quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

IX - Olhos no Céu

Despertei cedo o bastante pra sair sem ser notado. Arrumei minhas coisas, fiz a minha mala. Eu tinha planos para ir para o Oeste, o máximo que eu pudesse. Eu tinha um pouco de dinheiro e o carro do meu pai. Provavelmente, dirigiria até Montreal onde eu tinha alguns amigos - ou costumava ter - que poderiam me ajudar a chegar até Calgary. De lá, eu teria que improvisar. Eu só sabia para onde deveria ir, não necessariamente o que faria quando chegasse lá. Mas quando acordei, me deparei com minha irmã na sala, sentada no sofá com as mãos no rosto.

Fiquei surpreso pois era muito cedo para ela estar de pé. Percebi que teria que adiar meu plano de fuga, mas a ideia saiu da minha cabeça quando percebi que ela estava em prantos enquanto assistia o plantão de notícias.

- Um amigo do trabalho estava nesse avião - ela disse soluçando.

Foi quando me atentei ao que passava na Televisão.

- De acordo com a Agência Nacional de Aviação, haviam 113 passageiros no Boing que caiu na Pennsylvania e é improvável que haja qualquer sobrevivente. O vôo 4102 da American Airlines saiu de Moncton com destino a Miami e tinha conexões com Pittsburg e Atlanta. Os motivos do acidente ainda são desconhecidos...

Eu estava em choque. O horário batia com o do vôo que o homem de cavanhaque queria que eu tivesse embarcado. Minha cabeça rodou. Pedi licença e fui lá fora fumar um cigarro totalmente alheio ao sofrimento da minha irmã.

Sentei na varanda do lado de fora e acendi meu cigarro. Era bem cedo, o sol ainda estava nascendo e fazia um frio que parecia me cortar as orelhas e o nariz. Eu tinha esquecido meu gorro lá dentro, mas desisti de buscá-lo depois que me sentei, embora já caminhasse melhor, mesmo sem a bengala que eu perdi no acidente. O que realmente me incomodava não era o frio nem a falta da bengala, mas a história da queda do avião. Era pra eu estar naquela aeronave se seguisse os conselhos do homem de cavanhaque.

Foi quando eu percebi o carro vermelho do outro lado da rua. O carro do velho em que eu tinha entrado dois dias antes. Onde tinha sofrido um acidente. Ele me olhava como se quisesse chamar minha atenção. Senti um calafrio subir-me as costas.

Apaguei o meu cigarro no cinzeiro e levantei. Atravessei a rua por puro impulso, por instinto eu acho. Não sabia o que esperar. Notei que o carro não tinha nenhum sinal do acidente que aconteceu dois dias antes e voltei a pensar na possibilidade de realmente ter sido tudo uma invenção do meu subconsciente. Alucinações, Estados de Fuga. Esquizofrenia.

Entre no carro e fiquei parado por alguns segundos sem dizer nada, sem olhar o velho. Apenas olhando pra frente como se dissesse, "dirija".

- Você precisa nos contar onde ele te levou, nos mostre o lugar. - quem falava comigo era a mulher do fundo do rio que estava, de novo, sentada no banco de trás do carro.

- Um apartamento na Alma Street no centro próximo a uma Loja Maçônica.

Era um pequeno prédio de apartamentos de três andares. As paredes incrustadas de tijolos alaranjados. No Térreo, funcionava uma loja de penhores ou coisa do tipo.

Quando chegamos e subimos até o apartamento - cujo número eu não consegui me lembrar, mas tinha certeza de qual era baseando-me nas direções - o velho sacou uma pistola de dentro do sobretudo cinza. O frame em aço inox reluziu pelo corredor escuro enquanto nossos passos estalavam o assoalho de madeira. Não foi medo que senti, mas uma familiar sensação de expectativa e ansiedade. Mas me assustei quando ele entregou a pistola em minhas mãos e sacou um pequeno revólver escuro do tornozelo. A arma me pareceu tão familiar entre meus dedos quanto a sensação de emboscar um homem em seu apartamento. O quê eu me tornei nesses últimos anos?

Antes de bater na porta, percebemos que ela estava levemente entreaberta. A mulher de olhos negros não nos acompanhava e acredito que eu me sentiria mais segura se ela estivesse lá, não sei exatamente porquê.

O velho empurrou a porta e ela se abriu lentamente com um rangido macabro das dobradiças. Nada. O apartamento estava vazio. Não havia ninguém. De fato, não havia nada, nem mobília. Não havia sinal de que alguém havia morado ali nos últimos seis meses pelo menos. A poeira se acumulava sobre o chão e os balcões da pia. Nas janelas da sala e dos quartos. O banheiro parecia que não via água há muito tempo.

Nada mais fazia sentido.

Voltamos para o carro e antes de contarmos qualquer coisa á mulher de olhos negros, ela se precipitou.

- Devemos ir. Ele já está um passo à nossa frente.

- Ir? Para onde? - Indaguei devolvendo a pistola ao velho.

- Boston. É lá onde ele está.

- Nós vamos matar esse homem? Que loucura é essa?

- Não assistiu os noticiários garoto? Ele queria te colocar num avião que caiu. Aquele homem te quer morto a qualquer custo. - se intrometeu o velho.

