Um ano pode mudar muito mais do que a gente imagina. E também pode manter as coisas exatamente como elas eram.
Me flagrei em devaneios no meio da madrugada. Se não tivesse te conhecido, provavelmente não teria voltado. Lá eu teria ficado, lá eu continuaria com a vida que me restou pra viver. Mas com aquela inédita paz de espírito que tenho sentido. Quando minha mente finalmente fica em silêncio, quando todas aquelas vozes se calam. Toda a vaidade de tentar ser diferente, mera distração para o fato de que ninguém realmente é.
Aquelas páginas com meia dúzia de versos que você arranca e joga fora temendo que alguém possa ler.
Na páscoa passada, atravessei a madrugada no frio, rindo sozinho, fumando um maço de cigarros como quem devora rápido um saquinho de balas. Não pela vontade ou pela fome. Muito menos por elas serem boas. Mas pelo simples hábito de enfiar uma atrás da outra dentro da boca sentindo-se incapaz de parar até que o saco esteja vazio.
E por falar nele, meu saco está cheio. Cheio de tanta gente, cheio de tanta hipocrisia, cheio de tanto mau caratismo. Cheio de reuniões, de festas, de palavras não ditas, de coisas que a gente se esquece de esquecer. E se esquecendo de nós, eles vão desaparecendo um a um até que a pista de dança esteja vazia e não haja mais ninguém para dançar comigo. Eu nunca soube dançar e nunca quis aprender, mas ter pelo menos a oportunidade de aprender e alguém para tentar me trazia certo conforto. Não mais.
Melhor assim. A tormenta que carrego dentro de mim pode arrastar qualquer um pra dentro dela. Por isso é bom manter uma distância segura, sempre. Como naquele provérbio árabe que dizia que antes de arrancarmos as ervas daninhas do quintal do vizinho, devemos nos certificar de que o seu próprio quintal está livre delas.
Se eu preciso me reciclar, primeiro resolvo os meus problemas. Enquanto a eles? Eles ficam para depois.
Nunca construí muros para manter qualquer pessoa longe de mim. Mas para ver quem se importa o bastante para derrubá-los. E você, com um sopro, fez dos muros uma ponte, fez das pedras fundação e dos alicerces o seu castiçal. E tuas velas iluminaram o caminho. A ponte te trouxe até mim. As pedras fundaram a escada da subida. E tuas palavras, minha morada:
"Não estou aqui pra te salvar, só pra te mostrar a saída. No final, você só caminhará com as próprias pernas, só decidirá com a própria vontade. Só será com a própria força."?
Nem a luz que me guia ao porto. Nem a onda que me empurra pra costa.
A bússola que me orienta o caminho. O leme ainda é meu.
Mas obrigado, sem você, jamais saberia para onde ir.
terça-feira, 22 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
A Perspectiva
Meu pedido foi mais simples e direto o possível:
Uma perspectiva servida com um bom vinho.
A perspectiva para levantar a cabeça, para olhar para frente, para sonhar com qualquer coisa absurda. Qualquer caminho a ser traçado, qualquer meta a ser atingida. Não preciso de nada concreto, só a ilusão, a fé de acreditar sem ver, de esperar pelo que não virá, de acreditar no impossível. Uma nova perspectiva, um motivo pra ficar pois não vejo nenhum.
Pois, ás vezes, a única saída é o ostracismo. Lá se sofre sozinho e ninguém além de você mesmo sente as consequências dos seus problemas. Pois o homem há de travar suas próprias batalhas. E se em algum momento precisar da ajuda de alguém, a vitória não será por mérito próprio.
Ainda tenho meus princípios. Um deles é não arrastar ninguém para os buracos onde entrar. Como o réptil que perde o rabo pra não perder a vida, me descarto para não ferir ninguém além de mim. Estarão bem sem mim e, assim como a cauda do vertebrado rastejante volta a crescer e substitui a anterior, eu serei substituído e esquecido.
A perspectiva atualmente é essa: recomeçar. Sacrificar o que for necessário. Não é desistir, é abrir mão por algo maior.
Eu só precisava de um motivo. Um motivo que ninguém consegue me dar embora eu peça desesperadamente por um. Qualquer coisa serve, qualquer nova perspectiva.
Queria poder ficar.
Pode dizer que sou um covarde. Isso não vai mudar nada, é irrelevante.
Mas também tem o Vinho! Oras, para quê o vinho? Não sou um apreciador, não entendo nada sobre vinhos, então é mera formalidade.
O vinho será para brindar as palavras não ditas, os planos desfeitos, os erros e acertos, as idas e vindas, os desencontros, o destino, as coisas que não fiz e os amigos que não tenho.
Uma perspectiva servida com um bom vinho.
A perspectiva para levantar a cabeça, para olhar para frente, para sonhar com qualquer coisa absurda. Qualquer caminho a ser traçado, qualquer meta a ser atingida. Não preciso de nada concreto, só a ilusão, a fé de acreditar sem ver, de esperar pelo que não virá, de acreditar no impossível. Uma nova perspectiva, um motivo pra ficar pois não vejo nenhum.
Pois, ás vezes, a única saída é o ostracismo. Lá se sofre sozinho e ninguém além de você mesmo sente as consequências dos seus problemas. Pois o homem há de travar suas próprias batalhas. E se em algum momento precisar da ajuda de alguém, a vitória não será por mérito próprio.
Ainda tenho meus princípios. Um deles é não arrastar ninguém para os buracos onde entrar. Como o réptil que perde o rabo pra não perder a vida, me descarto para não ferir ninguém além de mim. Estarão bem sem mim e, assim como a cauda do vertebrado rastejante volta a crescer e substitui a anterior, eu serei substituído e esquecido.
A perspectiva atualmente é essa: recomeçar. Sacrificar o que for necessário. Não é desistir, é abrir mão por algo maior.
Eu só precisava de um motivo. Um motivo que ninguém consegue me dar embora eu peça desesperadamente por um. Qualquer coisa serve, qualquer nova perspectiva.
Queria poder ficar.
Pode dizer que sou um covarde. Isso não vai mudar nada, é irrelevante.
Mas também tem o Vinho! Oras, para quê o vinho? Não sou um apreciador, não entendo nada sobre vinhos, então é mera formalidade.
