Esse é um texto sobre tudo.
Uma carta-bomba, um visceral manifesto passivo-agressivo lido por uma puta bêbada largada bebendo água da sarjeta. Um hino mudo e carismático, a falsa oração de um cético que esconde a sua falta de fé. Um livro de rascunhos e anotações sobre quem fode quem e todas as amizades que a gente precisa romper pelo caminho para atender a irracional vaidade de nosso código de conduta.
A fúria predatória dos olhos que anseiam em me devorar. É o medo constante de se ter algo a perder. Ou não saber o que fazer ao ganhar.
Vítima e assassino numa macabra dança sem pares. O palpitar do coração ao descer até a cova dos Leões. As quarenta e oito horas antes da queixa do desaparecimento de um membro da família. O espaço-tempo entre o tropeço e o encontro com o pavimento como um reencontro entre velhos amigos. A soma da ira de todos os desajustados e incrédulos como cães de caça levando orgulhosos os seus próprios rabos amputados como agrado aos seus senhores.
A percepção de que a vida nos assombra mais do que a morte e a dúvida nos tortura mais que a dor. Todas as palavras que nos destroem ao serem engolidas por temermos os monstros que elas podem despertar se bailarem soltas ao vento. O exílio no Bosque, as flautas sopradas pelo vento e o peso do aço sobre o qual somos fundados.
As manchas de sangue no tapete, o desconforto das camas de hospital, os gracejos que se confundem com o fio das navalhas. A peregrinação interminável por esse deserto chamado vida. As vezes em que mutilamos nossa carne e nossas almas na tentativa de ser qualquer coisa exceto nós mesmos. Tudo aquilo que perdemos pelo caminho. A ilusão do controle.
É contar o tempo na tentativa patética humana de mensurar os acontecimentos. Pois não existe nada como o nada, todo zero é um conceito abstrato que nem mesmo no nosso imaginário pode existir. Talvez o espaço vazio seja a única coisa que não exista, portanto é uma ilusão gigante sentir-me assim. Nossos ossos fracos revestidos de nossa coragem escassa prontos para se partirem com o vento.
Todos os acontecimentos, tudo que existe, já existiu ou vai existir. O que consta ou não no nosso dicionário de sofrimentos obscuros. As coisas que não importam mais, as coisas que fingimos importar. O amor. O sexo. A arte. A morte.
O caos.
Tudo é simultâneo. Tudo se resume em um único lugar: agora.
domingo, 13 de março de 2016
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Lar
Eu me lembro do meu quarto, o último que tive e foi definitivamente meu para toda e qualquer possível interpretação. Ficava na última casa em que pude chamar literalmente de minha quando eu ainda tinha dezessete anos. No último momento em que pude chamar um lugar de lar sem qualquer sinal de hesitação. Foi meu santuário resumido a minha cama, meu computador, meu violão e meus poucos livros que eram tudo o que eu precisava para existir então. Onde eu passei quase todo o tempo que tive livre lendo, ouvindo música, assistindo pornografia e mantendo mínima interação com outras pessoas. Da mesma maneira que faço até hoje sendo que foi lá, inclusive, que tive a ideia e motivação de criar esse espaço onde eu posso destilar todas as minhas mais íntimas confissões. Aquele quarto foi minha cápsula do tempo que me levou até o futuro onde não mais poderia estar num único lugar embora, muitas vezes, eu quisesse. E isso tudo foi antes de eu dormir em sofás atraído pelo astro maior que era a televisão viajando através do tempo e do espaço sem jamais sair do lugar até o fim da existência.
Gabriel García Marquez em seu fantástico "Cem Anos de Solidão" diz que nenhum lugar pode ser chamado de seu até que se enterre um morto nele. O poeta americano Robert Frost diria que lar é onde, não importa quando ou como você chegue, será aceitado. Já Henry David Thoreau em seus diários comparava o homem dito civilizado com o nativo da terra sendo, o último, livre dentro de seu espaço, e o segundo prisioneiro de seu próprio lar. Acima de tudo, casas são prisões. Lugares que, de forma ou outra, nos restringem a liberdade através dos laços que nós mesmos criamos sem perceber seja através dos entes queridos enterrados ou pelos entes vivos que vão nos aceitar. E se esse lar é agradável ou não, não existe uma grande diferença, ele ainda funciona como uma prisão. Se cumpríssemos pena por um crime dentro da mais luxuosa mansão, ainda estaríamos presos, certo? Uma necessária prisão diante do medo de tudo o que há lá fora, da dureza do pavimento, do frio da chuva, da nossa insignificância em meio as luzes brilhantes e indiferentes das cidades com seus imponentes prédios e a frieza de todas as vidas que se cruzam com a sua todos os dias sem nunca de fato fazer uma diferença.
Talvez, por não ter um lar no sentido mais puro da palavra sem a sombra das ambiguidades que ela pode carregar, eu aprendi a enxergar o meu lugar em constante movimento. Pois talvez lar não seja um lugar, mas sim um momento, um sentimento, um recorte de nossa experiência em vida. Sua casa vazia, sem ninguém, nenhuma mobília, nada exceto aquilo que faz parte da construção, ainda é seu lar? Um amontoado oco de pedra, madeira e metal não é um lar assim como um cadáver não é uma pessoa. O residente é a alma do lar. Você sem a sua casa ainda é você. Sua casa sem você é só... uma casa. Talvez seja esse papel de protagonismo paradoxal à nossa insignificância no mundo que nos cerca que torne o conceito de lar tão confortante. Então eu comecei a enxergar minha casa em outros lugares: na saliva nos selos de cartão postal, nos cochilos do banco de trás durante uma longa viagem no meio da noite, nas catarses provocadas pelo álcool, no crepúsculo ou alvorada no horizonte, nas caminhadas longa sob a chuva, nas palavras amigas nos momentos difíceis, os cantos do passado para onde fugimos quando nada mais parece fazer sentido. Qualquer situação, momento ou lugar onde a minha insignificância diante da imensidão de tudo aquilo que existe, já existiu ou vai existir foi rebatida pela singularidade de ser quem sou e o quão único é o impacto da minha própria existência na vida de todo mundo a minha volta.
