando no apartamento 1601.


Eu fiquei um bom tempo sentado no chão dizendo para mim mesmo o que aquilo não era possível. Talvez eu tivesse dormido muito pouco ou realmente era uma pessoa muito parecida com ele. Mas não podia ser, não tão parecida. Eu não sabia se minha razão se perdia ou se eu a encontrava minutos depois quando resolvi levantar do chão, cuspir o cigarro e sair do apartamento.

Eu cheguei ao corredor aos tropeços e apertei insistentemente a campainha do mil seiscentos e um. Apertei a campainha, bati na porta, gritei. Eu esmurrei a porta, tentei abri-la em vão. Ninguém me atendia, mas eu podia sentir alguém do outro lado me observando através do olho mágico, me pregando uma peça cruel e desesperada. É como se eu pudesse sentir outra pessoa respirando através das fibras da madeira daquela porta. Algo tão vivo quanto eu, mas nem um pouco humano como nós. E eu ainda ouvia aquela tosse seca e que parecia não acabar nunca.

Voltei para dentro de casa, tranquei a porta e interfonei no 1601. Eu podia ouvi-lo tocar de dentro da minha casa, mas ninguém atendeu. Depois telefonei na portaria quase em prantos. Pedi que ligassem para o dezesseis-zero-um que eu queria falar com qualquer pessoa que estivesse lá para me atender. Inventei uma história confusa e meio estúpida sobre o barulho e até citei a tosse que eu ouvia, mas a resposta em tom irônico do porteiro não foi bem uma surpresa:

"Cê tá de brincadeira? Você é o único morador do andar inteiro."





sábado, 13 de junho de 2015

Ao meu velho eu

Olá Vitor,

Eu sou você daqui exatamente dez anos. Hoje é dia 13 de Junho de 2015 e o mundo não acabou até agora. Estou com vinte e três anos, você com treze. Quase nada do que você imagina para sua vida nos próximos dez anos vai acontecer da maneira que você pensa, mas não se preocupe, aqui vão alguns conselhos que vão facilitar muito a sua caminhada.

Para acreditar que eu sou você mesmo, ontem foi aniversário do Doda (que aí ainda não é Doda, apenas Lucas) e você perdeu dez reais que caíram do bolso da sua calça, mas encontrou o dinheiro de novo na porta de casa - uma sorte que não vai se repetir muitas vezes na sua vida. Há quase três meses atrás você não aguentou segurar e mijou nas calças voltando pra casa porque teve vergonha de fazer na frente dele e acabou passando um vexame maior ainda. Ele nunca contou pra ninguém, mesmo dez anos depois.

Não desista das aulas de violão, uma hora você vai começar a se dar bem com isso. Aliás, baixo não é a sua praia, você vai ser um guitarrista. Não desista disso, mas não crie grandes expectativas. Seu ouvido é ruim, você não vai ser o próximo Hendrix, mas vai ser um ótimo hobby na sua vida nos próximos dez anos. Você também não é e nunca vai ser um bom cantor, desculpe avisar, mas é bom que desista já dessa ideia. Criar essas expectativas altas só vai te frustrar e você vai se odiar bastante por isso.

Desista dos desenhos também, você não tem talento. Mas isso não é um problema.

Mantenha todos os rascunhos daquelas histórias malucas que você inventa na sua cabeça, eles vão ser úteis no futuro. Leia muito e exercite a sua escrita o máximo que puder. É a única coisa em que você vai chegar perto de ser bom. Seguindo esse conselho você vai ser melhor do que eu sou hoje.

Comece a ler "As Crônicas de Gelo e Fogo" nos próximos anos. Em 2011, os livros vão virar uma série de televisão e você vai se arrepender por ter começado a assistir antes de ler os livros e vai se odiar por isso.

Meu álbum favorito é "Ruiner" de uma banda chamada A Wilhelm Scream. Ele ainda não foi lançado no seu tempo, mas ouça o predecessor dele que chama-se "Mute Print". Também é muito bom. Também tem o disco auto-intitulado do Alexisonfire. Você não vai gostar muito quando ouvir a primeira vez, mas vai se tornar um dos seus discos favoritos.

Ainda nesse ano de 2005 o São Paulo vai vencer a Libertadores da América. Acredite ou não, hoje você gosta muito, muito de futebol e é são paulino doente. Aproveite muito esse título e também o Mundial de Clubes que o São Paulo vai ganhar. Você não verá outro até aqui.

Ano que vem, a Itália vai ganhar a Copa do Mundo. E em 2010, a Espanha vai vencer seu primeiro título. A Copa do Mundo de 2014 vai ser no Brasil e a Alemanha vai ser campeã, assista aos jogos que puder no estádio, mas não vá ao Mineirão na semifinal.

Leia O Apanhador no Campo de Centeio. Você tem treze anos e talvez ainda não entenda exatamente - e o livro é bem chato - mas ele vai te guiar muito bem nos próximos quatro ou cinco anos. Aliás, leia tudo o que conseguir: livros, Histórias em quadrinhos, revistas e jornais.