O vinho será para brindar as palavras não ditas, os planos desfeitos, os erros e acertos, as idas e vindas, os desencontros, o destino, as coisas que não fiz e os amigos que não tenho.
domingo, 6 de abril de 2014
All in
Nas mãos suadas, as duas cartas, um dois e um três de paus.
Na mesa, outras cinco:
- outro dois de paus;
- um três de ouros;
- um Rei de Ouros;
- um quatro de Espadas;
- a última carta ainda virada.
Todos da mesa já desistiram do jogo, restam apenas nós dois.
Ele tem mais fichas, parece otimista, deve ter uma boa mão, mas também pode estar blefando. Nunca vejo a diferença. Dobra a aposta e espera minha reação.
Posso sair, desistir. Se eu cobrir, posso perder tudo.
Não é só dinheiro que está em jogo. Não são só fichas. Não é só um prêmio.
É uma perspectiva, toda uma vida.
Se eu vencer, não sou eu que levo o prêmio. Se eu sair, fico com o que tenho. Se eu perder, perco tudo.
Mas lembro que não é por mim que estou jogando
Tenho dois pares, mais um três ou outro dois e eu venço. Mas se ele tiver dois quatros, dois três, dois dois ou dois reis na mão, ele vence se qualquer uma das cartas da mesa dobrarem.
Suei frio.
O dois ou o três que pode estar no final podem ser melhores pra ele do que pra mim. Talvez nem um Full house seja o bastante a essa altura, principalmente com cartas tão baixas.
Eu aposto tudo. Eu sei que tenho pouco, eu sei que tenho menos, eu sei que ninguém apostaria em mim. O outro dois ou o outro três pode não vir. Podem estar nas mãos de quem já saiu do jogo. Podem estar no monte.
Na mesa, no jogo, eu não sou ninguém. Eu sei. Não precisa me lembrar disso. Mas há uma chance, apenas uma chance.
Vira-se a última carta.
O tempo para antes que eu a veja. Já não sei mais se perdi ou se ganhei, mas eu apostei tudo e não me arrependo.
Pois não é sobre o quanto você pode ganhar, mas sobre o que está disposto a perder pelo bem de outro alguém.
Na mesa, outras cinco:
- outro dois de paus;
- um três de ouros;
- um Rei de Ouros;
- um quatro de Espadas;
- a última carta ainda virada.
Todos da mesa já desistiram do jogo, restam apenas nós dois.
Ele tem mais fichas, parece otimista, deve ter uma boa mão, mas também pode estar blefando. Nunca vejo a diferença. Dobra a aposta e espera minha reação.
Posso sair, desistir. Se eu cobrir, posso perder tudo.
Não é só dinheiro que está em jogo. Não são só fichas. Não é só um prêmio.
É uma perspectiva, toda uma vida.
Se eu vencer, não sou eu que levo o prêmio. Se eu sair, fico com o que tenho. Se eu perder, perco tudo.
Mas lembro que não é por mim que estou jogando
Tenho dois pares, mais um três ou outro dois e eu venço. Mas se ele tiver dois quatros, dois três, dois dois ou dois reis na mão, ele vence se qualquer uma das cartas da mesa dobrarem.
Suei frio.
O dois ou o três que pode estar no final podem ser melhores pra ele do que pra mim. Talvez nem um Full house seja o bastante a essa altura, principalmente com cartas tão baixas.
Eu aposto tudo. Eu sei que tenho pouco, eu sei que tenho menos, eu sei que ninguém apostaria em mim. O outro dois ou o outro três pode não vir. Podem estar nas mãos de quem já saiu do jogo. Podem estar no monte.
Na mesa, no jogo, eu não sou ninguém. Eu sei. Não precisa me lembrar disso. Mas há uma chance, apenas uma chance.
Vira-se a última carta.
O tempo para antes que eu a veja. Já não sei mais se perdi ou se ganhei, mas eu apostei tudo e não me arrependo.
Pois não é sobre o quanto você pode ganhar, mas sobre o que está disposto a perder pelo bem de outro alguém.
terça-feira, 18 de março de 2014
Retalhos de vidro
Soletro impaciente cada letra do seu nome antes de pegar no sono.
E tudo tem passado depressa, tudo tem acontecido tão rápido. Quando minha cabeça repousa sobre o travesseiro, tento recapitular o que vem acontecendo. Tento entender essa instabilidade, essa intermitente lucidez que me abandona quando mais preciso e me conforta quando menos espero.
E eu que acreditei que tinha me tornado invencível como o vidro quebrado tantas vezes em pedaços tão pequenos que nem todo o peso da Terra é capaz de dividí-los em pedaços menores.
E seria isso, então, ser forte? Ser uma porção de retalhos de vidro, inquebrável por ter sido diversas vezes desfigurado?
Essa "invencibilidade" cai por terra diante do risco de me tornar outro nome na lista. De ser outro troféu na tua estante. Então me sinto frágil como uma lâmina de vidro. O pequeno garoto que tateia no escuro acreditando cegamente que nunca vai cair.
Não é sobre o que você fez ou sobre acreditar no que diz. Bem conhece o que penso, os meus princípios e meus erros.
O quanto eu te invejo. Mas não é isso.
O que mais me incomoda no passado não é o fato dele existir, mas o medo de passar a fazer parte dele um dia.
"This gun is pointed right at your heart"
"That's my 'least' vunerable spot."
(Casablanca, 1942)
E tudo tem passado depressa, tudo tem acontecido tão rápido. Quando minha cabeça repousa sobre o travesseiro, tento recapitular o que vem acontecendo. Tento entender essa instabilidade, essa intermitente lucidez que me abandona quando mais preciso e me conforta quando menos espero.
E eu que acreditei que tinha me tornado invencível como o vidro quebrado tantas vezes em pedaços tão pequenos que nem todo o peso da Terra é capaz de dividí-los em pedaços menores.
E seria isso, então, ser forte? Ser uma porção de retalhos de vidro, inquebrável por ter sido diversas vezes desfigurado?
Essa "invencibilidade" cai por terra diante do risco de me tornar outro nome na lista. De ser outro troféu na tua estante. Então me sinto frágil como uma lâmina de vidro. O pequeno garoto que tateia no escuro acreditando cegamente que nunca vai cair.
Não é sobre o que você fez ou sobre acreditar no que diz. Bem conhece o que penso, os meus princípios e meus erros.
O quanto eu te invejo. Mas não é isso.