Isso é o que chamamos de legado. Aquilo que fica no mundo mesmo depois de partirmos para outra existência (ou existência nenhuma). Talvez sejamos tão obcecados com a ideia de possuir um lugar justamente para que ele se perpetue através das gerações posteriores como uma extensão de nossa própria personalidade. No final, todos os homens querem ser imortais, transcendentais, estoicos. Tudo o que queremos é ser o centro do universo, somente conseguimos fazê-lo dentro de um mundo criado por nós mesmos. Mesmo que ele vá da cama até o interruptor de luz. Ser o dono de alguma coisa, a alma de uma entidade, o protagonista das decisões. Tudo isso é reconfortante e funciona mesmo que seu lar não seja um lugar, mas sim um espaço de tempo, uma memória doce, um estado de espírito, um ideal flutuante que nada e ninguém pode tirar de nós.
Ainda, para mim, casa é qualquer espaço ou tempo onde eu possa repousar depois de salvar o dia não me tornando aquilo que me desapontaria aos oito anos de idade. E hoje, esse é um lugar que só existe dentro da minha cabeça.
Gabriel García Marquez em seu fantástico "Cem Anos de Solidão" diz que nenhum lugar pode ser chamado de seu até que se enterre um morto nele. O poeta americano Robert Frost diria que lar é onde, não importa quando ou como você chegue, será aceitado. Já Henry David Thoreau em seus diários comparava o homem dito civilizado com o nativo da terra sendo, o último, livre dentro de seu espaço, e o segundo prisioneiro de seu próprio lar. Acima de tudo, casas são prisões. Lugares que, de forma ou outra, nos restringem a liberdade através dos laços que nós mesmos criamos sem perceber seja através dos entes queridos enterrados ou pelos entes vivos que vão nos aceitar. E se esse lar é agradável ou não, não existe uma grande diferença, ele ainda funciona como uma prisão. Se cumpríssemos pena por um crime dentro da mais luxuosa mansão, ainda estaríamos presos, certo? Uma necessária prisão diante do medo de tudo o que há lá fora, da dureza do pavimento, do frio da chuva, da nossa insignificância em meio as luzes brilhantes e indiferentes das cidades com seus imponentes prédios e a frieza de todas as vidas que se cruzam com a sua todos os dias sem nunca de fato fazer uma diferença.
Talvez, por não ter um lar no sentido mais puro da palavra sem a sombra das ambiguidades que ela pode carregar, eu aprendi a enxergar o meu lugar em constante movimento. Pois talvez lar não seja um lugar, mas sim um momento, um sentimento, um recorte de nossa experiência em vida. Sua casa vazia, sem ninguém, nenhuma mobília, nada exceto aquilo que faz parte da construção, ainda é seu lar? Um amontoado oco de pedra, madeira e metal não é um lar assim como um cadáver não é uma pessoa. O residente é a alma do lar. Você sem a sua casa ainda é você. Sua casa sem você é só... uma casa. Talvez seja esse papel de protagonismo paradoxal à nossa insignificância no mundo que nos cerca que torne o conceito de lar tão confortante. Então eu comecei a enxergar minha casa em outros lugares: na saliva nos selos de cartão postal, nos cochilos do banco de trás durante uma longa viagem no meio da noite, nas catarses provocadas pelo álcool, no crepúsculo ou alvorada no horizonte, nas caminhadas longa sob a chuva, nas palavras amigas nos momentos difíceis, os cantos do passado para onde fugimos quando nada mais parece fazer sentido. Qualquer situação, momento ou lugar onde a minha insignificância diante da imensidão de tudo aquilo que existe, já existiu ou vai existir foi rebatida pela singularidade de ser quem sou e o quão único é o impacto da minha própria existência na vida de todo mundo a minha volta.
Isso é o que chamamos de legado. Aquilo que fica no mundo mesmo depois de partirmos para outra existência (ou existência nenhuma). Talvez sejamos tão obcecados com a ideia de possuir um lugar justamente para que ele se perpetue através das gerações posteriores como uma extensão de nossa própria personalidade. No final, todos os homens querem ser imortais, transcendentais, estoicos. Tudo o que queremos é ser o centro do universo, somente conseguimos fazê-lo dentro de um mundo criado por nós mesmos. Mesmo que ele vá da cama até o interruptor de luz. Ser o dono de alguma coisa, a alma de uma entidade, o protagonista das decisões. Tudo isso é reconfortante e funciona mesmo que seu lar não seja um lugar, mas sim um espaço de tempo, uma memória doce, um estado de espírito, um ideal flutuante que nada e ninguém pode tirar de nós.
Ainda, para mim, casa é qualquer espaço ou tempo onde eu possa repousar depois de salvar o dia não me tornando aquilo que me desapontaria aos oito anos de idade. E hoje, esse é um lugar que só existe dentro da minha cabeça.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
As Crônicas dos Piores Dias de Minha Vida #1
Isso foi há quase três anos atrás quando toda a merda do planeta parecia ter atingido o ventilador da minha sala de estar. Eu estava sentado nesse karaokê em algum lugar da Santa Cecília assistindo o Doda fazer a melhor performance possível de Last Kiss com seu affair da época, a coreana das poesias do tumblr, aquela de quem eu não gostava. Eu estava sentado vendo eles cantando, ou melhor, vendo ele cantando e ela tímida do lado dele do pequeno palco ensopados pelas luzes azuis de neon que me levavam a mais absoluta náusea. Estava sentado ao lado de sei lá quantas amigas dela com quem eu não consegui (ou não quis) trocar uma só palavra a noite toda. Eu estava ocupado demais sufocado com toda meu remorso e ira. Aquele que me acompanha até hoje.
Eu queria estar em qualquer lugar do mundo, menos ali, no meio da horda que sorria, aplaudia e cantava junto. Isso foi antes dos smartphones se popularizarem, foi antes de todo mundo ter a possibilidade de ser sugado pela internet no meio de situações sociais. Pelo menos eu ainda não tinha um, não podia ignorar o mundo ao meu redor e simplesmente ir chorar minhas mágoas no Twitter - eu nem tinha um Twitter ainda. Tudo o que eu tinha era um maço de cigarros e talvez esse tenha sido o único dia da vida em que esse vício valeu o preço que cobra. Meu álibi perfeito para sair de perto de todo mundo e ir fumar no mezanino, meu cúmplice no crime de não desejar participar de situações sociais por medo do constrangimento. É impressionante como eu me sinto nu em qualquer lugar com mais de cinco pessoas que eu não conheço.