E assista um filme de Cameron Crowe chamado "Vanilla Sky". Se não entendê-lo, pesquise na internet sobre o significado do filme.

Aliás, use a internet com sabedoria e não perca tempo demais no mundo virtual. Tem coisas acontecendo lá fora. Mas é uma ferramenta que vai te ensinar muitas coisas e através dela você vai conhecer muita gente legal. Até uma namorada ou outra.

E por falar nisso, não se sinta intimidado com as garotas. Sim, você não é nada atraente e é bastante chato, mas a maioria delas é tão insegura quanto você e algumas vão enxergar algo que eu até hoje não entendo. Leve isso com naturalidade ou vai acabar se frustrando e se odiando por isso.

Fique atento a 2007. Vai ser o pior ano da sua vida, mas vai te ensinar muitas coisas. O mundo lá fora é feio, sujo e vai destruir todos os seus sonhos. Esteja preparado para quando isso acontecer e encare tudo como um vencedor.

Não confie no homem que mora na sua casa, ele vai te virar as costas no momento mais difícil da sua vida. E quando se apaixonar por uma garota no primeiro colegial, conte pra ela. Você provavelmente vai levar um fora, supere. Se não o fizer, vai levar a dúvida por anos e anos e vai se odiar por isso.

Se ela por um milagre corresponder, simplesmente desencane. Ela não é pro teu bico.

E deixe de achar que você precisa obrigatoriamente ter uma namorada. Aprenda a ficar com garotas casualmente. É algo que eu não consegui aprender, mas tenho fé que você pode corrigir essa deficiência se parar de ser imbecil.

Aprenda a dirigir. Você tem 23 anos e ainda não sabe. Isso te incomoda e incomoda as pessoas a tua volta mesmo que elas não digam. Aprenda a cozinhar também, você vai achar legal.

Aproveite a amizade do Leo. Ele é muito mais seu amigo do que você dele. Vocês dois não tem mais muito tempo. Visite-o no hospital quando acontecer. Você pode se chocar com que vai ver, mas vai deixar de ser um bunda mole e se odiar menos por isso.

Nunca comece a fumar. Você não vai conseguir parar, vai arrebentar sua saúde, seu bolso e você vai cheirar a cigarro o tempo todo o que vai te incomodar e incomodar outras pessoas e você vai se odiar por isso.

Pare de sobrecarregar as pessoas com seus problemas e frustrações. Esse é um defeito que eu tenho até hoje e adoraria corrigir, mas tornou-se um hábito difícil de quebrar. De preferência, não seja tão transparente, não deixe que vejam o que você realmente sente e quais são seus medos e aflições. Simplesmente não fale sobre isso.

De maneira geral, fale menos sobre tudo. Você fala demais e isso cansa as pessoas.

Não perca tempo sentindo pena de si mesmo e aprenda o mais rápido possível que sua vida segue em frente com ou sem você. Eu perdi cinco anos da minha vida por isso, não cometa o mesmo erro.

Não acredite quando as pessoas disserem que dinheiro não traz felicidade e/ou que não é primariamente importante e tal. Você vai passar a vida inteira correndo atrás dele. A não ser que siga esse conselho: em 2010, ano que você completar 18 anos, aposte nos números 02 – 10 – 34 – 37 – 43 – 50 na MegaSena da virada. Você vai ganhar o prêmio junto com outras quatro pessoas e vai faturar trinta e oito milhões. Use esse dinheiro para ajudar sua família e construir seu futuro, mas principalmente, use-o para viajar e conhecer o mundo.

Nunca sob circunstância alguma coloque qualquer pessoa num pedestal. Todo mundo tem seu valor, mas você tem que reconhecer o seu o quanto antes.

Ano que vem, uma garota que você nem conhece vai te dar um tapa na cara porque você não quis ficar com a amiga dela - que você também não conhece. Acerte um soco na cara dela com toda sua vontade. Não se preocupe, a gente resolve depois.

E também no ano que vem você vai gostar de uma garota da sua turma. Desista, é problema.

Você nunca vai ter uma barba. Pode parecer algo idiota agora, mas você vai sentir muita inveja de quem tem.

Seu pênis não é pequeno, ele tem o tamanho normal. Você é que tem complexo de inferioridade e se odeia.

Se você seguir o conselho da Mega Sena, não vai passar por isso, mas caso seja estúpido o bastante para não fazê-lo saiba que as pessoas vão te cobrar muito que você faça uma faculdade. Não se convença. Não há nada de mágico nas instituições de ensino. Não é tão importante assim e você não vai se divertir lá.

Quando sua mãe for morar em São Paulo, vá com ela. Não perca tempo nessa cidade, não há nada pra você aqui.

Saiba que o maior crime cometido pela humanidade é a nossa casual falta de empatia e indiferença frente ao desespero de outras pessoas. Ninguém nunca vai se apiedar por você, ninguém se importa com o seu sofrimento e sua angústia e quando você fala sobre isso e espera que elas te auxiliem não está apenas soando patético como está sendo de fato.