- Isso não faz sentido. Ele me teve inconsciente por horas nesse apartamento, poderia ter me matado facilmente se quisesse. Pra quê ele iria fazer isso num avião? Que tipo de monstro mataria centenas de pessoa para atingir um único alvo?

- Nós fazemos esse tipo de coisa - disse o velho.

- Ele não te matou no apartamento porque ele não pode Aaron - disse a mulher - ele precisa de algo que só você sabe. Algo que você escondeu há algum tempo. E provavelmente, ele te fez contar.

- Eu não contei nada. Eu não poderia, não me lembro de ter escondido coisa alguma.

- Não importa, existem outros meios de descobrir. Ele passou tempo o bastante com você desacordado. Ficaria surpreso com as habilidades daquele homem. - ela se dirigiu ao velho - precisamos de um vôo para Boston ainda hoje.

- É ano novo, dificilmente encontraremos, mas vou dar meu jeito.

- Eu sei que vai - disse ela antes de voltar a se dirigir a mim - te levaremos para casa, mas esteja pronto pois partiremos à noite.

Faltavam doze minutos para as dezenove horas quando eu vi o farol alto do carro vermelho na porta de casa. Saí com minha única mala sem minha mãe e minha irmã perceberem. Ambas estavam ocupadas demais preparando o jantar do ano novo.

Saí pela garagem e subi no carro sem trocar uma palavra com a mulher ou com o velho. Nos dirigimos ao aeroporto enquanto eu lutava comigo mesmo para entender as minhas próprias decisões, os motivos que me levaram a tal situação.

Eu não sabia mais que tipo de homem eu havia me tornado nesses últimos anos, mas tinha certeza que minha família estaria mais segura não me tendo por perto. Temia pela segurança de minha mãe e de minha irmã mais do que pela minha própria. Mas eu estava estranhamente animado com a situação. Eu finalmente sentia vontade de saber sobre o que estava acontecendo quando denotei que não sabia nem sequer o nome das pessoas que agora me levavam para uma viagem para outro país.

Foi no carro que descobri que o velho chamava-se Ross. Apenas Ross, não tinha nome ou sobrenome. Foi assim que ele se identificou. A mulher do fundo do rio era Frida, ou a Bruxa, como o velho me disse após rir. Foi a primeira vez que eu vi um sorriso naquele rosto severo.

Nosso vôo partia as 19:40 e chegamos bem á tempo de embarcar em meio ao caos de jornalistas que cobriam o acidente da noite anterior no aeroporto. Entrei no vôo e apaguei logo depois da decolagem vendo a neve cair sobre New Burnswick.

Quando despertei, já sobrevoávamos Boston e a aeronave fazia manobras para aterrissar. Olhei pela janela e vi os fogos de artifício iluminarem a noite de inverno. Naquele momento, aceitei dentro de mim a pessoa que eu havia me tornado. E até mesmo por isso, lamentei a pequena chance de acontecerem dois acidentes aéreos em dois dias seguidos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VIII - Eco

Quando cheguei à casa de minha mãe, ela estava desesperada. Falava com dois policiais que anotavam o que ela dizia num bloquinho. Quando me viu, ela correu pra me abraçar. Uma neve fina caía na rua. Depois de entrar e tomar um bom chocolate quente, tive que explicar o que tinha acontecido no dia anterior. Mas quando contei do acidente na rodovia, descobri que não havia registro algum de acidente.

Minha mãe chamou os policiais para conversarem. A sós.

Ainda no hospital, os médicos atentaram que deveríamos tomar cuidado com a questão da amnésia. Eu poderia ainda ter alucinações, estados de fuga e colapsos emocionais de todo tipo. Em algum momento do diálogo a palavra "Esquizofrenia" foi citada. Mas sem o resultado dos exames, era só uma hipótese.

Eu estava exausto, então resolvi que o mais sábio a se fazer era dormir. Me perdi num sono denso e escuro onde sonhei de novo com a mulher do fundo do rio. Dessa vez, estávamos, de novo, no topo de um arranha-céu.

"Nós somos o que somos."

Quando eu acordei, minha mãe não estava em casa. Mas me deparei com minha irmã. Antes que eu pudesse sequer cumprimentá-la, ela simplesmente despejou toda sua ira. A última vez que eu tinha visto ela, antes do incidente no rio, ela era apenas uma menina de quinze anos. E agora, já era uma mulher e estava me dando lições de moral. Ela não acreditava na minha história de esquecimento, para minha irmã, eu estava mentindo descaradamente. Ela continuou destilando sua raiva dizendo que eu as abandonei e depois resolvi voltar, então criei essa história estúpida para não ter que admitir que deixei todos para trás.

Por um momento, pensei que pudesse ser verdade. Talvez eu tenha me convencido com a própria história e tenha esquecido tudo, de fato. Lembrei do velho, da mulher do fundo do rio, do homem de cavanhaque que queria que eu fosse embora. Nada fazia sentido.

Deixei minha irmã falando sozinha na cozinha, fui até a porta da sala e tentei abri-la. Mas ela estava trancada e não haviam chaves à vista. Minha mãe temia que eu desaparecesse de novo devido à minha "Fragilidade psicológica momentânea", então basicamente eu teria que passar o dia enclausurado na casa dela.