Subi os três lances de escadas tentando fugir do som da música do outro ambiente assim que possível. Um ritual que eu repeti bastante naquela noite, fumei pelo menos uns quinze cigarros. Respirei o ar frio e senti a garoa fina me molhar o rosto pensando que eu nem deveria ter saído de casa naquele dia. Eu fui por causa dele, por sua insistência e teimosia. Doda foi quem me levou para São Paulo naquele mês de Março. Pagou pela minhas passagens, bancou quase todos os gastos da viagem, ele queria mesmo a minha companhia. Algo que ele fez mais por mim do que por ele na verdade. Ele queria me tirar da bolha, me levar pra ver o mundo lá fora, tentar me fazer sair do buraco de onde eu tinha me enfiado. É isso que amigos fazem e ele era - e ainda é - o melhor deles. Independentemente do esforço dele - ao qual sou grato até a data presente - a verdade é que eu me senti extremamente sozinho e isolado durante toda aquela viagem. E é sobre isso que escrevo.
Encostei-me no parapeito, puxei um cigarro de dentro do maço, acendi, traguei e exalei uma fumaça branca e densa que parecia dançar pelo ar enquanto eu olhava o movimento na rua lá embaixo. Na época, eu ainda fumava Dunhill Carlton Blend de filtros brancos com a embalagem mais bonita possível, isso foi antes de eu trocá-los pelo Marlboro Red - que é substancialmente mais forte - influenciado por outra amizade. E por ser uma marca mais fraca, eu fumava mais, então já era a enésima vez que eu subia naquele mezanino que funcionava como fumódromo em menos de duas horas.
Eu observava os táxis que chegavam na porta dos bares e boates com moças de vestidos bonitos ou saias justas tentando fingir que não estavam com frio. Os rapazes de camisetas polo listradas falando alto na porta de uma casa de eventos, carros e ônibus disputando espaço pela e estreita e, ainda sim, movimentada rua. Desejei ser como todos os que estavam lá embaixo, desejei ser qualquer um menos eu mesmo naquela noite. Eu ainda não tinha me acostumado, mas seria uma sensação bastante recorrente. Foi nessa época que eu descobri que a mais cruel de todas as prisões é não se sentir confortável debaixo da própria pele - algo que eu me lembro de dizer há um tempo atrás.
Aquele foi o fundo do poço. Eu não tinha nada, ninguém. Eu não tinha dinheiro, vontade, estudo, trabalho, perspectiva de futuro. Se eu tivesse morrido naquele dia, teria sido um alívio. Tudo o que tinha me levado até ali, tudo aquilo sobre o que eu já escrevi tantas e tantas vezes, todos os fantasmas que me assombram até hoje e me levam ao limite do suportável levando-me a crer se eu já o atravessei ou não.
E aquele foi um dos momentos que eu escolhi como controle.
Aquele momento em que Doda cantava Last Kiss ao lado da coreana no Karaokê aos aplausos dos clientes bêbados enquanto eu fumava um cigarro atrás do outro como pretexto para não estar lá como todo o resto. Um de vários momentos em que simplesmente ser tornou-se algo insuportável ao ponto de eu não querer mais a dádiva-maldição que é estar vivo. Mas eu não desisti. Eu mereço tudo aquilo que já aconteceu e tudo mais que ainda vai acontecer. Os altos e baixos, as vitórias e derrotas. Até o momento em que eu perca totalmente a minha sanidade.
Até lá, eu decoro as paredes da lembrança com todos esses momentos-controle que eu pintei em telas imaginárias para que eu possa recordar com riqueza de detalhes nas madrugadas de insônia, nas fugas ao banheiro durante ataques de pânico na faculdade, nos dias em que me sinto tão sozinho e isolado ao ponto em que me convenço de que sou a única pessoa viva a caminhar sobre a face da Terra. Para não me esquecer que eu já estive pior, que se passei por aquilo e vou passar pelo resto. E quando eu me sinto tentado a rasgar minha própria pele para escapar dessa prisão e ser qualquer coisa menos isso que sou dentro desse caixão de carne e osso e finalmente me sentir vivo, eu penso que passei vivo pelo final do último ano e pelo começo do ano anterior, então nada mais pode me impedir de continuar.
Tenho chegado ao meu limite, tenho evitado as pessoas que amo, ando "esquecendo" meu celular desligado para não ter que falar com ninguém, estou dormindo no sofá porque só Deus sabe o quão difícil é sair da minha cama nesses dias. Mas talvez Ele nem exista afinal de contas. O que nunca foi importante pra mim de fato. Ainda tenho meus quadros na parede para contemplar, mas elas já estão quase lotadas e nos últimos dias eu tenho precisado de mais espaço. Muito mais espaço.
Eu queria estar em qualquer lugar do mundo, menos ali, no meio da horda que sorria, aplaudia e cantava junto. Isso foi antes dos smartphones se popularizarem, foi antes de todo mundo ter a possibilidade de ser sugado pela internet no meio de situações sociais. Pelo menos eu ainda não tinha um, não podia ignorar o mundo ao meu redor e simplesmente ir chorar minhas mágoas no Twitter - eu nem tinha um Twitter ainda. Tudo o que eu tinha era um maço de cigarros e talvez esse tenha sido o único dia da vida em que esse vício valeu o preço que cobra. Meu álibi perfeito para sair de perto de todo mundo e ir fumar no mezanino, meu cúmplice no crime de não desejar participar de situações sociais por medo do constrangimento. É impressionante como eu me sinto nu em qualquer lugar com mais de cinco pessoas que eu não conheço.