Todavia,  jamais replique esse erro.

Eu cheguei até aqui acreditando na humanidade a espero que você também o faça. Seja o melhor que puder para todo mundo a sua volta. Não seja vingativo ou rancoroso e tente resolver de maneira direta qualquer problema que tenha com qualquer pessoa. Mas busque sempre se colocar no lugar delas e entender o que faz com que elas pensem como pensam e sejam como são.

E pare de pensar em suicídio. Você não vai fazer.

Por fim, tente se odiar menos. Você vai conviver consigo mesmo para sempre e a identidade que você vai construir pelos próximos cinco anos é o que vai definir quem você é pelo resto da vida.

Acredito que se seguir esse conselho, você vai chegar aos 23 mais feliz com o que é e com aquilo que vivenciou em sua jornada. E assim não precisará escrever outra carta como essa.

Boa sorte;
Vitor Pavani.

Ribeirão Preto, 13 de Junho de 2015.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A Sétima Torre - No Princípio

Até hoje, eu nunca quis contar essa história. 

Talvez por não sentir necessidade para tal, por não sentir vontade ou ânimo para explicar tudo o que se passou naquele tempo, mas, principalmente, por medo eu tenho fingido há anos que aquilo não aconteceu. Acreditei que se eu não falasse sobre isso e tentasse não lembrar minha mente apagaria aos poucos as memórias construídas durante os cinco meses mais terríveis de minha vida. De certa forma, tal estratégia funcionou. Me lembro com mais clareza da primeira vez que entrei pela porta do apartamento 1602 da Torre 7 do que da última na qual deixei o imóvel de uma vez por todas. 

Nomearam o projeto de "Condomínio Residencial Bandeirante" em homenagem aos homens que desbravaram o interior do país. Aqueles mesmos que há um século ou talvez dois enfiaram-se mata adentro procurando terras cultiváveis e recursos minerais. Onde, sobre aquela mesma terra, mataram dezenas de nativos brasileiros, tanto em uma alegada legítima defesa quanto por pura crueldade ou seguindo aos desmandos de aristocratas e latifundiários, heróis ou vilões de um passado distante antes de derrubarem quase toda a mata e urbanizarem toda a faixa do litoral ao noroeste do Estado. Com o tempo, a mata deu espaço ao café, à cana e as ferrovias por onde passaram incontáveis locomotivas e histórias. E depois às cidades que se espalharam às margens do caminho que o café fazia para chegar ao litoral. Cidades que hoje cresceram, se expandiram e abandonaram velhos costumes e zombam de antigas crendices e superstições. Cidades que hoje não acreditam em histórias de fantasmas ou coisa pior.

O projeto contava com sete imponentes edifícios de vinte andares cada um se erguendo sobre o antigo leito de uma pedreira na Zona Sul da cidade. Com direito a área de lazer, quadra poliesportiva, uma praça, duas piscinas (pelo menos, era o que havia no tempo em que lá morei), a morada era sonho da classe média suburbana que anseia fugir da caos civilizado e da presença da plebe, dos subalternos, dos arruaceiros e toda aquela gente que se parece muito conosco a olho nu, mas que fazemos questão de diferenciar e segregar vestindo-nos da máscara de intelectuais leitores de tabloides e das marcas que são caras simplesmente por serem.

No ano de 1978, o condomínio foi entregue e, como me recordo bem, estive lá pela primeira vez no ano de 1981. Era Maio, começo de Outono, mas já fazia frio. Eu tinha apenas oito anos de idade e visitávamos uma tia que morava no mesmo lugar onde, um dia, eu viria a morar. 

Lembro-me bem que eu observava maravilhado pela entrada do condomínio as três torres que se erguiam de cada lado da rua que traçava uma leve subida em direção a um balão de retorno onde, no final da via repleta de lombadas ficava a Torre 7. Ela era idêntica às outras seis, mas parecia mais imponente e, mesmo tendo o mesmo número de andares, era mais alta por estar no ponto mais elevado do terreno. Maravilhado, de novo fiquei, ao entrar no elevador onde minha mãe fazia cara feia para me impedir de apertar os botões de todos os andares. Lembro da espera com a estranha sensação de estar subindo sem sair do lugar, da luz quente que se esparramava do teto, da conversa dos meus pais e da luzinha acesa no botão de número 16. Quando chegamos, a porta barulhenta se abriu e saímos pelo corredor onde se encontrava a porta do apartamento. Um-Meia-Zero-Dois, em algarismos metálicos sobre uma porta de madeira escura. O número seis era levemente tombado para a esquerda e aquilo me incomodava de maneira surpreendente. Tocamos a campainha. Do lado esquerdo do apartamento 1602, havia o apartamento 1601. Os outros apartamentos se espalhavam pelo corredor que dava a volta os elevadores e nas escadas de incêndio formando um octágono assimétrico onde contavam-se, além dos números 1601 e 1602, os números que iam do 1603 ao 1608.