Sem muita opção, decidi assistir a TV, ver o que acontecia no mundo lá fora, ver o que mudou enquanto eu estive debaixo do gelo. Mas antes que eu pudesse perceber, já estava hipnotizado por meus próprios pensamentos, por minha própria dúvida que me torturava. Já não via ou ouvia a TV - ou a minha irmã. Apenas eu, a poltrona e minha mente despida de memória.

Me lembrei do gelo se rompendo sob meus pés e de mergulhar nas águas escuras e mortalmente geladas do rio. Eu gritei, mas não havia ninguém para me escutar. Me cansei de lutar, afundei. Me entreguei quando meus pés encontraram o cascalho no leito do rio. Foi quando eu vi ela.

Ainda não consigo me lembrar o que aconteceu antes ou depois disso. Não lembro porque estava caminhando sobre o rio - algo estúpido demais até mesmo para mim. Também não lembro o que aconteceu depois que eu saí. Eu simplesmente apaguei e acordei no hospital. Sete anos depois.

Imaginei o desespero dos meus pais ligando em necrotérios e hospitais, esperando uma notícia boa das equipes de busca, nem que fosse ao menos um corpo para enterrar. Imaginei minha mãe no frio pregando cartazes em postes por toda Nova Escócia. Pensei como o peso da dúvida era muito maior do que qualquer certeza difícil de encarar.

Não saber onde eu poderia estar por todo esse tempo deve ter sido pior para eles do que se soubessem que eu estava morto. Como foram esses anos pra mim? Senti falta dos meus pais, dos meus amigos? Onde quer que eu estivesse, eu estava feliz? Eu tinha medo de encontrar as respostas. Tinha medo de realmente ter escolhido deixar todos para trás, causar tamanho sofrimento a todos e simplesmente ter voltado.

Tinha medo da pessoa que eu me tornei de lá pra cá, a pessoa que eu não mais sabia quem era.

Sempre que me olhava no espelho, achava assustador ver como eu mudei. Antes, eu não tinha barba e meu cabelo era mais cumprido. Eu era mais magro também e não era tão pálido. Eu tinha cicatrizes antigas que não conseguia explicar, sensações que tomavam minhas entranhas sem entender o que realmente acontecia.

Percebi que não tinha mais como tomar minha vida de volta. Não havia mais como voltar de onde parei, me tornar de novo o rapaz que caiu no gelo fino. A pessoa que eu era morreu naquele natal debaixo do gelo. Decidi que partiria quando despertasse. Encontraria as repostas para minhas perguntas. Entendi que seria mais um peso para minha mãe do que um alento por ela ter finalmente encontrado seu filho desaparecido.

O filho dela estava morto. E se estivessem certos, logo eu estaria também. Eu precisava deixar aquele lugar o quanto antes, pelo bem de todos, por mais que fosse doloroso. Decidi partir ao amanhecer, no último dia do ano.

À noite dormi profundamente. Sonhei que dirigia para o Oeste e atravessava  o país até chegar às Rochosas. Sonhei que gritava meu nome e as montanhas ecoavam infinitamente a minha voz. Mas não havia sequer uma alma viva para me ouvir.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

VII - Tempestade de Cristais

O velho acendeu o cigarro e me senti extremamente curioso e assustado com o que ele tinha a me dizer. Me devolveu a caixa de fósforos, agradeceu, tragou e exalou uma espessa nuvem de fumaça.

- Eu sei o que você está pensando garoto, sei que tem suas dúvidas. E com o tempo, espero poder responder todas elas. Mas agora, devemos ir. Não é seguro ficar aqui.

- Não é seguro? O que você quer dizer?

- Você corre risco, a sua família corre risco. - Nesse momento percebi que os olhos dele eram de um tom de turquesa que eu nunca havia visto nos olhos de qualquer outra pessoa. Pareciam me sugar, me puxar pra dentro deles. - O quanto antes formos, melhor. Podemos acertar as coisas, consertar o que deu errado. Mas não posso te explicar agora, apenas venha comigo.

- Eu não te conheço, não sei quem você é. Você me seguiu desde Halifax, talvez antes. Como posso confiar em você?

O velho deu outro trago no cigarro, esse, mais forte e profundo do que o primeiro. A brasa acendeu com força e parecia me hipnotizar.

- Eu trabalho para alguém que você conhece, alguém que está te esperando. - ele falava enquanto soltava fumaça pela boca e nariz.

- Me esperando? Onde? Quem? - não pude disfarçar o quão nervoso eu estava.

Ele apontou para a esquerda, para o outro lado do parque.

- Vê aquele carro vermelho? Tem uma senhorita te esperando, alguém que há muito quer falar contigo. Você pode não me conhecer garoto, mas não é a primeira vez que eu te vejo. Já trabalhamos juntos por vários anos. Eu devo ser a última pessoa viva em quem você pode confiar.

Eu hesitei. Mas minha vontade de saber do que ele falava era tão grande que eu não podia simplesmente dar o braço a torcer. Não podia mandar ele ir à merda e sair andando. E no final das contas, era só um velho. Mesmo debilitado, eu não me sentia ameaçado por ele. Mas tinha algo que realmente me atormentava.

- Eu vou se me disser exatamente que risco eu estou correndo. Quem está atrás de mim além de você? Quem é um perigo pra minha família?

- Apenas você mesmo jovem. Estou aqui pra te proteger de você.