Subi os três lances de escadas tentando fugir do som da música do outro ambiente assim que possível. Um ritual que eu repeti bastante naquela noite, fumei pelo menos uns quinze cigarros. Respirei o ar frio e senti a garoa fina me molhar o rosto pensando que eu nem deveria ter saído de casa naquele dia. Eu fui por causa dele, por sua insistência e teimosia. Doda foi quem me levou para São Paulo naquele mês de Março. Pagou pela minhas passagens, bancou quase todos os gastos da viagem, ele queria mesmo a minha companhia. Algo que ele fez mais por mim do que por ele na verdade. Ele queria me tirar da bolha, me levar pra ver o mundo lá fora, tentar me fazer sair do buraco de onde eu tinha me enfiado. É isso que amigos fazem e ele era - e ainda é - o melhor deles. Independentemente do esforço dele - ao qual sou grato até a data presente - a verdade é que eu me senti extremamente sozinho e isolado durante toda aquela viagem. E é sobre isso que escrevo.
Encostei-me no parapeito, puxei um cigarro de dentro do maço, acendi, traguei e exalei uma fumaça branca e densa que parecia dançar pelo ar enquanto eu olhava o movimento na rua lá embaixo. Na época, eu ainda fumava Dunhill Carlton Blend de filtros brancos com a embalagem mais bonita possível, isso foi antes de eu trocá-los pelo Marlboro Red - que é substancialmente mais forte - influenciado por outra amizade. E por ser uma marca mais fraca, eu fumava mais, então já era a enésima vez que eu subia naquele mezanino que funcionava como fumódromo em menos de duas horas.
Eu observava os táxis que chegavam na porta dos bares e boates com moças de vestidos bonitos ou saias justas tentando fingir que não estavam com frio. Os rapazes de camisetas polo listradas falando alto na porta de uma casa de eventos, carros e ônibus disputando espaço pela e estreita e, ainda sim, movimentada rua. Desejei ser como todos os que estavam lá embaixo, desejei ser qualquer um menos eu mesmo naquela noite. Eu ainda não tinha me acostumado, mas seria uma sensação bastante recorrente. Foi nessa época que eu descobri que a mais cruel de todas as prisões é não se sentir confortável debaixo da própria pele - algo que eu me lembro de dizer há um tempo atrás.
Aquele foi o fundo do poço. Eu não tinha nada, ninguém. Eu não tinha dinheiro, vontade, estudo, trabalho, perspectiva de futuro. Se eu tivesse morrido naquele dia, teria sido um alívio. Tudo o que tinha me levado até ali, tudo aquilo sobre o que eu já escrevi tantas e tantas vezes, todos os fantasmas que me assombram até hoje e me levam ao limite do suportável levando-me a crer se eu já o atravessei ou não.
E aquele foi um dos momentos que eu escolhi como controle.
Aquele momento em que Doda cantava Last Kiss ao lado da coreana no Karaokê aos aplausos dos clientes bêbados enquanto eu fumava um cigarro atrás do outro como pretexto para não estar lá como todo o resto. Um de vários momentos em que simplesmente ser tornou-se algo insuportável ao ponto de eu não querer mais a dádiva-maldição que é estar vivo. Mas eu não desisti. Eu mereço tudo aquilo que já aconteceu e tudo mais que ainda vai acontecer. Os altos e baixos, as vitórias e derrotas. Até o momento em que eu perca totalmente a minha sanidade.
Até lá, eu decoro as paredes da lembrança com todos esses momentos-controle que eu pintei em telas imaginárias para que eu possa recordar com riqueza de detalhes nas madrugadas de insônia, nas fugas ao banheiro durante ataques de pânico na faculdade, nos dias em que me sinto tão sozinho e isolado ao ponto em que me convenço de que sou a única pessoa viva a caminhar sobre a face da Terra. Para não me esquecer que eu já estive pior, que se passei por aquilo e vou passar pelo resto. E quando eu me sinto tentado a rasgar minha própria pele para escapar dessa prisão e ser qualquer coisa menos isso que sou dentro desse caixão de carne e osso e finalmente me sentir vivo, eu penso que passei vivo pelo final do último ano e pelo começo do ano anterior, então nada mais pode me impedir de continuar.
Tenho chegado ao meu limite, tenho evitado as pessoas que amo, ando "esquecendo" meu celular desligado para não ter que falar com ninguém, estou dormindo no sofá porque só Deus sabe o quão difícil é sair da minha cama nesses dias. Mas talvez Ele nem exista afinal de contas. O que nunca foi importante pra mim de fato. Ainda tenho meus quadros na parede para contemplar, mas elas já estão quase lotadas e nos últimos dias eu tenho precisado de mais espaço. Muito mais espaço.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Dois Mil e Quinze
De novo. Todas as músicas que me fizeram passar por mais um ano. Que me fizeram amadurecer e crescer de novo e de novo.
Janeiro
Janeiro
"I was falling for a girl who would ask me to come over
Just for a day, when her parents were away,
Now all I can do is lay in my room,
Fall asleep, dream of you,
Then wake up and do nothing about it"
Fevereiro
"You miss me when I'm gone
But when I'm around it's like I'm hidden behind the paint on the walls
The loneliness will keep me warm tonight
It'll keep me warm seeing as you won't"
Março
"I know my wounds will heal with timeBut still I wear all my scars with pride"
Just for a day, when her parents were away,
Now all I can do is lay in my room,
Fall asleep, dream of you,
Then wake up and do nothing about it"
Fevereiro
"You miss me when I'm gone
But when I'm around it's like I'm hidden behind the paint on the walls
The loneliness will keep me warm tonight
It'll keep me warm seeing as you won't"
Março
"I know my wounds will heal with timeBut still I wear all my scars with pride"
Abril
"I'm starting to believe that there's a god and he hates me.
I'm starting to believe that my mom lied about grace and divinity"
I'm starting to believe that my mom lied about grace and divinity"
Maio
"Self medicate cause I'm sick (I've got nothing in common)
Of cutting ties much to thick (With anything anymore)
Please make this painless and quick
Please make this painless and quick"
Of cutting ties much to thick (With anything anymore)
Please make this painless and quick
Please make this painless and quick"
Junho
"Is our skin to keep the world out or our bodies in?
This doesn't look like home, this doesn't look like home.
Is our skin to keep the world out or our bodies in?
I'll tear apart the town then sleep, and sleep alone."
Julho
"So rest in peace for the living dead
And where you sleep is where I plan to make my bed
I've got a song that belongs on your right arm
I need to know what you feel
And if you mean no harm"
Agosto
"I've lost count of all the times I've made it home alive...