Tia Ofélia era uma dessas senhorinhas de sorriso fácil. Tinha a pele tão pálida que chegava a esverdear-se e seu pouco cabelo formava ondas grisalhas que cobriam sua cabeça e que, na minha cabeça de garoto de oito anos, parecia uma nuvem pairando sobre a cabeça dela. Com oito anos de idade, era tudo que eu sabia sobre a gentil senhora que abrira a porta do apartamento 162 e nos recebeu com entusiasmo. Tia Ofélia era, na verdade, tia de meu pai, irmã de minha já falecida avó e, pelo jeito, já não tinha mais ninguém. Pais, irmãos, marido e até um filho já tinham partido e deixado Dona Ofélia para trás, sozinha. Meu pai era o parente mais próximo que ela tinha e já há um bom tempo não se falavam e, naquela tarde, ele resolveu enfiar a família no carro, sair de São Paulo e fazer uma visita.

Meu pai, minha mãe e tia Ofélia logo se dispuseram a por a conversa em dia enquanto eu admirava todo o apartamento  que parecia escuro mesmo que a luz entrasse com abundância pelas grandes janelas e vitrais. Um cheiro típico de casa de vó pairava no ar e toda a mobília parecia estar já na família há anos, talvez até fundida ao assoalho de madeira em tom que ficava entre o bege, o marrom e o amarelo e que ajudava a produzir uma curiosa reverberação do som dentro daquele apartamento. Quando voltei lá, mais de vinte e cinco anos depois, também achei curioso como as paredes grossas e o assoalho de madeira do grande apartamento de quatro quartos causavam um eco bem característico.

E também senti a mesma estranha sensação de estar sendo observado por alguém ou alguma coisa. Ou qualquer coisa que tenha olhos para olhar ou um nariz para farejar talvez.

Não levou muito tempo até que eu ficasse entediado e eu não tinha a mesma capacidade da minha irmã que, mesmo mais nova, se comportava sempre como uma boa menina. Me deixar entediado com oito anos de idade num apartamento de uma velha viúva que mais parecia um relicário ou uma loja de antiguidades não era sensato.

- Mãe, posso descer para brincar no parquinho? - minha mãe me olhou com a cara que sempre olhava quando eu interrompia uma conversa de adultos. Aquele olhar que dizia muita coisa sem uma única palavra.

- Peça a seu pai.

- Posso pai? Por favor, diz que sim?

Meu pai olhou relutante tragando um cigarro. Primeiro para mim, depois para minha mãe e eu já sabia que a resposta não seria positiva. Foi quando falou tia Ofélia, Santa Ofélia intercessora dos meninos entediados.

- Deixa ele ir Cícero. Deixa o menino se divertir. - o sorriso aconchegante dela voltou a se abrir.

- Pode ir Pedro. Mas leve sua irmã. - disse meu pai contrariado - e vê se toma conta dela.

- Eu não quero ir. - as palavras doces de minha irmã me enxeram de entusiasmo. Não ter que cuidar dela era tudo o que eu queria mesmo sabendo que, quase sempre, era ela que cuidava de mim, mesmo mais nova e até hoje as coisas são assim.

- Ok Pedro, vai. Mas se comporte e nada de ficar brincando no elevador. - completou minha mãe como que se quisesse que eu me mandasse de uma vez por todas.

Saí pela porta do apartamento 1602 eufórico e pronto para descer. Apertei o botão do elevador e esperei até que parece em meu andar. Enquanto esperava, pesquei no bolso um dos brinquedos que sempre carregava comigo. Era uma réplica de um Fórmula 1 que eu ganhei de meu pai. Quando garoto, eu sonhava em ser piloto e colecionava essas réplicas em miniatura dos carros da F1. Eu gostava muito do modelo da Ferrari de Villeneuve, da Brabham do Piquet e da Ferrari de Prost. O que eu carregava aquele dia era a Williams de Alan Jones que era o atual campeão na época. A réplica remetia muito bem ao original todo branco com detalhes em verde e azul e um monte de marcas de patrocinadores estampadas de cima a baixo e até no capacete do meu Jones em miniatura.

Quando o elevador chegou e a porta se abriu, entrei e apertei o T e senti aquela sensação engraçada do elevador descendo, o tipo de coisa que a gente acha o máximo quando ainda é criança, mas torna-se corriqueiro quando nos tornamos adultos. Fui correndo para o parque brincar e logo me frustrei ao perceber que não haviam outras crianças. Na verdade, desde que chegamos, não tinha visto nenhum morador - exceto pela tia Ofélia e pelo porteiro do condomínio. Coisas sutis que hoje, olhando para trás, me despertam estranheza, mas que, naquele tempo, eu pouco notava.

Brinquei sozinho por algum tempo no parquinho, fingi que as linhas desenhadas no cimento do pátio eram a pista por onde acelerava meu carrinho de brinquedo recriando o barulho do motor e fantasiando as fantásticas ultrapassagens nas curvas e retas que os padrões das pedras do pátio faziam.