O que mais me incomoda no passado não é o fato dele existir, mas o medo de passar a fazer parte dele um dia.
"This gun is pointed right at your heart"
"That's my 'least' vunerable spot."
(Casablanca, 1942)
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O Diário de Uma Guerra Pessoal
Difícil é explicar como funciona a minha cabeça.
Ás vezes, o emaranhado das opostas ondas de pensamentos me impede de manter a concentração. E nos meus piores dias, tem um lado de mim que me impede de seguir em frente.
É o lado de lá da Linha Amarela, o que vira e mexe a atravessa para embaralhar minhas convicções e descartar minhas oportunidades.
É ele que fecha cada uma das minhas portas.
É esse lado que não me permite dirigir ou voltar a estudar. É o que me faz ter medo de hospitais e escolas. É o que quer se isolar, se esconder do mundo. É o que me segura quando quero começar uma conversa. O que me faz sentir encabulado a todo momento, o que me dá a falsa (falsa?) impressão de que sou alvo de chacota de todo mundo o tempo todo. É o que acelera minha pulsação e me impede de respirar quando entro num ônibus, quando chego numa festa. É meu medo de altura, é meu medo de palco, é meu medo da vida. É ele que torna quase impossível o simples ato de me comportar normalmente, de me socializar normalmente.
Porém, há algum tempo, resolvi lutar contra esse perigoso monstro que criei dentro de mim, esse medo de mudanças, essa insegurança que faz minhas pernas tremerem diante de qualquer decepção que nem aconteceu de fato. O lado de cá, ás vezes, fala alto. É ele que me empurra pra frente, que me faz sorrir. É o que me caracterizou para os novos amigos, é meu bom humor debochado, meu jeito falante de ser. Sou eu entendendo mais sobre qualquer assunto do que qualquer um no recinto. Sou eu impressionando e incomodando. Sou eu meio bêbado dando em cima da garota no bar. É o que me faz ser o bom orador que sou.
E esses dois lados estão sempre lutando um contra o outro. Um pela reclusão total, pela abstenção da vida como a conheço. O outro pela permanência do lado de cá, pelo progresso de seguir em frente. Um dizendo pra ir embora, outro dizendo para ficar. Um dizendo para desistir, outro dizendo para insistir.
Um me diz que sua mãe me odeia, que isso nunca vai dar certo, que eu nunca serei o pai dos filhos de ninguém, que nunca terei a competência para ser um homem pleno e independente. O outro não tem argumentos para me defender, mas usa o seu velho, otimista e ingênuo bordão de sempre: "Foda-se, vai dar certo."
E eu estou enlouquecendo.
Em cima do muro, sobre essa linha amarela sem saber se estou indo ou voltando, se vou pro sul ou pro norte. Eu não consigo pensar, isso me tortura. Até esse texto simples tornou-se complexo pois escrevi em partes aleatórias pois não tenho conseguido manter a concentração numa coisa só. E quando percebo, essa linha desapareceu, já não sei mais em qual lado estou, já não sei se lá é aqui ou se aqui é lá.
Tenho medo de te arrastar pra dentro do buraco que entrei. Eu sei que uma vez no lado de lá, nada mais é como era antes. Não quero machucar mais ninguém.
Mas eu sei que vai estar aqui, sei que vai ficar comigo até o fim, mas é meu dever te alertar e dizer que ainda tem uma chance.
Pois ainda há tempo para fugir.
E vou fazer de tudo pra te salvar de mim.
Não que eu queira que vá, mas não posso viver com a culpa de te deixar pior do que no dia em que te conheci.
E não quero que encare isso com desdém, odeio quando as pessoas não me levam a sério. Muita gente não entende como as coisas mais simples são extremamente difíceis para mim. Executar banais tarefas diárias é um grande desafio. Tenho uma ridícula deficiência emocional, culpe quem quiser, mas é um fato.
E é grave.
Eu não posso te exigir que fique, muito menos quero te ver partir. Só quero que saiba que, ás vezes, até conseguir respirar tem sido uma vitória, não me cobre muito mais que isso. Eu não digo que seus planos são rascunhos porque não gostaria de vivê-los, mas sim porque eles ignoram essa minha luta diária em simplesmente tentar não destruir aquilo que eu amo.
E sim, eu vou surtar. Muitas e muitas vezes. E vamos ter que nos acostumar. Com um futuro incerto, com uma corda bamba e uma quase apagada linha amarela que mal permite ver de qual lado da estrada eu estou.
Pois o cinismo não tem cura. E vou ter que aprender a conviver com ele.
E só quero que fique se tiver a coragem para enfrentar o problema, a paciência para lidar com minha imaturidade e a frieza para saber a hora de desistir.
Ás vezes, o emaranhado das opostas ondas de pensamentos me impede de manter a concentração. E nos meus piores dias, tem um lado de mim que me impede de seguir em frente.
É o lado de lá da Linha Amarela, o que vira e mexe a atravessa para embaralhar minhas convicções e descartar minhas oportunidades.
É ele que fecha cada uma das minhas portas.
É esse lado que não me permite dirigir ou voltar a estudar. É o que me faz ter medo de hospitais e escolas. É o que quer se isolar, se esconder do mundo. É o que me segura quando quero começar uma conversa. O que me faz sentir encabulado a todo momento, o que me dá a falsa (falsa?) impressão de que sou alvo de chacota de todo mundo o tempo todo. É o que acelera minha pulsação e me impede de respirar quando entro num ônibus, quando chego numa festa. É meu medo de altura, é meu medo de palco, é meu medo da vida. É ele que torna quase impossível o simples ato de me comportar normalmente, de me socializar normalmente.
Porém, há algum tempo, resolvi lutar contra esse perigoso monstro que criei dentro de mim, esse medo de mudanças, essa insegurança que faz minhas pernas tremerem diante de qualquer decepção que nem aconteceu de fato. O lado de cá, ás vezes, fala alto. É ele que me empurra pra frente, que me faz sorrir. É o que me caracterizou para os novos amigos, é meu bom humor debochado, meu jeito falante de ser. Sou eu entendendo mais sobre qualquer assunto do que qualquer um no recinto. Sou eu impressionando e incomodando. Sou eu meio bêbado dando em cima da garota no bar. É o que me faz ser o bom orador que sou.