Engoli em seco. Não soube o que responder. Joguei fora meu cigarro, me levantei apoiando-me na bengala. Ele também se levantou. Caminhamos até o outro lado do parque entre crianças montando bonecos de neve e carrinhos de pipoca e cachorro quente. Faltava pouco para o sol se por, mas ainda era dia e estávamos cercados de muitas outras pessoas. Me senti estupidamente seguro por um momento.

Entrei no carro junto com ele, no banco do passageiro. Ele atirou a bituca de cigarro no asfalto, assoprou fumaça e entrou logo em seguida. Quando ele dava partida, eu ouvi uma voz familiar chamar meu nome.

- Não se vire.

Olhei pelo retrovisor e vi um par de olhos negros me fitando. A mulher do fundo do rio. O velho manobrou e saiu com o  carro indo para o sul.

- Quem é você? - perguntei à mulher do banco de trás.

- Essa não é a pergunta correta. Você deveria perguntar isso a si mesmo. Eu te conheço há muito tempo, mesmo antes do fundo do rio. Eu estive nos seus sonhos, conheço seus mais íntimos medos e seus mais belos sonhos. Eu sou a voz que fala dentro da sua cabeça. O que você precisa saber é quem você é.

- E quem eu sou?

- Você é um de nós. Como seu pai também foi. Você esteve conosco na escuridão nos últimos anos.

- Meu pai? - nesse momento, percebi que desde quando eu acordei, ninguém tocou no nome do meu pai. E embora o carro dele estivesse parado na garagem da nossa casa coberto por uma lona, ele não estava lá.

- Sim, seu pai. Nós temos uma longa história com ele. Ele tem um débito conosco que gostaria que você quitasse. Você acredita em karma?

- Karma?

- Sim. Digamos que faz parte do seu Karma.

- Eu... eu não consigo entender. Como podem me conhecer sem que eu faça ideia de quem vocês são? Onde eu estive nos últimos anos, com quem estive, o que fiz? Por quê eu não me lembro?

- Você escolheu esquecer. Quis retomar a sua antiga vida de onde parou, mas isso quase nunca funciona. Uma vez que se atravessa para o outro lado, não há mais volta. Não existe mais como recomeçar. Você fez uma escolha quando saiu do lago congelado naquela noite de Natal. Uma escolha pra vida toda. Nesse exato momento, você não sabe que é um risco para todos a sua volta. Nós vamos te levar de volta pra casa.

- De volta pra casa? Ok, nada disso faz sentido. Achei que tivesse respostas. Pare o carro, eu quero descer. - Eu já estava bem desconfortável antes, mas agora minha cabeça doía e tudo parecia girar. Eu não entendia nada do que estava acontecendo.

- Aaron, confie em mim, olhe nos meus olhos. - imediatamente nossos olhares se encontraram através do retrovisor e subitamente, de forma que eu não conseguia explicar, eu estava de pé, no topo de um edifício.

O vento forte soprava vindo do Atlântico. Me sentia alguns anos mais jovem. Já não vestia mais casacos, apenas uma camisa de flanela agitada pelo vento e um ar quente de verão pesava sobre mim. Á minha frente, a paisagem urbana desaguava no mar alaranjado que refletia a luz do sol. Eu não fazia ideia de como fui parar ali ou que lugar era aquele, mas sabia que não era real. Eu deveria estar sonhando. Ou será que eu estava me lembrando de algo.

- Se você pular, eu pulo.

Era a voz da mulher de olhos negros. Ela estava logo atrás de mim. Eu não podia vê-la, mas pude sentir sua presença. Pude ouvir seus passos. Pude sentir ela se aproximar de mim. Pensei que ela fosse me empurrar. Mas ela só se aproximou e disse no meu ouvido:

- Nós somos o que somos.

Eu ouvi um baque e senti o carro rodar na rodovia. Vidro voava à minha volta como uma tempestade de cristais de gelo. O carro só parou no canteiro envolto a uma nuvem de fumaça. Tentei voltar a mim mesmo, entender o que havia acontecido. Foi só aí que percebi que estávamos de ponta cabeça. Olhei para trás e a mulher de olhos negros não estava mais lá. O velho jazia desacordado com a cabeça apoiada sobre o volante. Sangue pingava do seu rosto no teto do carro. Tentei acordá-lo sem sucesso.

Não conseguia sentir nada direito. Meu corpo inteiro formigava e senti meu rosto inchar-se, mas não havia dor. Cuspi sangue no meu colo. Eu havia mordido o lábio no momento da batida. Foi quando a minha porta se abriu e alguém me puxou para fora do carro. Eu fui literalmente arrastado pra longe do carro vermelho retorcido no canteiro da avenida. Fumaça branca saia do radiador. Eu vi carros pararem no acostamento. Um homem falava no celular com a mão na cabeça. Destroços se acumulavam pela pista.

Foi quando eu vi o homem que me carregava. Ele tinha meia idade, os cabelos curtos e um cavanhaque imponente. 

- Você vai ficar bem - ele disse e foi a última coisa que eu me lembro antes de apagar.