And wished I hadn't"
Setembro
"I'm not sure what's worse
The waiting or the waiting room
and "You're next sir" becomes a cruel taunt to you
Recycled air, the smell of sleep and disinfectant
Your God is a two door elevator"
Outubro
"Cause you were heat lightning.
Yeah you were a storm that never rolled in.
You were the northern lights in a southern town, a caustic fleeting thing.
I’ll bury your memories in the garden;
I’ll watch them grow with the flowers in the spring.
I’ll keep you with me"
Novembro
"I lie for only you
And I lie well...
Hallelu..."
Dezembro
"We cast our hearts in plaster
We imagined our bodies were fashioned from stone
But they chipped at the brick and mortar
We found out that we're only layers of skin hiding bone
And our bones are like chains, old and rusted in the rain
They're going to snap when the weight shifts"
"Is our skin to keep the world out or our bodies in?
This doesn't look like home, this doesn't look like home.
Is our skin to keep the world out or our bodies in?
I'll tear apart the town then sleep, and sleep alone."
Julho
"So rest in peace for the living dead
And where you sleep is where I plan to make my bed
I've got a song that belongs on your right arm
I need to know what you feel
And if you mean no harm"
Agosto
"I've lost count of all the times I've made it home alive...
And wished I hadn't"
Setembro
"I'm not sure what's worse
The waiting or the waiting room
and "You're next sir" becomes a cruel taunt to you
Recycled air, the smell of sleep and disinfectant
Your God is a two door elevator"
Outubro
"Cause you were heat lightning.
Yeah you were a storm that never rolled in.
You were the northern lights in a southern town, a caustic fleeting thing.
I’ll bury your memories in the garden;
I’ll watch them grow with the flowers in the spring.
I’ll keep you with me"
Novembro
"I lie for only you
And I lie well...
Hallelu..."
Dezembro
"We cast our hearts in plaster
We imagined our bodies were fashioned from stone
But they chipped at the brick and mortar
We found out that we're only layers of skin hiding bone
And our bones are like chains, old and rusted in the rain
They're going to snap when the weight shifts"
sábado, 28 de novembro de 2015
Os meus ratos no porão.
Acho engraçado como nós não nos desapegamos facilmente de velhos hábitos. Já há muitos anos não sou mais um católico praticante. Há um bom tempo sequer tenho fé ou religião. Há alguns meses descobri que não me importo mais. Mesmo assim, ainda faço o sinal da cruz quase sempre quando passo por uma igreja.
Eu já não me sinto mais tão mal durante as aulas na faculdade, mas ainda tenho que me sentar de costas para a parede para não surtar com a possibilidade de ter alguém me observando de um lugar onde eu não possa vê-lo(a). Eu já não me sinto tão desajustado em relação a tudo e fora de lugar o tempo todo, mas se eu estiver sóbrio ainda tenho ataques de ansiedade em lugares lotados, em shoppings, em shows, em bares, em festas. E até em casa sozinho no meio da madrugada.
Não consigo deixar de pensar na história de pessoas que tem membros amputados, mas juram que ainda podem senti-los. Eu sou um homem sem pernas mexendo os dedos do pé.
Ainda temo pelos ratos no porão mesmo sabendo que não há mais nenhum deles lá. na verdade, não há porão algum.
Talvez seja o medo de mim mesmo que me torne constantemente execrável. Talvez eu esteja doente esse tempo todo e por isso tudo que eu penso, falo, escrevo e faço me soa cada vez mais patético e vergonhoso. Mas ainda estou aqui.
Eu já me sinto em casa em muitos lugares, mas não chego abrindo a geladeira e pondo os pés sobre a mesa. Questão de hábito ou vício, maneirismos ou filosofias. Eu ainda odeio a pessoa que eu vejo no reflexo do espelho do banheiro pois ela tenta ser algo que não é para evitar a realidade de sua insignificância. Até eu preciso estar ébrio pra me suportar, não posso julgar quem faz o mesmo.
Tenho divagado demais, me adiado demais, me criticado demais. No final, talvez seja porque eu goste, talvez seja parte da minha identidade sentar de costas para a parede. Talvez eu apenas goste de igrejas. Talvez a inaptidão seja parte de um conjunto de hábitos, e não uma característica. Até porque, ainda acho espaço para a arrogância e prepotência num mar de auto-consciência, auto-destruição.
Estou derrubando meus muros, meus dilemas morais, meus paradoxos éticos. Cansei dos velhos tecnicismos, da burocracia dos meus códigos de conduta. Mas ainda sinto cometendo algo de errado numa madrugada de Domingo quando todo meu corpo me diz estar cometendo um crime que minha mente não consegue enxergar.
Ainda faço o sinal da cruz quando passo por uma igreja. Ainda me deixo acreditar estar mais triste do que realmente estou. Ainda preso a pessoas que não amo mais. Ainda perseguindo fantasmas que sei que não existem. Ainda me vejo vítima de suicídios que eu sei que não vou cometer.
Sou escravo de meus próprios dogmas. E nada mais
Eu já não me sinto mais tão mal durante as aulas na faculdade, mas ainda tenho que me sentar de costas para a parede para não surtar com a possibilidade de ter alguém me observando de um lugar onde eu não possa vê-lo(a). Eu já não me sinto tão desajustado em relação a tudo e fora de lugar o tempo todo, mas se eu estiver sóbrio ainda tenho ataques de ansiedade em lugares lotados, em shoppings, em shows, em bares, em festas. E até em casa sozinho no meio da madrugada.
Não consigo deixar de pensar na história de pessoas que tem membros amputados, mas juram que ainda podem senti-los. Eu sou um homem sem pernas mexendo os dedos do pé.
Ainda temo pelos ratos no porão mesmo sabendo que não há mais nenhum deles lá. na verdade, não há porão algum.
Talvez seja o medo de mim mesmo que me torne constantemente execrável. Talvez eu esteja doente esse tempo todo e por isso tudo que eu penso, falo, escrevo e faço me soa cada vez mais patético e vergonhoso. Mas ainda estou aqui.