E esses dois lados estão sempre lutando um contra o outro. Um pela reclusão total, pela abstenção da vida como a conheço. O outro pela permanência do lado de cá, pelo progresso de seguir em frente. Um dizendo pra ir embora, outro dizendo para ficar. Um dizendo para desistir, outro dizendo para insistir.
Um me diz que sua mãe me odeia, que isso nunca vai dar certo, que eu nunca serei o pai dos filhos de ninguém, que nunca terei a competência para ser um homem pleno e independente. O outro não tem argumentos para me defender, mas usa o seu velho, otimista e ingênuo bordão de sempre: "Foda-se, vai dar certo."
E eu estou enlouquecendo.
Em cima do muro, sobre essa linha amarela sem saber se estou indo ou voltando, se vou pro sul ou pro norte. Eu não consigo pensar, isso me tortura. Até esse texto simples tornou-se complexo pois escrevi em partes aleatórias pois não tenho conseguido manter a concentração numa coisa só. E quando percebo, essa linha desapareceu, já não sei mais em qual lado estou, já não sei se lá é aqui ou se aqui é lá.
Tenho medo de te arrastar pra dentro do buraco que entrei. Eu sei que uma vez no lado de lá, nada mais é como era antes. Não quero machucar mais ninguém.
Mas eu sei que vai estar aqui, sei que vai ficar comigo até o fim, mas é meu dever te alertar e dizer que ainda tem uma chance.
Pois ainda há tempo para fugir.
E vou fazer de tudo pra te salvar de mim.
Não que eu queira que vá, mas não posso viver com a culpa de te deixar pior do que no dia em que te conheci.
E não quero que encare isso com desdém, odeio quando as pessoas não me levam a sério. Muita gente não entende como as coisas mais simples são extremamente difíceis para mim. Executar banais tarefas diárias é um grande desafio. Tenho uma ridícula deficiência emocional, culpe quem quiser, mas é um fato.
E é grave.
Eu não posso te exigir que fique, muito menos quero te ver partir. Só quero que saiba que, ás vezes, até conseguir respirar tem sido uma vitória, não me cobre muito mais que isso. Eu não digo que seus planos são rascunhos porque não gostaria de vivê-los, mas sim porque eles ignoram essa minha luta diária em simplesmente tentar não destruir aquilo que eu amo.
E sim, eu vou surtar. Muitas e muitas vezes. E vamos ter que nos acostumar. Com um futuro incerto, com uma corda bamba e uma quase apagada linha amarela que mal permite ver de qual lado da estrada eu estou.
Pois o cinismo não tem cura. E vou ter que aprender a conviver com ele.
E só quero que fique se tiver a coragem para enfrentar o problema, a paciência para lidar com minha imaturidade e a frieza para saber a hora de desistir.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
O Voo de Ícaro
Definitivamente, ele não havia nascido para ser subjugado. Desde pequeno, era subversivo, mal educado, desobediente. Como uma chama que não podia ser extinta, o garoto levava a alcunha de passarinho por sempre querer voar.
E livre foi, tentando viver um dia de cada vez, todos no mesmo dia. Passou pela vida veloz como o mergulho de um falcão carregando em seu peito a inocência de uma doce canção de um sabiá. Evitou fitar o mundo real onde abutres esperavam os rebanhos morrerem de sede para se alimentarem de seus cadáveres.
Temia somente a morte pois entendia esta como o fim definitivo de toda sua liberdade, a flecha que o atingiria em pleno voo e encerraria, assim, todo o seu desejo de conquistar os céus. E a sua obsessão pela liberdade de voar e seu medo da morte que a cada dia estava mais próxima em seu encalço, o levaram a ser considerado como louco e numa noite de Inverno, foi trancafiado num Manicômio.
Ele não poderia suportar o claustro, como pássaro na gaiola, recusava cantar suas belas melodias para seus raptores. Volta e meia tentava escapar, mas nunca conseguiu. Com os anos, a temida morte se aproximou, mas não para levá-lo, apenas para dialogar. Ele entendeu os anseios de sua maior inimiga e percebeu que a vida que levava não poderia ser tão pior que a morte que o assombrava.
E se foi numa tarde de primavera. Subiu no parapeito da janela do quinto andar e jurou para si mesmo que, se pulasse, poderia voar. Pois era um espírito livre e nascera para ser solto como os pássaros que cantam nas árvores. Não era um canário de gaiola qualquer, era uma ave de rapina jovem e arisca procurando lebres nos verdejantes campos de lugar algum.
Então saltou e, até certo ponto, realmente sentiu que estava voando. Até que começou a cair rapidamente. O vento contra seu rosto, o chão ficando mais próximo. Ele tocou o solo e abraçou a mais verdadeira liberdade: livrou-se das amarras da vida que lhe prendiam nesse mundo sujo e corrompido. Entendeu que a morte não era o fim de sua liberdade, mas o início dela.
E entendeu que sepultados estão os vivos que vivem escravos de sua própria ambição.
E livre foi, tentando viver um dia de cada vez, todos no mesmo dia. Passou pela vida veloz como o mergulho de um falcão carregando em seu peito a inocência de uma doce canção de um sabiá. Evitou fitar o mundo real onde abutres esperavam os rebanhos morrerem de sede para se alimentarem de seus cadáveres.
Temia somente a morte pois entendia esta como o fim definitivo de toda sua liberdade, a flecha que o atingiria em pleno voo e encerraria, assim, todo o seu desejo de conquistar os céus. E a sua obsessão pela liberdade de voar e seu medo da morte que a cada dia estava mais próxima em seu encalço, o levaram a ser considerado como louco e numa noite de Inverno, foi trancafiado num Manicômio.
Ele não poderia suportar o claustro, como pássaro na gaiola, recusava cantar suas belas melodias para seus raptores. Volta e meia tentava escapar, mas nunca conseguiu. Com os anos, a temida morte se aproximou, mas não para levá-lo, apenas para dialogar. Ele entendeu os anseios de sua maior inimiga e percebeu que a vida que levava não poderia ser tão pior que a morte que o assombrava.
E se foi numa tarde de primavera. Subiu no parapeito da janela do quinto andar e jurou para si mesmo que, se pulasse, poderia voar. Pois era um espírito livre e nascera para ser solto como os pássaros que cantam nas árvores. Não era um canário de gaiola qualquer, era uma ave de rapina jovem e arisca procurando lebres nos verdejantes campos de lugar algum.