Acordei tonto, minha vista completamente embaçada. Pensei estar numa ambulância, pensei estar num hospital. Pensei estar em casa ou ainda sentado no banco do parque fumando meu cigarro. Mas estava sentado no banco do passageiro de um outro carro com um outro motorista. Quando minha vista finalmente voltou, percebi que era o homem que havia me tirado do acidente. E agora sim, sentia dor. Nas pernas, nas costas e no rosto.

Ele virou o rosto e olhou pra mim e percebeu que eu estava acordado. Havia sangue e sujeira nas minhas roupas.

- Fique calmo Aaron, tudo vai ficar bem. Você não deveria ter voltado. Estou te levando para um lugar seguro.

Eu simplesmente apaguei. Acordei já era noite. Na verdade, madrugada. Eu estava num quarto de um apartamento acabado numa cama desconfortável. Me sentia anestesiado, mas meu corpo inteiro doía. Uma televisão ligada passava um filme qualquer. O homem que me trouxe sentava-se de frente pra mim.

- Ouça atentamente o que eu tenho a dizer e eu não vou repetir. Está prestando atenção.

Mexi a cabeça como se respondesse que sim.

- Ótimo. Assim que estiver se sentindo melhor, você vai deixar a cidade. Eu não vou estar aqui. Tem um envelope em cima da cozinha com tudo o que você vai precisar. Carteira de habilitação, dinheiro, passaporte e uma passagem. Chame um táxi e vá direto para o Aeroporto. Não fale com ninguém, não volte para a casa de sua mãe. Eu prometo que ela e sua mãe estarão seguras. Essa passagem é para Pittsburg. Você também vai encontrar um endereço dirija-se para lá e espere eu entrar em contato. Não fale com ninguém. Fui claro.

- Eu não vou a lugar nenhum.

- Aaron...

- Eu não vou a lugar nenhum antes de saber o que diabos está acontecendo. Onde é que eu estou? Por quê vocês estão atrás de mim? O que aconteceu?

- Não revire o passado. Você escolheu assim, você escolheu esquecer. Para recomeçar a sua vida. Mas você cometeu um erro Aaron. Eles te encontraram e vão fazer de tudo para te trazer para o lado deles. Sua vida como era antes nunca poderá voltar se insistir em voltar ao passado.

- E por quê eu fiz isso? Por quê esquecer? Isso não faz sentido.

- Porque você não poderia viver tendo feito as coisas que fez, tendo visto as coisas que viu. Sabendo das coisas que sabe. Você esqueceu pois escolheu viver.

- E esse é o preço que eu devo pagar por querer viver? Ter que deixar tudo para trás de novo? Minha família, meus amigos?

- Você já escolheu os deixar para trás há muito tempo. Terá de fazer isso de novo se quiser continuar vivo.

Me levantei da cama e o fuzilei com os olhos.

- Minha vida não vale tanto. Eu não sei o que fiz nem como eu te conheço, mas tenho certeza que tudo isso foi um erro. Eu estou indo embora daqui, mas é para casa que eu vou voltar.

- Você não pode...

- E é você que vai me impedir?

Cambaleei até a porta quando ele me puxou pelo braço:

- Aaron, me escuta: você vai morrer antes do ano acabar se não fizer o que eu estou te dizendo.

- Eu já morri há muito mais tempo que isso.

Deixei o apartamento e chamei um táxi para me levar de volta pra casa.

domingo, 28 de dezembro de 2014

VI - Summer Park

Neguei quando me ofereceram a cadeira de rodas para sair do hospital. Fiz questão de ir andando, mesmo que com bastante dificuldade. A minha recuperação era tão inexplicável quanto o fato de eu ainda estar vivo, mas àquela altura, eu já nem me preocupava em perguntar os "comos" e "porquês". Eu só queria ir para casa. Mas minha casa era um lugar que já não mais existia, então voltei a morar com a minha mãe.

A viagem de trem foi em completo silêncio. Minha mãe parecia feliz por eu estar de volta, mas exausta demais para pensar ou falar qualquer coisa. Talvez ela não tenha acreditado na história de que eu não me lembrava de nada. E eu queria que realmente fosse mentira.

Observei abismado pelas janelas do vagão como a cidade tinha mudado: novos prédios, pontes, viadutos. Alguns negócios haviam sido fechados, outros novos tomavam lugar. A neve tomava a paisagem dividindo lugar com as luzes de Natal. Faltavam 3 dias para o ano acabar e tudo o que eu queria era um lugar para descansar a minha cabeça.

Era um belo Domingo de inverno, o céu aberto, sem nuvens. O sol brilhava apesar do frio pesado. Um grupo de adolescentes entrou no vagão, provavelmente voltando de alguma festa ou show. Talvez de uma balada. Eles riam, falavam alto e ainda pareciam animados apesar de estarem acordados a noite toda. Um mostrava alguma coisa para o amigo na tela do Smartphone enquanto ria e cochichava em seu ouvido. Atrás deles, um homem velho me fitava.

Ele deveria ter pelo menos uns cinquenta e seis anos, talvez mais. Mas parecia durão. O cabelo bem cortado e a barba já eram bem grisalhos, ele era quase tão pálido quanto a neve, seus olhos de um azul turquesa que parecia fuzilar-me através de seus óculos de armação pesada. Eu tive certeza que o conhecia de algum lugar, mas não consegui

Quando o trem partiu, ele se limitou a ler seu jornal em sua poltrona. Me senti melhor sem seus olhos disparando contra mim. E seria uma longa viagem. Íamos de Halifax a Moncton, quase três horas de viagem.