- Deixa eu ver seu carrinho?

Me assustei sem saber direito de onde vinha a voz. Quando percebi, um garoto não muito mais novo que eu estava de pé a pouquíssimos metros de mim. Com cara de pidão, bermuda azul e os tênis desamarrados, ele parecia solitário e desolado, mas escondia a expectativa de um sorriso ainda perdendo dentes de leite aparecer em seu rosto e se enturmar com seus olhos castanhos arregalados.

- Pode.

Estendi a mão com o carrinho para o garoto desconhecido que se aproximou de maneira acanhada, meio sem jeito, desengonçado. Se ajoelhou do meu lado e pegou o carrinho ainda tímido.

- Como ce chama?

- Henrique. - Ele não brincava com o carrinho, mas o examinava atentamente passando de uma mão para outra, virando para um lado e para o outro como se aquele brinquedo fosse a coisa mais fantástica que ele já havia visto em toda a sua vida.

- Meu nome é Pedro. Você mora aqui Henrique?

- Moro. - ele era bem calado, mais do que uma criança de seis ou sete anos deve ser. Henrique já era estranho por si só, mas as coisas ainda ficariam mais densas naquela tarde.

Ficamos por algum tempo no parquinho. Eu tentando começar uma conversa com um garoto catarrento que nada falava e continuava apalpando e olhando meu carrinho como se não fosse algo real. As respostas monossilábicas dele me deixavam cada vez mais frustrado, então em certo momento, desisti da conversa. Fiquei lá, em silêncio, sentado no chão. Olhava para ele, para as árvores que cresciam ao redor do parquinho e tomavam o céu quase nos impedindo de ver o pouco sol que aparecia entre as nuvens naquela tarde de Maio.

E então ele me devolveu um carrinho. E finalmente disse algo.

- Legal. Quer jogar um jogo? - ainda com aquele ar de que poderia soltar um sorriso que nunca vinha e que, a essa altura, parecia meio debochado.

- Que jogo?

- É um jogo de tabuleiro. É muito legal, cê vai gostar.

- É... quero, pode ser.

- Tá bom. Só que minha mãe não me deixa trazer ele aqui pra baixo, você vai ter que subir lá em casa.

Hesitei bastante, mas como não havia muito o que fazer, resolvi ir. Nem me toquei com o tempo ou as horas, nem me importei em pedir permissão aos meus pais, apenas segui o garoto de volta para a entrada da torre 7. Simplesmente senti que devia, aceitei o movimento automático das minhas pernas que traçavam um passo atrás do outro ao lado de Henrique, o garoto dos olhos arregalados.

Demos a volta no corredor do térreo passando pelos elevadores da entrada e pelas escadas de incêndio para chegar ao outro lado do fosso onde haviam outros dois elevadores.

Entramos e Henrique apertou o número seis.

Nesse momento, eu pressentia algo errado. Talvez a luz mais fraca desse outro elevador que quase não fazia barulho, talvez o aspecto desinteressado do meu novo colega ou o fato de que eu estava indo ao apartamento de um garoto que eu acabara de conhecer sem avisar meus pais. Mesmo sabendo disso, eu simplesmente não conseguia não seguir o plano de Henrique, é algo que não consigo explicar, um fenômeno que me negava a negação enquanto estive na Torre 7 do Residencial Bandeirante, algo sobre o qual voltarei a falar no futuro.

O elevador parou, a porta se abriu e demos de cara com duas portas. Os apartamentos 605 e 606 apareciam em nossa frente. Tudo se parecia muito com o décimo sexto andar: as portas de madeira escura e os números de metal pregados acima do olho mágico. Henrique girou a maçaneta e abriu a porta do apartamento meia-zero-meia.

A luz que entrava pela janela da sala se derramou pelo corredor quando ele me convidou para dentro e eu pedi licença para entrar. Quando ele fechou a porta atrás de mim que eu entendi que algo estava errado. Entre a cozinha e a sala me localizei e rapidamente compreendi todo aquele espaço do apartamento que era praticamente idêntico ao de tia Ofélia: paredes brancas e grossas, grandes janelas e vitrais e o assoalho de madeira perolada cujo verniz refletia a luz do dia. No apartamento de Henrique, o eco era ainda maior, mais intenso.

Isso porque não havia mobília alguma.

Nada. Sofá, mesa, estante, armário... nada. O que eu podia ver do apartamento estava completamente vazio exceto por eu e meu novo - e agora ainda mais estranho amigo. A poeira se acumulava pelo chão e meus passos deixavam pegadas pelo assoalho e as paredes encardidas tinham marcas velhas de sujeira na altura da cintura. Ladrilhos de rodapé soltavam-se das paredes e uma cortina amarelada e velha se pendurava pela janela da sala até quase o chão onde uma porção de acinzentados jornais se acumulavam. O cheiro que parava no ar era de poeira, madeira molhada e coisas velhas. Aquele cheiro que sentimos quando abrimos um cômodo há muito esquecido ou quando entramos em algum lugar abandonado. E se há uma palavra que descreva o cenário da moradia de meu novo amigo era essa: abandonada.