Então saltou e, até certo ponto, realmente sentiu que estava voando. Até que começou a cair rapidamente. O vento contra seu rosto, o chão ficando mais próximo. Ele tocou o solo e abraçou a mais verdadeira liberdade: livrou-se das amarras da vida que lhe prendiam nesse mundo sujo e corrompido. Entendeu que a morte não era o fim de sua liberdade, mas o início dela.
E entendeu que sepultados estão os vivos que vivem escravos de sua própria ambição.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Aquela DR de rotina
"Você não confia em mim?"
Respirei fundo, tomei meu tempo e senti a tempestade vindo antes de dizer que não. Mas não fiz por mal: ofender com a sinceridade não é nenhum crime imperdoável. Ao menos não deveria ser.
Me peguei horas depois, já pela manhã, olhando o café preto no fundo da xícara no balcão daquela mesma padaria. O noticiário da manhã trazendo as novas sobre a alta da inflação. A estufa de salgados embaçada pelo calor. O vapor quente subindo da xícara de café. Minha cabeça apoiada sobre meu punho esquerdo fechado e meu cotovelo sobre o balcão. Na minha frente, meu pequeno caderno de anotações aberto numa página em branco e minha mão direita com a caneta à postos. Tudo em ordem: eu estava pronto para produzir.
E nada
.
Angustiado, tive um dos meus surtos. Senti como se dezenas de insetos andassem dentro da minha cabeça e roubassem cada uma das minhas ideias. Eu podia sentir os filhos da puta comendo cada pensamento meu. Ouvia eles conspirando, rindo baixinho, fazendo planos. Suas perninhas nojentas sobre as minhas memórias. Resolvi dar cabeçadas no balcão até ter uma concussão. No chão de piso frio da padaria, eu caí convulsionando. Sangue saindo pelos ouvidos e espuma saindo pela boca. Debatendo-me feito peixe fora d'água. Apaguei olhando a hipnótica lâmpada florescente no teto que piscava intermitentemente já anunciando que deveria ser trocada. E foi a última coisa que vi. O triste retrato da falta de inspiração, que seria justificada como causa da morte no meu Atestado de Óbito horas depois. Na mesa de Autópsia, tive tempo pra falar comigo mesmo.
Eles fizeram um corte em formato de "Y" no meu peito para avaliar minhas tripas. Também serraram o topo da minha cabeça para pesar meu cérebro. Socaram tudo de volta e me enfiaram numa gaveta gelada. Mas antes, ainda durante a sutura, consegui me ouvir uma vez na vida - ou melhor, na morte.
Decidi sair da merda da gaveta e passear pelo morgue. Por não ser um morto pervertido, tratei de me cobrir com um lençol antes de sair por aí. Eu andava e sentia meus joelhos estalando. Minhas tripas se mexiam como se estivessem soltas lá dentro. Era como estar prestes a dar a maior cagada da sua vida, porém ela nunca vinha. Eu não respirava, mas sabia que se pudesse, quase morreria com o cheiro de formol. Minha cabeça parecia estar escorregando, a sutura estava se desfazendo aos poucos. Mas não senti dor nenhuma, afinal, já estava morto.
Caminhei com meus pés descalços castigados pelo chão frio do necrotério. Ainda arrastava a etiqueta de identificação amarrada no meu polegar direito. Sentia como se minha cabeça pendesse pro lado e sabia que, caso virasse um pouco ela para a esquerda, o topo da minha cabeça deslizaria suavemente e cairia no chão junto com meus miolos. Então eu andava tentando equilibrar toda aquela merda despencando de mim. Tente imaginar e vai entender porque os zumbis andam desse jeito.
Saí do necrotério e tomei as ruas. Andei por horas, até chegar em casa. Já era noite quando minha esposa abriu a porta ao ouvir a campainha e se assustou comigo.
- Oi - Eu disse e sorri sem graça.
- Oi - Ela respondeu como quem não acredita no que vê.
- É tão ruim assim? - apontei meu rosto.
- Eu posso me acostumar.
- Eu posso entrar, está meio frio aqui fora. E eu to meio pelado.
- Ah! Claro, venha pra dentro - Ela me puxou pelo braço.
Lá dentro, pela primeira vez, pude me olhar no espelho. "Eu posso me acostumar", ela disse. Eu parecia 20 anos mais velho e pálido. Hematomas pretos na minha testa, minha pele rígida parecia que ia arrebentar a qualquer beliscão. Então foi isso que eu me tornei?
Tomei um banho, tentei consertar os pontos. Minha orelha caiu no chuveiro, prendi ela de volta na cabeça com um grampeador. Me vesti e encontrei ela na cozinha. Eu ainda enxugava os cabelos com a toalha, uma coisa que ela odiava. Eu sempre tinha essa mania de sair enxugando os cabelos pela casa e minha esposa ficava puta porque meu cabelo cai demais e o chão estava sempre repleto de fios de cabelo castanhos. Dessa vez, ela não me deu esporro, apenas ficou sentada na mesa tomando seu café e olhando para mim como quem não acreditava.
Afinal, não é todo dia que seu marido morre. Não é todo dia que seu marido morre e volta pra casa.
- Amor, me desculpe. - foi a coisa mais inteligente que eu pude pensar enquanto me sentava na mesa.
- Te desculpar pelo que?
- Por toda essa minha paranoia, por toda essa loucura. Eu deveria ter confiado em você desde o princípio.
- Querido, não se preocupe - ela estendeu os braços e segurou minhas mãos em cima da mesa - são coisas normais dentro um relacionamento.
- É que pra mim é muito difícil sabe? Depois de tudo que eu já passei... - Eu sei, eu sei, não precisa voltar lá. Já fizemos isso o bastante.
- Eu... eu preciso de um cigarro. - estiquei o braço e peguei um maço em cima do balcão. Também apanhei um cinzeiro.
- Quer café? - Ela ofereceu, no que me pareceu, apenas para dizer alguma coisa.
- Não, eu tô bem.
- Não, você não tá bem. Você tá morto Pedro.
- E qual o problema? Ainda posso fazer quase tudo que fazia quando estava vivo - acendi o cigarro, traguei fundo. Boa parte da fumaça saiu entre os pontos do meu peito.
- Tem certeza?