Eu já me sinto em casa em muitos lugares, mas não chego abrindo a geladeira e pondo os pés sobre a mesa. Questão de hábito ou vício, maneirismos ou filosofias. Eu ainda odeio a pessoa que eu vejo no reflexo do espelho do banheiro pois ela tenta ser algo que não é para evitar a realidade de sua insignificância. Até eu preciso estar ébrio pra me suportar, não posso julgar quem faz o mesmo.
Tenho divagado demais, me adiado demais, me criticado demais. No final, talvez seja porque eu goste, talvez seja parte da minha identidade sentar de costas para a parede. Talvez eu apenas goste de igrejas. Talvez a inaptidão seja parte de um conjunto de hábitos, e não uma característica. Até porque, ainda acho espaço para a arrogância e prepotência num mar de auto-consciência, auto-destruição.
Estou derrubando meus muros, meus dilemas morais, meus paradoxos éticos. Cansei dos velhos tecnicismos, da burocracia dos meus códigos de conduta. Mas ainda sinto cometendo algo de errado numa madrugada de Domingo quando todo meu corpo me diz estar cometendo um crime que minha mente não consegue enxergar.
Ainda faço o sinal da cruz quando passo por uma igreja. Ainda me deixo acreditar estar mais triste do que realmente estou. Ainda preso a pessoas que não amo mais. Ainda perseguindo fantasmas que sei que não existem. Ainda me vejo vítima de suicídios que eu sei que não vou cometer.
Sou escravo de meus próprios dogmas. E nada mais
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Sirenes
Me disseram que quando os alemães se renderam a sirene da Companhia Antárctica tocou por horas seguidas e essa cidade inteira - o mundo inteiro na verdade - celebrou ensandecidamente. Como uma final de Copa do Mundo ou uma festa de seis anos novos seguidos com a única diferença: ninguém enalteceu o autor dos gols ou fez promessas que não cumpriria depois de muito bêbado. Contaram os corpos de sessenta milhões de pessoas e o incalculável estrago material de quase seis anos de guerra. Houve quem nunca mais voltasse pra casa. Houve quem perdeu a família inteira.
Eu faço parte de uma geração que fracassou em praticamente todos os sentidos, jamais conseguirei entender como as pessoas passaram por aquilo. Hoje nós não chegamos à idade adulta sem meia dúzia de anti-depressivos, sem uma ou outra tentativa de suicídio, sem sermos diagnosticados com distúrbios que nem sabíamos existir até certo tempo atrás. Somos o feto abortado pela TV por assinatura porque o sabonete anti-bacteriano não quis assumir a responsabilidade. Não conseguimos olhar o mundo à nossa volta e nos divertir porque estamos ocupados demais de cabeça baixa olhando nossos smartphones tentando convencer pessoas tão miseráveis quanto nós mesmos que vivemos a vida que sonhamos viver.
Eu seria modelo perfeito para ilustrar a decadência dessa juventude. O atrapalhado quase herói tragicômico do programa popular da televisão. O Dom Quixote que vive o drama de não lembrar a senha do Wifi ou de não ter tantos seguidores no Instagram quanto gostaria. A epopeia trágica do consumidor inconformado quando o atendente do McDonald's esqueceu de esclarecer no pedido que o Big Mac era realmente sem pickles. O drama do nerd punheteiro tarado na garota mais bonita do colégio, mas que não tem auto-estima o bastante para sequer conversar com ela e que usa seu próprio fracasso para construir um discurso misógino que nem ele compreende. A incrível geração de gênios que não fazem nada de genial, que pouco ou nada contribuem com o mundo em que vivem mesmo tendo nascido na época mais próspera, pacífica e livre da história. O frustrado e egocêntrico blogueiro que pensa ser escritor só porque digita um monte de lixo sobre ele mesmo e que finge não se importar por não ter sequer dez leitores.
Foda-se isso, eu desisto. Eu não quero fazer parte disso. Eu não quero participar.
Isso não é bem uma carta de despedida, mas sim os termos da rendição. Porque eu cansei de tentar nadar contra a corrente, cansei de tentar ser mais do que isso, cansei de tentar impressionar. Não tenho mais recursos nem palavras. Nem coelhos para tirar da cartola, nem ases para sacar da manga do paletó. Não tenho mais paciência para lidar com a hipocrisia de vocês, não tenho mais equilíbrio para ouvir tantas mentiras agradáveis. Eu não posso mais me apegar a elas. Antes, era mais fácil ser forte, agora tudo parece longe e fora do meu alcance. Não adianta tentar reconstruir minha fortaleza, levantar meus muros, começar de novo. Hoje, minha defesa é uma cartela de Valium e meia dúzia de latas e cerveja. Um punhado de livros que amo sem ter lido, uma porrada de gente que carrego sem ter amado, um rancor maior que minha própria força de vontade, uma indiferença cada vez mais latente e a esperança do mundo ser um lugar melhor quando eu acordar daqui uns cinco dias.
Isso não é um adeus, é um até logo. Até o dia em que possamos nos ouvir e nos entender. Até o dia em que possamos ser melhores. Pois passei sei lá quantos anos achando que eu e minha vidinha éramos uma merda, mas percebi que não sou o único. Isso é uma doença social e quase todos nós estamos enfermos. Ébrios. Sujos. Estúpidos. Maldosos. Imperfeitos. Adoráveis. Humanos.
Ouço as sirenes soando, elas vieram me levar pra casa.
Eu faço parte de uma geração que fracassou em praticamente todos os sentidos, jamais conseguirei entender como as pessoas passaram por aquilo. Hoje nós não chegamos à idade adulta sem meia dúzia de anti-depressivos, sem uma ou outra tentativa de suicídio, sem sermos diagnosticados com distúrbios que nem sabíamos existir até certo tempo atrás. Somos o feto abortado pela TV por assinatura porque o sabonete anti-bacteriano não quis assumir a responsabilidade. Não conseguimos olhar o mundo à nossa volta e nos divertir porque estamos ocupados demais de cabeça baixa olhando nossos smartphones tentando convencer pessoas tão miseráveis quanto nós mesmos que vivemos a vida que sonhamos viver.