- Pera aí. Eu vou lá buscar. - ele correu e adentrou em algum dos quartos correndo sem dar tempo para que eu perguntasse alguma coisa. Eu estava mais confuso do que jamais estive em toda minha vida. Henrique morava sozinho? A família dele era tão pobre que não podia comprar móveis para a sua casa? Achei que fosse por isso que ele ficou tão encantado quando viu meu carrinho.

- Bença mãe. - ouvi ele dizer lá do fundo.

Henrique voltou a passos corridos e atrapalhados trazendo uma caixa de madeira nas mãos. Ele sentou-se no chão e me olhou como se ordenasse que eu me sentasse, e assim o fiz. Quando aberta, a caixa se tornava um tabuleiro e dentro dela haviam várias peças que pareciam soldadinhos de metal, porém tortos e desfigurados. O tabuleiro era cheio de desenhos estranhos e, conforme ele espalhava as peças sobre ele, me explicava cheio de afobação as regras do jogo que parecia uma mistura de xadrez com qualquer coisa. Porém eu não conseguia prestar atenção no que ele dizia, ainda estava meio sem jeito e confuso com a situação.

- ... e então você pode marcar três ou cinco pontos. Só que antes você tem que avisar, entendeu?

- Desculpa Henrique, acho que eu tenho que ir embora. Minha mãe deve estar procurando.

- Mas a gente nem jogou... - ele respondeu em tom de decepção.

- Na próxima a gente joga.

- Tá bom.

Ele recolheu as peças e guardou-as na caixa-tabuleiro visivelmente desapontado enquanto eu me dirigia a porta da saída. Eu fazia força para não mostrar o quanto eu queria sair dali. DEUS como eu queria ter corrido e batido a porta e nunca mais voltado. E foi quase isso que eu fiz, saí a passos largos enquanto ele ia até o quarto guardar seu jogo estúpido. Quando finalmente cheguei à porta, por algum motivo, tateei entre os bolsos da blusa e da calça em busca de qualquer coisa.

O carrinho. Não estava comigo.

Conferi de novo os bolsos e procurei pelo chão da sala, ele não estava em lugar algum que eu pudesse ver. Henrique tinha pego-o, só podia ser. Pensei em deixar estar, ele era tão pobre que morava numa casa sem mobília e toda suja. Tudo o que ele tinha era um jogo besta de tabuleiro. Minha mãe sempre me dizia que eu deveria ser grato por ter isso e aquilo outro. Vivíamos bem, meu pai tinha se dado razoavelmente bem na vida e comandava meia dúzia de negócios e era dono de mais um punhado de pequenas propriedades. Um carrinho de brinquedo jamais faria falta para mim, mas para aquele menino, poderia ser algo realmente especial. Mas por pirraça e/ou curiosidade, resolvi não sair pela porta e ir embora.

Dei meia volta e fui em direção ao corredor que levava aos quartos. Parei antes dos aposentos e chamei o nome de Henrique sem sucesso algumas vezes. Aos poucos foi andando na direção do quarto onde ele tinha entrado para buscar o seu jogo de tabuleiro maluco. Os meus passos lentos faziam o assoalho estalar sob meus pés e o cheiro que vinha do fundo agora já não era o mesmo que sentia na sala. Tomou o ar um cheiro de podridão que queimava o nariz e a boca e a essa altura era até mesmo difícil de respirar. A porta entreaberta do quarto deixou a dúvida se era um convite ou um aviso para que não entrasse. Empurrei a porta e ela se abriu lentamente com seu rangido fazendo eco por todo apartamento meia-zero-meia.

Nada, estava vazio.

Abri os armários em busca de Henrique ou de meu carrinho de brinquedo, mas ele não estava lá. Chequei os outros cômodos, atravessei o assoalho de madeira que estalava conforme eu andava. Não havia nada e nem ninguém no banheiro ou nos outros quartos. Tudo estava vazio, silencioso e com aquele horrível cheiro de podridão. Tudo parecia uma piada de mau gosto, uma peça que pregaram em mim e eu caí certinho. Nada fazia sentido naquilo, resolvi ir embora de mãos abanando mesmo. Depois voltaria com meus pais e exigiria meu carrinho de volta, era o mais sensato a fazer. Saí do último quarto puto da vida e cheguei no corredor e me virei para a sala para ir embora quando finalmente notei que alguém me olhava.

Aquilo estava de pé, no meio da sala. E me farejava.