- Agora vai querer cismar só porque eu estou morto? Me poupe! - Percebi que não conseguia subir o tom de voz, eu falava quase sussurrando o tempo todo.
- Você fala disso como se não fosse nada!
- E não é! Eu vou ficar bem, só preciso de uma boa noite de sono!
- NÃO PORRA! VOCÊ TÁ MORTO!
Silêncio para entender o quão surreal é essa cena, afinal, não é todo dia que seu marido morto volta pra casa para discutir a relação.
- Que diferença faz? Me diz.
- Faz toda a diferença. - Ela subitamente ficou mais triste, mais serena.
- Já que eu estou morto mesmo, vamos abrir o jogo: eu sei que você tem um caso com aquele teu amigo do Rio.
- Você tá louco Pedro? O Renato é como um irmão pra mim!
- Sei. Um irmão que quer te comer. Fora aquele teu primo, o Wesley.
- Até meu primo Pedro? Ele é meu PRIMO!
- E daí? Todo mundo sabe que Deus fez as primas pra não comermos as irmãs!
- Que absurdo! Então quer dizer que você andava comendo as suas primas também?
- Sim, mas não enquanto estive casado com você!
- Amor, vou te dizer mais uma vez - ela segurava minhas mãos de novo - eu NUNCA te traí. Nunca tive um caso com ninguém.
- Eu imagino mesmo Gabriela, eu imagino...
- Porra cara, você morre e continua desconfiado de mim? O que eu fiz pra merecer isso meu Deus? - Ela cobriu o rosto com as duas mãos.
- E mesmo depois de eu morrer você continua mentindo!
- Porra, eu não estou mentindo!
- Mas não tem problema. Eu bem me lembro dos meus votos. O padre disse "Até que a Morte os Separe" lembra? Bem, eu já morri, então posso recuperar meu tempo perdido.
- Tempo perdido? - Ela fez cara de nojo - Que merda você tá falando?
- Sim, tempo perdido. Afinal, quando eu casei contigo era praticamente virgem. Não comi quase ninguém nessa vida. Pra quê? Pra morrer me debatendo no chão de uma padaria sem ter ao menos uma história de putaria pra contar pros parceiros no necrotério.
- Que escroto! Você não perdeu tempo coisa alguma. A gente tava casado e esse tempo todo você queria estar na putaria? Quem perdeu tempo fui eu.
- Perdeu coisa alguma meu amor...
- Meu amor é o caralho, fala assim com as suas nega! - Essa já me acertou bem no meio do saco.
- Todo mundo sabe que na época da faculdade você frequentava tudo quanto é festa de putarria e todo mundo sabe o que rolava nessa merda. Fui eu que perdi meu tempo! Agora vou aproveitar e curtir a vida - ou melhor - a morte!
- VOCÊ TÁ MORTO PEDRO! ESSA MERDA NÃO SOBE MAIS! - Segundo golpe no saco: já senti que não tinha como evitar o nocaute.
- Porra, não precisava apelar.
- Além do mais, eu nunca frequentei porra de festinha nenhuma. Eu tive que dar um duro danado pra me formar, além de estudar eu trabalhava dois períodos você não lembra? - realmente, eu me lembrava, mas...
- Mas eu sempre achei que...
- Achou errado! Vê se me respeita Pedro! Eu não sou qualquer biscate dessas por aí não. - Dedo na cara: só pra finalizar.
Eu já estava derrotado à essa altura, não dava pra falar mais nada. De repente percebi que todo aquele ciúme era infundado, toda aquela minha paranoia era minha insegurança falando mais alto. Então veio a Epifania.
- Sabe o que é Gabi? É que eu meio que tenho inveja de você.
- Inveja? Pera aí que essa é nova...
- Pois é... sempre me senti inferiorizado. Quando eu te conheci, você era a mais gostosa da turma, todo mundo queria te comer. Eu era só mais um garoto qualquer.
- Ah meu amor, de novo não... - Ela me abraçou, esbarrou na minha orelha grampeada que caiu no chão - Já conversamos sobre isso. Eu te amo, você sabe disso. Pra mim você é o melhor homem do mundo.
- Mas é complicado. Ás vezes sinto que você é boa demais pra mim e, em algum momento, vai notar isso e me trocar por um cara melhor.
Ela segurou meu rosto com firmeza e ternura. Senti meu pescoço estalar.
- Eu te amo Pedro, pra mim, não tem um cara melhor do que você. Se eu quisesse aquele monte de babões da época da faculdade, estaria com eles e não com você. - A resposta final seguida por um longo beijo foi mais eficaz do que uma dissertação de 12 páginas sobre os "Que"s, "Quem"s, "Como"s e "Porque"s.
Eu não pude dizer nada, apenas sorri e tentei me sentir melhor. Consegui dormir, finalmente. Mas só depois de mostrar pra ela que, mesmo depois de morto, subia sim. Até mais do que antes. O problema foi minha perna que enrijeceu-se e me impediu de continuar. Além dos pontos se abrindo e minha cabeça pendendo pro lado.
Acordei disposto no outro dia, nem parecia que eu tinha morrido. Minha auto estima estava melhor e resolvi voltar à padaria para tomar café da manhã.
Pedi ao portuga café com leite e pão com manteiga. Comi e escrevi de maneira voraz. O Noticiário da manhã anunciava que um corpo havia sido roubado do necrotério enquanto as pessoas me olhavam incrédulas. Foi quando ele se sentou ao meu lado.
- Pedro? É você? - disse o figurão com naipe de galã do meu lado direito.
Me virei pra ver quem era e reconheci Renato, o "Irmão" da minha mulher.
- Oi cara, quanto tempo! - Forcei um sorriso pra não ser inconveniente.
- Sim cara, bastante tempo.
- O que você tá fazendo em São Paulo? Você não trabalha no Rio?
- Sim, sim, vim pro casamento de uma prima minha.
- Entendi...
- Você tá meio morto cara, o que houve?
- Falta de inspiração, sabe como é né?
- Hmm, sei, perdi um tio assim. Que Deus o tenha.
- É, eu sinto muito. - Sinto porra nenhuma!
- Ah, mas isso já tem muito tempo também, foi na época da faculdade quando eu conheci a Gabriela.
- É mesmo? E como foi que vocês se conheceram?
- Ah, foi numa puta festa que fizemos na República onde eu morava. Foi do caralho, a gente sim sabia curtir...