Minha mãe me despertou de um cochilo quando chegamos. Descemos na estação com nossa pouca bagagem e fomos atrás de um táxi. Quando adentramos ao táxi e ela deu o endereço de sua casa ao motorista, observei pela janela e vi o velho saindo da estação. Ele tinha olhos em mim como antes. Engoli em seco antes do carro dar partida.

A casa onde eu cresci ficava na região Oeste de Moncton, New Brunswick. A casa quase não mudara desde a minha infância: o modelo colonial de alvenaria e madeira branca num calmo subúrbio de uma cidade pacata. O lugar perfeito para criar os filhos, longe de todo o caos urbano dos grandes centros. As memórias mais doces da minha infância vinham não de casa, mas de um parque que ficava há algumas quadras. O "Summer Park". Me lembro dos meus pais nos levarem quase todo final de semana ao parque. Fiz a maioria das minhas amizades na infância por lá. E talvez seja por isso que eu tenha resolvido ir até lá, contrariando minha mãe.

Eu precisei de uma bengala para andar até o parque, apenas três quadras que então me pareciam três milhas. O sol brilhava no céu fraco demais para derreter a neve nos telhados e calçadas. Eu ofegava e minha respiração formava nuvens de vapor saindo de minha boca a cada passo que eu dava com dificuldade pelas ruas do bairro até avistar, de longe, o pequeno parque.

Sentei-me num dos bancos e me deixei ser invadido pelas boas memórias da infância. Podia me ver com meus amigos jogando hockey nas ruas próximas do parque. Puxei um maço de cigarros do bolso e risquei um palito de fósforo. O cobri para que o vento frio não apagasse e acendi o cigarro. Traguei com força e quando soltei a fumaça me senti libertado. Eu havia comprado o maço de cigarros na estação sem minha mãe perceber. Nesse momento, vi crianças passarem por mim, tão encapotadas em seus gorros e blusas de lã e casacos que pareciam que iriam rolar se alguém as empurrasse pelo chão.

Foi quando eu pensei se eu poderia ter tido um filho - ou dois - nos últimos anos. Se eu tivesse e não me lembrasse, que tipo de pai eu seria por me ausentar? Mas como poderia me lembrar deles? Me peguei perguntando se existiam muitos casos como o meu: pais que perdem a memória e nunca mais voltam para suas casas por não saber que elas existem. Eu precisava saber de qualquer maneira. Nesse momento, alguém sentou-se ao meu lado no banco.

- Você tem fogo? - perguntou o homem.

- É claro. - Puxei a caixa de fósforos do bolso da calça e me virei para entregar ao homem que levava um cigarro pendurado na boca. Foi quando percebi e fiquei congelado por um instante.

- Você realmente não se lembra não é? - disse o velho que eu vi no trem com um meio sorriso estampado no rosto.

sábado, 27 de dezembro de 2014

V - Escarlate

Me lembro da primeira vez que me olhei depois de ter despertado. Não reconheci a pessoa no reflexo do espelho do banheiro. Eu não tinha mais cabelo e uma barba espessa crescia no meu rosto. Eu parecia muito mais velho. Bolsas se penduravam abaixo dos meus olhos caídos e havia uma cicatriz na minha têmpora direita há muito já fechada que eu não fazia ideia de onde tinha surgido. Também estava mais magro e pálido do que nunca.

Percebi que não sentia falta dos meus óculos. Eu estava enxergando perfeitamente bem sem eles.

Minha mãe vasculhou as minhas coisas. As roupas que eu vestia quando me encontraram. Não encontrou documentos ou qualquer pista que indicasse por ande andei por todo esse tempo. Apenas um ensopado maço de cigarros e um isqueiro que obviamente já não funcionava mais. O que é engraçado porque nunca fumei - pelo menos, não me lembrava disso.

Então lembrei da voz da mulher do fundo do rio, dentro da minha cabeça no dia anterior.

"Mantenha seus olhos no chão rapaz. Você é só uma criança jogando dados. Fumando um maço por dia, comendo e dormindo mal. Andando sozinho de madrugada, esperando ser baleado por algum trombadinha."
Pensar naquilo fez meu estômago revirar.

Ela também encontrou balas de menta - essas eu reconhecia, um vício antigo - e um relógio de pulso quebrado e travado em 4:34.

De resto, roupas que eu nunca vi na vida eram o que eu vestia quando me encontraram. A cada minuto que passava, eu ficava cada vez mais confuso. E ainda tinham as visitas: amigos antigos apareciam no hospital para me visitar, todos completamente pasmos e desacreditados. Nenhum conseguia me reconhecer de cara assim como eu não podia reconhecer a maioria deles.

Me perguntavam sobre coisas que eu não saberia dizer, contavam sobre coisas que eu nem imaginava que tinham acontecido. Minha irmã já era uma mulher feita, meus amigos todos já eram pais de família, doutores, engenheiros, advogados.

Eu não sabia o que dizer. Minha cabeça parecia querer explodir, meu estômago estava revirado e tudo o que eu queria era um cigarro. Não sei quando, não sei como, mas me tornei um fumante do dia pra noite.

Eu só queria voltar para casa. Mas descobri que casa é um lugar que não existe mais. Não para mim.