Um animal - ou seja lá o que era aquilo - me fitava com profundos olhos amarelos que me enchiam de pavor. Boquiaberto, eu não sabia o que fazer, o que pensar, no que acreditar. A criatura se assemelhava a um cachorro de pernas finas e orelhas grandes, ou um chacal, ou uma hiena. Exceto pelo fato de que era do tamanho de um cavalo e se mexia de uma maneira que não parecia possível. Era como se não respeitasse os limites anatômicos das articulações de qualquer animal que eu já tenha conhecido. Uma sombra negra e esguia que mostrava presas amareladas que cresciam umas sobre as outras e uma língua que se pendurava de sua boca e mostrava-se excessivamente grande. Mesmo de longe, eu podia sentir a respiração daquela coisa como se estivesse sobre mim e foi quando eu notei que aquele cheiro de podridão emanava daquele bicho. Lentamente seu longo pescoço deu quase uma volta inteira e pude fitar seus olhos quase que de ponta-cabeça. De sua boca escorria um líquido que era qualquer coisa escura e viscosa.

Foi então que eu soube que tinha que correr.

Me enfiei no primeiro quarto que eu pude e fechei a porta com todas as minhas forças. Rezei para que aquela coisa não pudesse entrar, que não pudesse me alcançar ali dentro. Aquilo se atirou contra a porta e, por um momento, pensei que fosse derrubá-la. Eu só conseguia pensar que deveria ter saído daquele lugar quando tive a chance ou que, melhor, nunca deveria ter entrado ali para começo de conversa.

O monstro do outro lado da porta parecia ter força o bastante para derrubá-la quando bem entendesse, mas parecia gostar da sádica brincadeira de me levar aos limites do meu medo como se quisesse ber até onde eu poderia chegar. Não havia para onde ir, não tinha como fugir. A não ser que eu tentasse sair pela janela, mas isso era praticamente impossível. Estávamos no sexto andar, não tinha jeito. Eu morreria ali sem nenhuma chance de reação. Eu chorava como qualquer criança teria chorado no meu lugar. Chorava como muitos adultos o teriam feito.

Então as batidas cessaram.

Eu respirava ofegante sentado no chão de costas para a porta como se assim eu fosse capaz de segurar qualquer coisa que tentasse passar por ali. Nessa posição fiquei por vários minutos sem ouvir nada que não fosse meu próprio choro e meus próprios soluços. Eu secava minhas lágrimas e repetia mentalmente a mim mesmo "Seja homem!", "Seja homem!". De que maneira diante de tal coisa grotesca e sem qualquer sentido?  E mesmo depois de dez ou quinze minutos, não encontrei coragem para abrir a porta e olhar o que acontecia lá fora.

Quando eu finalmente começava a me acalmar, um novo problema apareceu: água. Em todo lugar.

Eu não sabia de onde tinha vindo toda aquela água e nem há quanto tempo estava ali, mas o fato é que o quarto estava inundado de uma água escura, fria e nojenta que parecia aumentar a cada segundo. O quarto já estava inundado quando eu entrei? Eu não conseguia me lembrar, não conseguia por a cabeça em ordem. Quando me levantei, a água já estava na altura das minhas canelas e em um pouco mais de tempo, meus joelhos e depois minha cintura estavam cobertos. Apesar da água me assustar, não era pior do que aquilo que estava do lado de fora da porta.

Olhei para cima e vi o teto se rachando e se abrindo lentamente enquanto mais água gelada era despejada sobre minha cabeça e inundava ainda mais o quarto. Eu já estava entrando em pânico quando o teto cedeu e uma quantidade gigantesca de água caiu sobre mim e quase me esmagou.

Eu estava submerso. Submerso numa imensidão escura.

Eu começava a sentir falta de ar, mas não encontrava a porta e nem as paredes. Nem a janela, ou o chão. Já não sabia mais se estava no quarto, se estava em algum lugar, qualquer lugar. Mas eu sabia que estava me afogando e suspeitava que, talvez, a diferença entre estar morto e quase morto pode ser muito, muito pequena e circunstancial.

Me faltava ar, então nadei para cima como se tentasse buscar a superfície e encontra o tão sonhado ar, mas não havia nada que não fosse frio e escuridão. Quando eu já havia desistido de procurar algo, senti a água gélida invadindo meus pulmões e vi.

Um enorme par de olhos amarelos me fitando.

Acordei assustado e sem ar. A porta barulhenta do elevador mais barulhenta do que nunca. O porteiro abrira ela com um pé de cabra e me olhou com cara de susto. Meu pai estava do lado dele. Olhei em volta: a luz quente do elevador se esparramando sobre mim e todos os botões dos andares com luzes acesas, mas o indicador de andar mostrava que eu estava no Térreo. Fiquei sem entender o que estava acontecendo, mas chorei de felicidade por estar ali.

Meus pais disseram que provavelmente eu resolvi brincar de apertar todos os botões do elevador e, por isso, ele acabou tendo uma pane, travando e eu fiquei preso lá dentro. Tive um ataque de pânico e desmaiei.