Engasguei com o café, tropecei pra trás e o "tampão" do meu crânio caiu. Meu cérebro já começando a apodrecer se espalhou pelo piso frio. Morri pela segunda vez no chão daquela padaria. Olhando aquela lâmpada florescente que piscava, piscava, piscava....
Respirei fundo, tomei meu tempo e senti a tempestade vindo antes de dizer que não. Mas não fiz por mal: ofender com a sinceridade não é nenhum crime imperdoável. Ao menos não deveria ser.
Me peguei horas depois, já pela manhã, olhando o café preto no fundo da xícara no balcão daquela mesma padaria. O noticiário da manhã trazendo as novas sobre a alta da inflação. A estufa de salgados embaçada pelo calor. O vapor quente subindo da xícara de café. Minha cabeça apoiada sobre meu punho esquerdo fechado e meu cotovelo sobre o balcão. Na minha frente, meu pequeno caderno de anotações aberto numa página em branco e minha mão direita com a caneta à postos. Tudo em ordem: eu estava pronto para produzir.
E nada
.
Angustiado, tive um dos meus surtos. Senti como se dezenas de insetos andassem dentro da minha cabeça e roubassem cada uma das minhas ideias. Eu podia sentir os filhos da puta comendo cada pensamento meu. Ouvia eles conspirando, rindo baixinho, fazendo planos. Suas perninhas nojentas sobre as minhas memórias. Resolvi dar cabeçadas no balcão até ter uma concussão. No chão de piso frio da padaria, eu caí convulsionando. Sangue saindo pelos ouvidos e espuma saindo pela boca. Debatendo-me feito peixe fora d'água. Apaguei olhando a hipnótica lâmpada florescente no teto que piscava intermitentemente já anunciando que deveria ser trocada. E foi a última coisa que vi. O triste retrato da falta de inspiração, que seria justificada como causa da morte no meu Atestado de Óbito horas depois. Na mesa de Autópsia, tive tempo pra falar comigo mesmo.
Eles fizeram um corte em formato de "Y" no meu peito para avaliar minhas tripas. Também serraram o topo da minha cabeça para pesar meu cérebro. Socaram tudo de volta e me enfiaram numa gaveta gelada. Mas antes, ainda durante a sutura, consegui me ouvir uma vez na vida - ou melhor, na morte.
Decidi sair da merda da gaveta e passear pelo morgue. Por não ser um morto pervertido, tratei de me cobrir com um lençol antes de sair por aí. Eu andava e sentia meus joelhos estalando. Minhas tripas se mexiam como se estivessem soltas lá dentro. Era como estar prestes a dar a maior cagada da sua vida, porém ela nunca vinha. Eu não respirava, mas sabia que se pudesse, quase morreria com o cheiro de formol. Minha cabeça parecia estar escorregando, a sutura estava se desfazendo aos poucos. Mas não senti dor nenhuma, afinal, já estava morto.
Caminhei com meus pés descalços castigados pelo chão frio do necrotério. Ainda arrastava a etiqueta de identificação amarrada no meu polegar direito. Sentia como se minha cabeça pendesse pro lado e sabia que, caso virasse um pouco ela para a esquerda, o topo da minha cabeça deslizaria suavemente e cairia no chão junto com meus miolos. Então eu andava tentando equilibrar toda aquela merda despencando de mim. Tente imaginar e vai entender porque os zumbis andam desse jeito.
Saí do necrotério e tomei as ruas. Andei por horas, até chegar em casa. Já era noite quando minha esposa abriu a porta ao ouvir a campainha e se assustou comigo.
- Oi - Eu disse e sorri sem graça.
- Oi - Ela respondeu como quem não acredita no que vê.
- É tão ruim assim? - apontei meu rosto.
- Eu posso me acostumar.
- Eu posso entrar, está meio frio aqui fora. E eu to meio pelado.
- Ah! Claro, venha pra dentro - Ela me puxou pelo braço.
Lá dentro, pela primeira vez, pude me olhar no espelho. "Eu posso me acostumar", ela disse. Eu parecia 20 anos mais velho e pálido. Hematomas pretos na minha testa, minha pele rígida parecia que ia arrebentar a qualquer beliscão. Então foi isso que eu me tornei?
Tomei um banho, tentei consertar os pontos. Minha orelha caiu no chuveiro, prendi ela de volta na cabeça com um grampeador. Me vesti e encontrei ela na cozinha. Eu ainda enxugava os cabelos com a toalha, uma coisa que ela odiava. Eu sempre tinha essa mania de sair enxugando os cabelos pela casa e minha esposa ficava puta porque meu cabelo cai demais e o chão estava sempre repleto de fios de cabelo castanhos. Dessa vez, ela não me deu esporro, apenas ficou sentada na mesa tomando seu café e olhando para mim como quem não acreditava.
Afinal, não é todo dia que seu marido morre. Não é todo dia que seu marido morre e volta pra casa.
- Amor, me desculpe. - foi a coisa mais inteligente que eu pude pensar enquanto me sentava na mesa.
- Te desculpar pelo que?
- Por toda essa minha paranoia, por toda essa loucura. Eu deveria ter confiado em você desde o princípio.
- Querido, não se preocupe - ela estendeu os braços e segurou minhas mãos em cima da mesa - são coisas normais dentro um relacionamento.
- É que pra mim é muito difícil sabe? Depois de tudo que eu já passei... - Eu sei, eu sei, não precisa voltar lá. Já fizemos isso o bastante.
- Eu... eu preciso de um cigarro. - estiquei o braço e peguei um maço em cima do balcão. Também apanhei um cinzeiro.
- Quer café? - Ela ofereceu, no que me pareceu, apenas para dizer alguma coisa.
- Não, eu tô bem.
- Não, você não tá bem. Você tá morto Pedro.
- E qual o problema? Ainda posso fazer quase tudo que fazia quando estava vivo - acendi o cigarro, traguei fundo. Boa parte da fumaça saiu entre os pontos do meu peito.
- Tem certeza?
- Agora vai querer cismar só porque eu estou morto? Me poupe! - Percebi que não conseguia subir o tom de voz, eu falava quase sussurrando o tempo todo.
- Você fala disso como se não fosse nada!
- E não é! Eu vou ficar bem, só preciso de uma boa noite de sono!
- NÃO PORRA! VOCÊ TÁ MORTO!