E na última noite, sonhei com ela de novo. Ela dizia que tudo ficaria bem desde que eu não insistisse em olhar para trás, mas era um conselho impossível de ser seguido. Eu não posso simplesmente fingir que nada disso aconteceu. Algumas pessoas esquecem fácil, mas essa é uma ideia que nunca fez sentido pra mim. Mesmo que eu quisesse, não poderia seguir em frente sem entender o que de fato aconteceu.

Nunca fui bom nisso, em simplesmente me desapegar do passado. Pra mim, sempre foi difícil esquecer qualquer coisa. Fui apaixonado pela mesma garota durante todo o Ensino Médio. Nunca deu certo. Mas por mais que eu tentasse me aproximar de outra pessoa, eu nunca conseguia preencher o lugar que ela ocupava.

Quando eu era criança, vi um garoto ser atropelado numa avenida perto da escola onde eu estudava. Por semanas, não conseguia dormir com a imagem dele sendo atirado no ar pelo carro e batendo com força no asfalto. Mesmo hoje, lembro com clareza o som da cabeça dele acertando o chão. Lembro dos médicos tentando reanimá-lo, lembro de como os olhos dele se tornaram fundos e opacos, lembro-me do vermelho escarlate do sangue escorrendo e formando uma linha vermelha até o meio fio. Foi algo que me fez ter pesadelos por anos, nunca superei completamente, nunca esqueci. E acredito que nunca irei.

E agora, tudo o que eu queria era lembrar de um enorme pedaço da minha vida que estava em branco, era saber o que de fato aconteceu. E descobri que mais difícil que saber é não lembrar. Mesmo a mais cruel das certezas jamais me torturaria quanto as dúvidas. Eu devo ter estado em algum lugar, deveria haver pelo menos uma pessoa que pudesse me responder, que pudesse me lembrar.

Comecei a pensar onde e com quem passei meus últimos aniversários. Como ganhei novas cicatrizes, quando comecei a fumar. Quando foi que minha vida tomou um rumo que nem eu mesmo consigo entender? Eu só queria sair e encontrar respostas.

Eu queria minha vida de volta. E resolvi buscá-la.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

IV - ... te torna pior

E então eu despertei.

Acordei numa cama de hospital com tubos enfiados em quase todos os orifícios possíveis do meu corpo. Eu podia sentir que estava claramente dopado, mas sentia dor por todo o corpo. Como se eu tivesse levado uma surra por dias. Cada minúsculo pedaço do meu corpo parecia ter sido esmagado.

Entre os borrões que eu enxergava, ouvi uma voz distante. Pensei na mulher do fundo do rio, aquela que há anos fala comigo de dentro da minha mente. Mas então reconheci. Era minha mãe, a primeira pessoa que eu vi depois de despertar.

Eu estava vivo. E ainda não sabia se isso era uma coisa boa.

Me encontraram na margem do rio praticamente congelado na manhã de Natal. Ninguém entendia como eu ainda poderia estar vivo. A hipotermia me fez perder a orelha direita. Os dedos mínimos e anelar da mão direita também se foram. No pé esquerdo, só me restou o polegar. Eu tinha dificuldade para enxergar, havia rompido sei lá quantos músculos me arrastando pela superfície de gelo do rio. Um tornozelo torcido e uma clavícula fora do lugar. Foi o que eu ganhei por sobreviver.

E essa nem era a pior parte.

Não sei quanto tempo passei debaixo do gelo ou na margem do rio, também não entendo como era possível eu ter ficado tanto tempo desacordado, mas eu acreditei que fossem meses, talvez anos. Não havia sobrado muito da minha vida quando eu despertei.

Meu pai "não estava mais lá", foi tudo o que me explicaram. A mulher que um dia me amou já havia há muito desistido de me esperar voltar para casa. Meus amigos se casaram, formaram família, cada um tomou um rumo distinto do outro. E a única pessoa que ainda estava lá do meu lado, era minha mãe. E ela havia envelhecido. Uma cascata de prata tomava seus cabelos e novas rugas apareciam em seu rosto. Ela estava mais magra e abatida do que nunca.

Eu perdi meu emprego, não tinha mais uma casa. Todas as pessoas à minha volta haviam desaparecido. Por quanto tempo estive fora? Por onde estive? O que fiz durante todo esse tempo?

Quando apaguei de novo naquele leito de hospital, sonhei com ela mais tantas vezes. A mulher do fundo do rio cujos cabelos negros flutuavam em torno de si. Seu rosto pálido e aqueles profundos olhos negros me olhavam como se pudessem me despir. Seus lábios sussurravam uma canção fúnebre e escura.

Minha mãe me disse que se passaram sete anos desde que o gelo se rompeu e fui tragado pelas águas. Me procuraram por muito tempo, nunca me encontraram vivo ou morto. Mas no mesmo dia 26 de Dezembro, sete anos mais tarde, alguém me encontrou nas margens do rio, como se eu simplesmente tivesse desaparecido por todo esse tempo e voltado ao mesmo lugar. O tempo parou enquanto estive na água fria do rio.