Eu seria modelo perfeito para ilustrar a decadência dessa juventude. O atrapalhado quase herói tragicômico do programa popular da televisão. O Dom Quixote que vive o drama de não lembrar a senha do Wifi ou de não ter tantos seguidores no Instagram quanto gostaria. A epopeia trágica do consumidor inconformado quando o atendente do McDonald's esqueceu de esclarecer no pedido que o Big Mac era realmente sem pickles. O drama do nerd punheteiro tarado na garota mais bonita do colégio, mas que não tem auto-estima o bastante para sequer conversar com ela e que usa seu próprio fracasso para construir um discurso misógino que nem ele compreende. A incrível geração de gênios que não fazem nada de genial, que pouco ou nada contribuem com o mundo em que vivem mesmo tendo nascido na época mais próspera, pacífica e livre da história. O frustrado e egocêntrico blogueiro que pensa ser escritor só porque digita um monte de lixo sobre ele mesmo e que finge não se importar por não ter sequer dez leitores.
Foda-se isso, eu desisto. Eu não quero fazer parte disso. Eu não quero participar.
Isso não é bem uma carta de despedida, mas sim os termos da rendição. Porque eu cansei de tentar nadar contra a corrente, cansei de tentar ser mais do que isso, cansei de tentar impressionar. Não tenho mais recursos nem palavras. Nem coelhos para tirar da cartola, nem ases para sacar da manga do paletó. Não tenho mais paciência para lidar com a hipocrisia de vocês, não tenho mais equilíbrio para ouvir tantas mentiras agradáveis. Eu não posso mais me apegar a elas. Antes, era mais fácil ser forte, agora tudo parece longe e fora do meu alcance. Não adianta tentar reconstruir minha fortaleza, levantar meus muros, começar de novo. Hoje, minha defesa é uma cartela de Valium e meia dúzia de latas e cerveja. Um punhado de livros que amo sem ter lido, uma porrada de gente que carrego sem ter amado, um rancor maior que minha própria força de vontade, uma indiferença cada vez mais latente e a esperança do mundo ser um lugar melhor quando eu acordar daqui uns cinco dias.
Isso não é um adeus, é um até logo. Até o dia em que possamos nos ouvir e nos entender. Até o dia em que possamos ser melhores. Pois passei sei lá quantos anos achando que eu e minha vidinha éramos uma merda, mas percebi que não sou o único. Isso é uma doença social e quase todos nós estamos enfermos. Ébrios. Sujos. Estúpidos. Maldosos. Imperfeitos. Adoráveis. Humanos.
Ouço as sirenes soando, elas vieram me levar pra casa.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
So(m)bras de Outubro
É Outubro de novo. E eu estou escrevendo outra carta que você nunca vai ler esperando que seja a última, mas sabendo que não deve ser. Mas tudo bem. Essa será a mais vazia de todas elas pois já não sei mais o que dizer. Já me faltam palavras, já me faltam maneiras de descrever o que tem se passado desde que você saiu da minha vida.
Eu sempre achei que esse sentimento fosse passar, sempre achei que com o tempo eu fosse esquecer, deixar de pensar isso. No primeiro ano, choraria como se estivesse revivendo aquilo tudo de novo. No segundo, repetiria numa intensidade menor. No terceiro, relembraria sem lágrimas e sem dor, apenas saudade. Acreditava que no quarto já deixaria a data passar batida, que eu nem lembraria. Eu jamais imaginaria que no oitavo ano eu ainda me sentiria tão mal quanto me sinto agora, aqui, escrevendo essas palavras. E posso te dizer que curiosamente, não é tristeza o que eu sinto.
É complicado. É uma mistura de angústia, raiva e saudade. Você me faz muita falta, mas sobretudo, a pessoa que eu era me faz muita falta. Por mais que eu deteste quem eu fui, eu era mais feliz sendo aquela pessoa. Eu não pensava demais, eu tinha cicatrizes a menos e fôlego a mais. Eu sei que saberia quais palavras escolher se estivesse aqui hoje, sei que me impediria de entrar em diversas enrascadas, que me ajudaria a sair de algumas outras e que pelo menos estaria lá para dizer que me avisou na maioria delas.
Será que você sabe o quanto tua sombra tem moldado aquilo que me restou pra ser?
Eu ainda me pego pensando em você. Na verdade, o tempo todo você está comigo mesmo quando não é Outubro. Você está espalhado por todas as coisas que eu escrevo aqui ou nos rodapés de caderno, nos cupons fiscais amassados, nas folhas de guardanapo dos bares, no verso das provas da faculdade. Eu ainda te ouço nas músicas que eu escuto e te enxergo nos filmes que assisto e nos livros que leio.
Te imagino calçando os chinelos pra ir comigo comprar pão na padaria num sábado de manhã. Vejo você no quintal brincando com os cachorros ou no quarto jogando videogame. Te vejo correndo pela rua e abrindo o tampão do dedão do pé jogando futebol no asfalto escaldante. Queria lembrar de mim mesmo dessa maneira, mas só me enxergo quatro dias depois do funeral voltando pra casa sozinho debaixo de chuva e sol fazendo o máximo possível pra não chorar. Hoje eu já não consigo mais. Você acharia irônico sabendo o quão fresco e chorão eu já fui.
É isso que você tirou de mim no dia em que eu te vi naquele caixão. É por isso que tem dias que eu te odeio mais do que te amo. Sua perda me obrigou a ser alguém que eu nunca quis ser e de quem não me orgulho. E o pior de tudo é ter feito uma promessa que eu nunca conseguiria cumprir. Aquela de viver tudo aquilo que você não teve tempo. Eu só consigo pensar na ironia do destino pois eu tenho certeza de que você gostaria de estar aqui agora enquanto eu não gosto. A certeza de que você merecia a vida que hoje eu desdenho. Você não tinha o direito de tomar meu lugar naquele caixão bem como eu não tinha o direito de ficar com o teu aqui em vida.
Eu me odeio pelo fato de saber que você é quem deveria estar aqui vivendo a vida que eu muitas vezes não quero viver. Porque sei que não voltaria frustrado para casa por ter chegado inteiro quando desejou profundamente que um motorista bêbado te acertasse na calçada ou que um assaltante com o dedo nervoso no gatilho trombasse com você pela rua. Eu sei que você não pensava nesse tipo de coisa. Você era um rapaz normal, saudável, alegre.