Silêncio para entender o quão surreal é essa cena, afinal, não é todo dia que seu marido morto volta pra casa para discutir a relação.
- Que diferença faz? Me diz.
- Faz toda a diferença. - Ela subitamente ficou mais triste, mais serena.
- Já que eu estou morto mesmo, vamos abrir o jogo: eu sei que você tem um caso com aquele teu amigo do Rio.
- Você tá louco Pedro? O Renato é como um irmão pra mim!
- Sei. Um irmão que quer te comer. Fora aquele teu primo, o Wesley.
- Até meu primo Pedro? Ele é meu PRIMO!
- E daí? Todo mundo sabe que Deus fez as primas pra não comermos as irmãs!
- Que absurdo! Então quer dizer que você andava comendo as suas primas também?
- Sim, mas não enquanto estive casado com você!
- Amor, vou te dizer mais uma vez - ela segurava minhas mãos de novo - eu NUNCA te traí. Nunca tive um caso com ninguém.
- Eu imagino mesmo Gabriela, eu imagino...
- Porra cara, você morre e continua desconfiado de mim? O que eu fiz pra merecer isso meu Deus? - Ela cobriu o rosto com as duas mãos.
- E mesmo depois de eu morrer você continua mentindo!
- Porra, eu não estou mentindo!
- Mas não tem problema. Eu bem me lembro dos meus votos. O padre disse "Até que a Morte os Separe" lembra? Bem, eu já morri, então posso recuperar meu tempo perdido.
- Tempo perdido? - Ela fez cara de nojo - Que merda você tá falando?
- Sim, tempo perdido. Afinal, quando eu casei contigo era praticamente virgem. Não comi quase ninguém nessa vida. Pra quê? Pra morrer me debatendo no chão de uma padaria sem ter ao menos uma história de putaria pra contar pros parceiros no necrotério.
- Que escroto! Você não perdeu tempo coisa alguma. A gente tava casado e esse tempo todo você queria estar na putaria? Quem perdeu tempo fui eu.
- Perdeu coisa alguma meu amor...
- Meu amor é o caralho, fala assim com as suas nega! - Essa já me acertou bem no meio do saco.
- Todo mundo sabe que na época da faculdade você frequentava tudo quanto é festa de putarria e todo mundo sabe o que rolava nessa merda. Fui eu que perdi meu tempo! Agora vou aproveitar e curtir a vida - ou melhor - a morte!
- VOCÊ TÁ MORTO PEDRO! ESSA MERDA NÃO SOBE MAIS! - Segundo golpe no saco: já senti que não tinha como evitar o nocaute.
- Porra, não precisava apelar.
- Além do mais, eu nunca frequentei porra de festinha nenhuma. Eu tive que dar um duro danado pra me formar, além de estudar eu trabalhava dois períodos você não lembra? - realmente, eu me lembrava, mas...
- Mas eu sempre achei que...
- Achou errado! Vê se me respeita Pedro! Eu não sou qualquer biscate dessas por aí não. - Dedo na cara: só pra finalizar.
Eu já estava derrotado à essa altura, não dava pra falar mais nada. De repente percebi que todo aquele ciúme era infundado, toda aquela minha paranoia era minha insegurança falando mais alto. Então veio a Epifania.
- Sabe o que é Gabi? É que eu meio que tenho inveja de você.
- Inveja? Pera aí que essa é nova...
- Pois é... sempre me senti inferiorizado. Quando eu te conheci, você era a mais gostosa da turma, todo mundo queria te comer. Eu era só mais um garoto qualquer.
- Ah meu amor, de novo não... - Ela me abraçou, esbarrou na minha orelha grampeada que caiu no chão - Já conversamos sobre isso. Eu te amo, você sabe disso. Pra mim você é o melhor homem do mundo.
- Mas é complicado. Ás vezes sinto que você é boa demais pra mim e, em algum momento, vai notar isso e me trocar por um cara melhor.
Ela segurou meu rosto com firmeza e ternura. Senti meu pescoço estalar.
- Eu te amo Pedro, pra mim, não tem um cara melhor do que você. Se eu quisesse aquele monte de babões da época da faculdade, estaria com eles e não com você. - A resposta final seguida por um longo beijo foi mais eficaz do que uma dissertação de 12 páginas sobre os "Que"s, "Quem"s, "Como"s e "Porque"s.
Eu não pude dizer nada, apenas sorri e tentei me sentir melhor. Consegui dormir, finalmente. Mas só depois de mostrar pra ela que, mesmo depois de morto, subia sim. Até mais do que antes. O problema foi minha perna que enrijeceu-se e me impediu de continuar. Além dos pontos se abrindo e minha cabeça pendendo pro lado.
Acordei disposto no outro dia, nem parecia que eu tinha morrido. Minha auto estima estava melhor e resolvi voltar à padaria para tomar café da manhã.
Pedi ao portuga café com leite e pão com manteiga. Comi e escrevi de maneira voraz. O Noticiário da manhã anunciava que um corpo havia sido roubado do necrotério enquanto as pessoas me olhavam incrédulas. Foi quando ele se sentou ao meu lado.
- Pedro? É você? - disse o figurão com naipe de galã do meu lado direito.
Me virei pra ver quem era e reconheci Renato, o "Irmão" da minha mulher.
- Oi cara, quanto tempo! - Forcei um sorriso pra não ser inconveniente.
- Sim cara, bastante tempo.
- O que você tá fazendo em São Paulo? Você não trabalha no Rio?
- Sim, sim, vim pro casamento de uma prima minha.
- Entendi...
- Você tá meio morto cara, o que houve?
- Falta de inspiração, sabe como é né?
- Hmm, sei, perdi um tio assim. Que Deus o tenha.
- É, eu sinto muito. - Sinto porra nenhuma!
- Ah, mas isso já tem muito tempo também, foi na época da faculdade quando eu conheci a Gabriela.
- É mesmo? E como foi que vocês se conheceram?
- Ah, foi numa puta festa que fizemos na República onde eu morava. Foi do caralho, a gente sim sabia curtir...
Engasguei com o café, tropecei pra trás e o "tampão" do meu crânio caiu. Meu cérebro já começando a apodrecer se espalhou pelo piso frio. Morri pela segunda vez no chão daquela padaria. Olhando aquela lâmpada florescente que piscava, piscava, piscava....
Assinar:
Postagens (Atom)