E esse era só o começo: eu voltei diferente de uma maneira que não conseguiria explicar. Mas posso garantir que não era o que eu queria ser. Podia sentir uma raiva escura queimar dentro de mim e sabia que era ela que tinha me mantido vivo. Então comecei a questionar se foi uma sábia escolha viver ao invés de abraçar a morte no fundo do rio naquela noite de Natal.

Esse é o preço de escolher a vida. E eu já nem sei se valeu a pena pagar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

III - O que não mata...

O gelo se partiu debaixo dos meus pés. A água negra do rio engoliu primeiro meu pé direito e a água gelada pareceu quebrar todos os meus ossos. Eu tentei sair, tentei lutar, tentei ignorar os estalos cada vez mais altos, o gelo se desmanchando abaixo de mim. Uma sinfonia mortal de gelo se partindo e da água me engolindo. É assim que a morte soa quando ela sussurra em nossos ouvidos.

Veio a escuridão. Não podia enxergar ou ouvir nada, somente lutar e tentar subir, encontrar o buraco por onde eu entrei. A água tão fria que fazia com que eu rompesse as fibras dos meus músculos tentando subir. Todos os meu nervos se retorciam e meu corpo parecia se despedaçar na água negra. Eu lutei o quanto pude, mas a escuridão me engoliu aos poucos assim como engoli a água tão gelada que parecia dissolver meu estômago e parecia cravar facas por cada centímetro do meu corpo.

"Eu ouço Deus sussurrando seu nome todas as noites."

Perdi o senso de direção, não sabia mais se estava subindo ou descendo, se estava mais perto de me salvar ou morrer. Eu desisti. Fiz minhas pazes com tudo, com todos. Quando parei de lutar, só havia o silêncio. Eu orbitava na água fria entre gelo e cascalho. O ar fugia dos meus pulmões e fazia bolhas que saiam da minha boca e chegavam até a superfície explodindo em bolsas de vapor.

Quando meus pés tocaram o fundo do rio e se fundiram ao cascalho, eu me senti em casa. Não como depois de um dia de trabalho, mas como o pai que volta de uma longa viagem e encontra o aconchego do abraço dos filhos e da esposa, a redenção do sofá da sala e um banho quente para lavar a alma.

E era isso. Não tem filme da sua vida passando na sua cabeça, nem coral de anjos ou as portas do inferno se abrindo pra te buscar. Só o silêncio, o frio e a escuridão.

Então eu vi luz no fundo do rio. Eu a vi.

Cantando uma doce melodia mortal, estoica, efêmera. Seus cabelos dançavam pela água gelada como se sempre fossem livres da gravidade, mesmo lá em cima. Os seus olhos negros me fitavam, me seduziam, me devoravam como se não houvesse nada além deles. Um par de pupilas negras me chamava. Não era da boca que saia o som, nem nas cordas vocais ele era produzido. Eram os seus olhos que falavam comigo.

- Nunca confie no gelo fino. Eu posso te dar asas para te levar pra casa. Eu posso te aquecer com um banho e uma boa refeição. Posso te trazer pro lado da minha lareira. Não haverá mais dor, não haverá mais frio. Basta aceitar.

Ela chegou perto, pousou a mão no meu rosto e se curvou pra me beijar. Sua mão era quente e me trazia de volta lembranças mais remotas e doces. Eu quis ficar, eu soube que me sentiria em casa. Não haveria mais nada com o que me preocupar, não haveria mais dor nem dúvida. Mas quando os lábios dela já quase tocavam os meus, encontrei forças nas minhas pernas e empurrei o fundo do rio. Terra e cascalho fizeram uma névoa turva e lenta. Dançaram em volta de nós como um cinturão de asteroides na órbita de duas almas. Enquanto subia, lembro de ver mais uma vez seus olhos negros, olhando pra cima, disparando seu desespero contra mim.

À essa altura, eu já não sabia se meu fôlego tinha acabado, se eu já tinha tragado a água do rio pra dentro dos meus pulmões. Não sabia se estava vivo. Apenas subi e tentei encontrar uma saída. Quando toquei o gelo, não senti absolutamente nada na ponta dos meus dedos. Era no meu cotovelo que eu sentia o toque. Mas eu sentia meu sangue pulsando, podia ouvir meu coração bater e meu sangue correr pelas veias numa tentativa desesperada em manter o corpo quente. Mas já não havia mais oxigênio e meu sentidos já começavam a me falhar.

Foi quando eu encontrei o buraco por onde entrei. As mãos saíram primeiro e puxaram o resto do corpo com dificuldade enquanto as bordas do buraco no gelo também se rompiam como os tendões do meu corpo. Quando saí, finalmente ouvi algo, o primeiro som desde que cheguei ao fundo do rio: ar enchendo meus pulmões e água pingando ao meu redor. Saí do buraco e me atirei no gelo que, agora, parecia tão quente e aconchegante quanto uma cama.

Não tinha como continuar. Simplesmente desabei no gelo ao sair da água. Meu corpo inteiro parecia ter desistido. A única luta era para conseguir ar. E no gelo permaneci, respirando, com frio e destruído. O que sobrou de mim jazia de bruços no gelo que cobria o rio.

Me lembro de ver o céu a as estrelas despontarem na noite de Natal. Minha última lembrança antes de apagar. E eu fiz questão de me lembrar daquilo que é o mais importante no final das contas e até encontrei forças para dizer em voz alta:

"Eu ainda estou vivo."