E ultimamente, tenho pensado muito numa saída de emergência, mas só como uma ideia distante, só quando eu não suportar mais respirar a fumaça desse incêndio no teatro chamado vida. Mas a ideia de que eu jamais te encontraria se eu fizesse é atormentadora. Pois se existe um céu, eu sei que você está lá, mas não tenho certeza se é pra lá que eu vou quando minha hora chegar. Mas também não me vejo no inferno. Mesmo depois da vida, não pareço me encaixar em lugar algum.
Naquele Outubro, você foi embora e me tirou o direito de viver uma vida vazia, sem significado ou propósito. Você tirou de mim o direito de não ter ambição alguma, de não amar o fato de acordar respirando todos os dias. Você me deu esse sentimento de culpa por não ser o melhor que eu poderia ser, por não ter todas as coisas que poderia ter e de não alcançar a plenitude que eu sei que você alcançaria em meu lugar. Mas hoje, oito anos depois eu te exonero da posição de guia, da função de me orientar, da responsabilidade de ser o modelo do que eu quero seguir. Te tiro o fardo de ter que saber que eu fracassei porque você não estava mais lá. Nunca foi sua culpa. A culpa foi toda minha, o tempo todo. É hora de seguir em frente.
Eu vou te esquecer.
Eu te amo, mas eu preciso. É a única maneira da minha vida continuar. E ela vai continuar de um jeitou ou de outro.
Eu sempre achei que esse sentimento fosse passar, sempre achei que com o tempo eu fosse esquecer, deixar de pensar isso. No primeiro ano, choraria como se estivesse revivendo aquilo tudo de novo. No segundo, repetiria numa intensidade menor. No terceiro, relembraria sem lágrimas e sem dor, apenas saudade. Acreditava que no quarto já deixaria a data passar batida, que eu nem lembraria. Eu jamais imaginaria que no oitavo ano eu ainda me sentiria tão mal quanto me sinto agora, aqui, escrevendo essas palavras. E posso te dizer que curiosamente, não é tristeza o que eu sinto.
É complicado. É uma mistura de angústia, raiva e saudade. Você me faz muita falta, mas sobretudo, a pessoa que eu era me faz muita falta. Por mais que eu deteste quem eu fui, eu era mais feliz sendo aquela pessoa. Eu não pensava demais, eu tinha cicatrizes a menos e fôlego a mais. Eu sei que saberia quais palavras escolher se estivesse aqui hoje, sei que me impediria de entrar em diversas enrascadas, que me ajudaria a sair de algumas outras e que pelo menos estaria lá para dizer que me avisou na maioria delas.
Será que você sabe o quanto tua sombra tem moldado aquilo que me restou pra ser?
Eu ainda me pego pensando em você. Na verdade, o tempo todo você está comigo mesmo quando não é Outubro. Você está espalhado por todas as coisas que eu escrevo aqui ou nos rodapés de caderno, nos cupons fiscais amassados, nas folhas de guardanapo dos bares, no verso das provas da faculdade. Eu ainda te ouço nas músicas que eu escuto e te enxergo nos filmes que assisto e nos livros que leio.
Te imagino calçando os chinelos pra ir comigo comprar pão na padaria num sábado de manhã. Vejo você no quintal brincando com os cachorros ou no quarto jogando videogame. Te vejo correndo pela rua e abrindo o tampão do dedão do pé jogando futebol no asfalto escaldante. Queria lembrar de mim mesmo dessa maneira, mas só me enxergo quatro dias depois do funeral voltando pra casa sozinho debaixo de chuva e sol fazendo o máximo possível pra não chorar. Hoje eu já não consigo mais. Você acharia irônico sabendo o quão fresco e chorão eu já fui.
É isso que você tirou de mim no dia em que eu te vi naquele caixão. É por isso que tem dias que eu te odeio mais do que te amo. Sua perda me obrigou a ser alguém que eu nunca quis ser e de quem não me orgulho. E o pior de tudo é ter feito uma promessa que eu nunca conseguiria cumprir. Aquela de viver tudo aquilo que você não teve tempo. Eu só consigo pensar na ironia do destino pois eu tenho certeza de que você gostaria de estar aqui agora enquanto eu não gosto. A certeza de que você merecia a vida que hoje eu desdenho. Você não tinha o direito de tomar meu lugar naquele caixão bem como eu não tinha o direito de ficar com o teu aqui em vida.
Eu me odeio pelo fato de saber que você é quem deveria estar aqui vivendo a vida que eu muitas vezes não quero viver. Porque sei que não voltaria frustrado para casa por ter chegado inteiro quando desejou profundamente que um motorista bêbado te acertasse na calçada ou que um assaltante com o dedo nervoso no gatilho trombasse com você pela rua. Eu sei que você não pensava nesse tipo de coisa. Você era um rapaz normal, saudável, alegre.
E ultimamente, tenho pensado muito numa saída de emergência, mas só como uma ideia distante, só quando eu não suportar mais respirar a fumaça desse incêndio no teatro chamado vida. Mas a ideia de que eu jamais te encontraria se eu fizesse é atormentadora. Pois se existe um céu, eu sei que você está lá, mas não tenho certeza se é pra lá que eu vou quando minha hora chegar. Mas também não me vejo no inferno. Mesmo depois da vida, não pareço me encaixar em lugar algum.
Naquele Outubro, você foi embora e me tirou o direito de viver uma vida vazia, sem significado ou propósito. Você tirou de mim o direito de não ter ambição alguma, de não amar o fato de acordar respirando todos os dias. Você me deu esse sentimento de culpa por não ser o melhor que eu poderia ser, por não ter todas as coisas que poderia ter e de não alcançar a plenitude que eu sei que você alcançaria em meu lugar. Mas hoje, oito anos depois eu te exonero da posição de guia, da função de me orientar, da responsabilidade de ser o modelo do que eu quero seguir. Te tiro o fardo de ter que saber que eu fracassei porque você não estava mais lá. Nunca foi sua culpa. A culpa foi toda minha, o tempo todo. É hora de seguir em frente.
Eu vou te esquecer.
Eu te amo, mas eu preciso. É a única maneira da minha vida continuar. E ela vai continuar de um jeitou ou de outro.
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