Contei a eles tudo pelo que havia passado sem eu mesmo saber se era tudo verdade ou não. Eles foram céticos, mas depois ficaram em dúvida. De fato, ninguém morava no apartamento 606 e não havia indício algum de que eu tenha estado ali em algum momento. Logo, meus pais me convenceram, para meu próprio bem, de que tudo aquilo tinha sido um pesadelo, uma alucinação, um sonho ruim. Pelo meu próprio bem, tomei o caminho que eles traçaram para mim e acreditei neles. Afinal, era a explicação lógica e acreditei nela por mais de vinte e cinco anos.

A princípio, essa história mexeu comigo por um certo tempo. Tive pesadelos com aquela coisa que vi no apartamento meia-zero-meia por algumas semanas. Acordei algumas vezes no meio da noite tendo certeza de que estava morrendo afogado. E no princípio, precisei acreditar numa fé investida em mim pois não havia meios de lidar com a realidade do jeito que ela foi, do jeito que me lembro. Eu era uma criança com uma imaginação fértil e que andava assistindo muitos filmes de terror. O incidente na torre 7 do Residencial Bandeirante tornou-se uma memória quase irrelevante da minha infância que eu nunca mais quis visitar.

Mas, em certo momento, eu precisei.

Até porque meus pais não conseguiram explicar o que aconteceu com minha réplica da Williams de Alan Jones. Nem como ou porquê minhas roupas estavam completamente encharcadas quando me tiraram daquele elevador. E de todas as experiências que tenho a relatar sobre o período em que passei na Torre Sete do Residencial Bandeirante, essa foi, talvez, a mais fácil de explicar.

Pois não importa o que tenha sido aquilo que me encurralou no apartamento meia-zero-meia, não me deixaria escapar mais uma vez.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Os Olhos do Gato

Eu só queria poder exorcizar meus demônios através da tosse que tenho tido esses dias. Já poderia estar dormindo tão melhor e mais confortavelmente.

O improvável aconteceu: as coisas deram certo. Minha vida (em termos) progrediu, andou para frente como há tempos não o fazia. Se há três meses atrás eu celebrava um natal sem ter muitos motivos para fazê-lo, hoje tudo parece ter saído melhor do que o esperado. Tendo conhecimento de causa a respeito da disciplina "minha vida", tenho uma compreensível suspeita acerca de tudo que dá certo demais.

Bem como o gato de rua que nunca chega perto para comer na sua mão ou receber seu afago. Não importa se suas intenções são as melhores, ele vai demorar muito tempo até ter confiança de encurtar a distância até que sua mão possa tocá-lo, seja com afeto, seja com raiva. Ele apenas de observa de longe, com o corpo arqueado e os olhos estralados, curiosos, famintos de novidade, mas pronto para fugir ágil como a natureza o fez ser caso qualquer coisa lhe pareça estranha

Talvez seja por isso que eu insisto em voltar lá.

De certo, o gato se lembra de algum outro humano que praticou alguma perversidade com ele. Talvez uma traquinagem de garoto ou uma maldade maior praticado por adultos que tendem a ser mais fortes, cruéis e conscientes de sua maldade. O passado do gato é um navio atrás de um horizonte nebuloso: não podemos vê-lo nem dizer que está realmente lá, mas torçamos para que esteja vindo encontrar o cais.

O meu passado é o cais para o qual meu navio tende a voltar.

Próximos ou distantes, meus destinos nunca se contam em milhas ou léguas, mas sempre em minutos, horas, dias, meses ou anos sempre negativos. Sempre zarpo rumo a pontos no tempo passado quando participo das minhas próprias histórias como mero espectador, e nunca como participante. Nada posso fazer para mudar o que acontece na trama, mas assisto o filme de novo e de novo.

E tenho voltado muitas vezes até a casa da minha mãe. E sempre sinto que lá é um lugar frio mesmo durante o verão, mesmo com a cama e a comida quente, mesmo com os abraços cheios de carinho dela. Oras pois, a sensação de frio é mera associação ao um estado emocional que cultivo em relação a determinado ambiente. Não que o ambiente na casa dela seja ruim, muito pelo contrário. Mas eu atribuí a São Paulo e a casa da minha mãe essa característica e agora não consigo mais desvencilhar uma coisa da outra. Mas não é por isso que tenho voltado lá, pelo frio. O frio é consequência e não causa, ele esteve lá mesmo no mais quente final de primavera - ou mais frio final de outono dependendo de qual hemisfério a gente enxerga.

Acredito que volto lá para me lembrar, como o faz o gato. Para me alertar sobre lições que o passado já me ensinou uma ou mais vezes, para tentar me entender melhor e buscar uma tomada de decisão mais correta. Aceitar ou não a comida e o afago correndo o risco de sofrer algum tipo de crueldade nas mãos de um humano. Aos olhos do gato, o prêmio não vale a pena o risco. Os meus talvez já não enxerguem da mesma forma. Talvez sejam mal treinados perto dos dele ou menos maliciosos.

Talvez.

Mas nós já temos nosso próprio pacto: nunca mais seremos tão frágeis. E nos pegar não será mais tão fácil.